prosa

O Pacto

O Pacto



por Rozan Silva


Chovia muito naquela madrugada, mas havia luzes acesas na casa grande. Aquela seria uma noite que ficaria na lembrança e entraria para o rol das estórias contadas em volta de uma fogueira.


Chovia muito naquela madrugada, mas havia luzes acesas na casa grande. Aquela seria uma noite que ficaria na lembrança e entraria para o rol das estórias contadas em volta de uma fogueira. Estamos em Barra Mansa, em uma fazenda, em pleno ciclo do café. Época em que os coronéis mandavam e quem tinha juízo obedecia. E ali, dentro daquela casa grande, havia um coronel aperreado, que não parava de andar de um lado para outro. No quarto ao lado estava nascendo seu herdeiro, e nada podia dar errado.
Diacho, já fazem 3 horas que estão lá dentro e meu filho não nasce, pensava o coronel, quando bateram à porta. E quem diabos vem me incomodar logo agora?
Logo entra seu capataz, assustado, que diz:
_Coronel, tem alguém que quer falar agora com vosmicê.
_E quem quer falar comigo agora? Não estou para ninguém, nem para o diabo.
_ Mas coronel, acho que é ele mesmo.
_ Ele quem?
_ O diabo, sô. E disse que não arreda pé enquanto não for atendido.
_ Mas o que o diabo quer comigo? Eu não tenho nenhum trato com ele, nem quero fazer. Diga a ele para botar o rabo entre as pernas e sair de minha fazenda.
Mal acabou de falar e o diabo apareceu atrás do capataz, e já foi dizendo:
_ Você não pode me dispensar, e o que tenho a propor vai te interessar. Seu filho está para nascer, e se não fizer um trato comigo agora, vai crescer e ficar pobre, não vai ter dinheiro nem para te enterrar.
_ Ara seu peste, eu sou um dos mais ricos fazendeiros do vale, tenho dinheiro para 5 gerações, suma daqui que não faço trato com diabo. Aliás, você não parece com o diabo.
_ Você conhece meu pai?
_ Seu pai? Quem é seu pai?
_É o diabo, ora.
_ Mas você não é o diabo?
_ Não, sou filho dele.
_ ô capataz, você disse que era o diabo e era o filho dele.
_ Me desculpe seu coronel, mas sou o capataz, e não o porteiro. E ele é a cara do diabo.
_ Você conhece meu pai? Perguntou o filho do diabo.
_ Conhecer não conheço, mas já vi uns desenhos.
_ Vamos parar com essa prosa besta. Diabo, filho do diabo, cunhado do diabo, não me interessa, não faço trato nenhum.
_ Mas eu só quero a alma do seu filho que vai nascer, e não vou levar agora.
_ Some daqui, e se quiser levar alguma alma leva a desse capataz imprestável.
_ Disconjuro patrão. A minha alma ninguém leva.
_ Você vai se arrepender. Vai morrer pobre. O café não vai te dar mais dinheiro, e não vai demorar para isso acontecer.
_ Ara, vá para o inferno seu diabinho vidente. Vá agourar seu pai. E dizendo isso, o fazendeiro desfechou um tremendo direto de esquerda bem na fuça do diabo, que quase foi a nocaute.
Assim que conseguiu ficar de pé o diabo saiu em disparada, sem nada dizer.
O capataz olhou para o chão onde o diabo tinha caído e disse:
Óia patrão, ocê arrancou um dente dele.
Nisso, um choro de criança começou. Pouco depois a porta se abriu e a parteira saiu, satisfeita.
_ Seu filho nasceu, coronel. É um menino.
O fazendeiro correu para ver seu filho, deixando o capataz com o dente do diabo na mão. A parteira, ao ver do dente, perguntou:
_ O que aconteceu aqui?
Depois que o capataz contou a história, ela se benzeu, assustada.
_Valha-me Deus. Nossa Senhora!
_ Vou jogar isso lá fora, vou sim.
_ Não! Não faça isso!!!
_ O que não é para fazer? Perguntou o fazendeiro, que estava de volta à sala, com o filho nos braços.
_ Não jogue fora o dente. O senhor não sabe? O diabo pode voltar, e esse dente vai proteger seu filho. Vou contar uma história que minha avó me contou. Preste atenção coronel. É muito importante.
Enquanto a parteira contava a história sobre o diabo e os filhos dele, o fazendeiro e o capataz prestavam atenção, quase sem respirar.


