prosa

Aconteceu na Fazenda da Posse