No outro dia, em uma fazenda, muitos quilômetros ao norte da primeira, outro fazendeiro estava esperando o nascimento de seu filho, quando o filhote de diabo apareceu na sua frente. Dessa vez ninguém o anunciou, e o fazendeiro quase morreu de susto.
_ Quem é você? Como entrou aqui?
_ Sou o diabo, e vim te dar riqueza e prosperidade.
_ E quando é que o diabo traz riqueza e prosperidade? Saia já daqui seu cramulhão!!!
O jovem diabo, que já tinha passado um aperto na noite anterior, perdendo inclusive um dente, havia se preparado para esse encontro, e mudado sua estratégia.
_ Eu trago riqueza e prosperidade, bom homem. Sou um diabo novo. É minha primeira vinda ao reino de cima. E quando um diabo vem pela primeira vez à terra, traz felicidade em vez de dor. E você foi o escolhido para receber essa benesse.
O fazendeiro olhou desconfiado, nunca tinha ouvido falar nisso. Conhecia muitas estórias de diabo, mula sem cabeça, lobisomens, que eram contadas nas noites frias de inverno. Mas diabo trazendo felicidade, era a primeira vez.
_ E o que você quer me propor?
_ Ouça bem, rico fazendeiro. Daqui a pouco vai nascer seu filho, sim, um menino, para sua alegria. Mas ele vai nascer fraco, doente, e vai viver pouco. O café também vai acabar. Você vai ficar arruinado e verá seu filho morrer. O que te proponho é saúde para seu filho, e riqueza para você.
_ E o que quer em troca?
_ Ora, sua alma, é claro. Mas não agora. Quando você morrer. Ah, e se fizer o trato comigo, vai morrer bem velhinho, rico, e feliz.
O fazendeiro pensou um pouco. O café acabar? Perder seu valor? Isso nunca iria acontecer. Mas seu filho nascer doente. Isso poderia ser verdade. E ele não queria isso.
_ Está bem. O que tenho que fazer?
O diabo sacou do bolso um papel, colocou em cima da mesa que tinha no meio da sala. Com uma pequena faca, que o fazendeiro não viu de onde saiu, fez um pequeno corte no seu dedo, e deixou cair um pingo de sangue na página. Fez sinal para o fazendeiro, que estendeu seu dedo, que foi também cortado. Um pingo do sangue do coronel também caiu no papel. O fazendeiro baixou o olho para o documento, tentando ler o que estava escrito, mas ele não entendeu nada, exceto o nome, que estava no final. Era o seu, só que no fim, havia a palavra Filho.
_ Ei, meu nome não tem Filho, está errado.
_ Não está não. Eu não quero uma alma velha. Eu quero uma nova. Esse nome que está aí é do seu filho, que é assim que você vai registrá-lo. Você terá as riquezas, mas a alma dele será minha. E se você registrá-lo com outro nome, para se ver livre desse pacto, ele morrerá na hora.
_ Você me enganou!!! Maldito!!!
De repente, um choro fraco de criança invade a sala. O coronel para por um momento e olha para a porta do quarto, de onde vinha o som, e quando olha de novo para frente, o diabo havia sumido.
O coronel caminha devagar para abrir a porta e entrar no quarto, triste, sabendo que cometeu o maior erro de sua vida.


25 anos depois

Aquele era um dia festivo na região do Vale do Paraíba. Um grande casamento estava acontecendo. Uma semana de festa, e todos estavam se divertindo. Era a união de duas famílias ricas, era a união das maiores fazendas da região. Uma era a maior produtora de leite do Estado, na outra havia sido encontrado ouro. Os dois fazendeiros que estavam no alpendre, conversando, eram os mais influentes e respeitados homens do Vale. Um era o pai da noiva, e exibia um grande sorriso no rosto. O outro, o pai do noivo, ranzinza, com uma expressão taciturna, apagada.
_ O que há homem? Estamos unindo nossas famílias, porque você está com essa cara? Por acaso se arrependeu de casar seu filho com minha filha?
_ Não é isso compadre. Eu carrego um fardo muito grande. E chamei você em particular, porque não posso deixar que o casamento aconteça sem que eu te conte. Eu pensei muito, iria ficar calado, mas não posso. Não posso deixar sua filha se casar com meu filho sem que você saiba a burrada que fiz, quando meu filho nasceu. Eu tenho medo do que possa acontecer com nossos netos. Meu Deus, me perdoe pelo que fiz. Falou o fazendeiro, quase sussurrando as últimas palavras.
_ Estou ficando assustado. O que foi que você fez, há tantos anos, que pode ser tão ruim assim?
_ Vou te contar. Não peço que acredite em mim. Mas tenho que te contar.
O homem dá um suspiro, toma coragem, e começa sua narrativa.
_ Quando meu filho estava para nascer, eu não morava aqui perto, e sim bem mais ao norte, e tinha uma fazenda de café. Então, naquela noite, eu recebi a visita de um diabo.
_ O quê? Diabo? Exclamou o pai da noiva.
_ Sim. Um jovem diabo, acho que era filho do diabão. Ele me disse que meu filho iria nascer doente, iria morrer, e que eu iria falir. E aí, para encurtar a história, eu vendi a minha alma para ele. Só que ele me enganou, e na realidade, a alma que vendi era do meu filho, que agora vai ser seu genro.
_ Meu Deus!!!
_ Sim, eu também falo meu Deus todos os dias desde então, e peço perdão pelo que fiz. Daria tudo para ser a minha alma a ser levada, e não a de meu filho. Enfim, logo depois eu vendi minha fazenda, antes do café perder seu valor, me mudei para cá, onde encontrei ouro nas terras que aqui comprei. Hoje sou rico, meu filho tem saúde, mas sua alma é daquele diabo banguela.
Ao ouvir isso, o fazendeiro, pai da noiva, solta uma grande gargalhada.
_ Que é isso compadre. Rindo da desgraça dos outros. Dizendo isso, se levanta, já levando a mão ao revolver que tinha no cinto.
_ Calma homem, calma, não estou rindo de você, nem de sua história. Estou rindo porque tenho a solução de seu problema. Aliás, dos nossos problemas, porque eu também sofro com um parecido.
_ Solução? Como assim? Você sabe como salvar meu filho do inferno? E que problema parecido com esse você pode ter?
_ Sei sim. Sente-se de novo, acalme-se, que agora é a minha vez de contar uma história.
O fazendeiro, pai do noivo prometido ao demo, se sentou, olhando com esperança para seu compadre.
_ A minha história começa igualzinha a sua, também há 25 anos, bem aqui pertinho, na minha fazenda. Meu primeiro filho estava nascendo, e eu também recebi a visita do seu diabinho.
_ Também? Quer dizer que você vendeu a alma de seu filho para ele? Para aquele maldito desdentado?
Soltando outra gargalhada, essa sem provocar nenhuma reação violenta no amigo, o pai da noiva continuou.
_ Não vendi não. Eu me recusei. E quando ele fez a proposta, não era banguela. Quem arrancou o dente dele com um murro fui eu.
_ Você? Mas como? Um diabo não pode ser ferido. Pelo menos é o que todos dizem.
_ É verdade, um diabo não pode ser ferido. Mas um diabo novato pode. E eu o feri. Eu o deixei sem um dente, para sempre. Também me espantei de ver que ele caiu igual a um saco de batatas depois que o esmurrei, mas a parteira do meu filho me contou uma lenda, que eu comprovei ser verdade, e agora vou te contar.
O fazendeiro se levantou, pegou um copo de cachaça, bebeu de um gole só, sentou-se de novo, e contou o que havia ouvido da parteira.
_ Ela me disse que nos primeiros tempos, só havia um diabo, o único na face da terra, responsável por todos os males. Mas os homens foram se reproduzindo, aumentando de número, e ele foi ficando assoberbado de serviço. Aí foi que ele resolveu procriar, ter filhos diabinhos, para dividir o trabalho pesado dele. Então esses filhos do diabo, quando atingiam uma idade de rapaz, saiam do inferno, e vinham para cá para fazerem maldades e conquistarem almas. Quando um diabo novo chegava aqui, ele ainda era vulnerável, podia ser ferido, até ser morto. Enquanto ele não conseguisse sua primeira alma, seu primeiro contrato, ele era mortal.
_ Nossa! Então foi por isso que você conseguiu derrubar e arrancar o dente dele. Ele ainda não tinha conseguido nenhuma alma!
_ Exatamente! Era um diabo virgem!
Dessa vez os dois riram.
_A parteira me disse mais. Que ele poderia voltar, anos depois, e atentar meu filho, para que ele mesmo vendesse sua alma. Os diabos não recebem bem um não, e ficam procurando um sim. A única maneira de proteger meu filho das tentações futuras daquele diabo, seria fazer um cordão, colocar o dente do diabo nele, e fazer meu filho usar sempre, até dormindo. Enquanto o dente do diabo estivesse junto com meu filho, o diabo não conseguiria se aproximar dele.
_ Que história! E como isso pode salvar meu filho?
_ Vou chegar lá. Meu filho passou a usar esse sinistro colar. Protegeu ele do diabo, mas o afastou das moças, e ele tem muitos poucos amigos. A vida dele não é muito boa, mesmo eu não tendo vendido a alma dele. Anda sempre com medo de perder o colar, e dar de cara com o coisa ruim. É um bom rapaz, mas sua vida é diferente da dos outros de sua idade, a maioria já casados. O fazendeiro fez uma pausa, e sua fisionomia se entristeceu, lembrando de situações pelas quais seu filho passara. Então, recomeçou a falar.
_ Eu não fiz o pacto com o diabo, mas lembrei do que ele me disse, que o café iria perder o valor, e apesar de achar difícil de acontecer isso, eu acreditei. Mudei minha fazenda, de café para leiteira, e por isso continuei a prosperar. Ganhei muito dinheiro, e ganho até hoje. Usei parte desse dinheiro para tentar descobrir uma maneira de proteger meu filho para sempre daquele diabo. Eu queria matá-lo.
_ Matar um diabo? E é possível?
_ Sim. É possível. Descobri, depois de muitas besteiras que tive que ouvir de bruxos, xamãs, feiticeiras e outros charlatões, que um diabo pode morrer de três maneiras: uma delas é quando ele fica velho, e não consegue mais convencer as pessoas a venderem a alma para ele.
_ Velho? Um diabo fica velho?
_ O diabo pai não, esse nunca envelhece. Mas os filhos, apesar de viverem mais do que nós, em torno de 200 anos, envelhecem.
_ E morrem de velhice? Com os ossos enferrujados? Essa é boa!
_ Não. Pelo que aprendi, eles poderiam viver talvez até os 300 ou 400 anos, e se chegassem a essa idade, talvez morressem de velhice. Mas não é isso que acontece. Quando chegam aos duzentos anos, e já não dão conta do trabalho, o pai deles os mata.
_ O próprio pai?
_ Sim, afinal, ele é o diabo. Ele os mata. Assim, uma das maneiras de um diabo morrer, é pelo próprio pai.
_ Que coisa horrível! E a segunda? É quando ele ainda é virgem, não é?
_ Exatamente. Quando ele ainda não conseguiu nenhuma alma, como disse antes, ele é mortal. Pode morrer de tiro, de faca, de várias maneiras, como um homem comum.
_ Mas nosso diabo desdentado não poderá morrer assim. Ele não conseguiu a alma de seu filho, mas pegou a do meu.
_ Sim. Ele não pode mais morrer desse jeito. Então, sobrou a terceira maneira de um diabo morrer. A mais difícil de se conseguir, mas é a que para nós se tornou fácil.
_ E qual é? Fale logo homem!
_ É o seguinte: quando um diabo virgem é ferido, perde um dente, um dedo, uma orelha, qualquer coisa de seu corpo, e depois, esse dente ou o que for, entrar em contato com alguém que vendeu a alma para ele, automaticamente o contrato é desfeito, e o diabo cai morto, onde ele estiver.
_ Então...
_ Sim, então, se o diabo que me visitou, e que eu arranquei um dente, for o mesmo que foi na sua fazenda e levou a alma de seu filho, é só a gente colocar o colar que está no pescoço de meu filho no seu, e o diabo morre.
_ Incrível! Mas será que vai dar certo?
_ Compadre, você veja que existem milhares de diabos por aí, por isso é muito difícil saber quem levou a alma de quem, e qual diabo se feriu quando era jovem. Mas nossa história é da mesma época, e nós não morávamos tão longe assim um do outro. E eu arranquei um dente do meu diabo, e o seu era banguela. Só pode ser ele. Não custa nada a gente tentar.
_ Tem razão. Vamos fazer isso agora mesmo. Chame seu filho, que vou chamar o meu.
Os dois fazendeiros saem em busca de seus filhos, e minutos depois, os quatro estão juntos em um quarto isolado da fazenda.
Eles contam a história para os filhos, que ficam eufóricos. Mas logo vem o dilema. Quem vai tirar o cordão de um e colocar no outro? O fazendeiro que não vendeu a alma do filho dá a decisão:
_ Eu e meu compadre faremos isso juntos. É nosso dever de pai.
Todos concordam, com um leve aceno de cabeça. Então os fazendeiros se aproximam do colar, e o seguram ao mesmo tempo, tirando do pescoço do rapaz. Nesse momento a janela se abre, e um vento forte entra no quarto. Todos escutam um barulho, de algo se aproximando rápido.
Era o diabo, que havia sentido que o seu dente não estava mais em contato com o filho do fazendeiro que o renegara, e vinha para aproveitar a oportunidade.
_ Rápido. Vamos colocar no pescoço de meu filho, diz o fazendeiro que havia vendido a alma.
No momento em que colocaram o cordão no pescoço do rapaz, o diabo já estava dentro do quarto. Então, ao sentir o seu dente em contato com a pele do jovem que ele roubara a alma, o diabo gritou, um grito alto, que foi ouvido em muitos quilômetros. E começou a se desfazer. O grito foi diminuindo, até pairar no ar um silêncio mortal. E o diabo foi virando pó. O colar, com o dente sujo, também virou pó, e desapareceu. Em segundos, não havia nem sinal do diabo ou do colar, ficou apenas o silêncio.
Todos ficaram paralisados, assustados com o grito e com o que viram. Então um dos fazendeiros ajoelhou-se, logo seguido por todos, e começaram a orar. Eles tinham conseguido. O diabo estava morto.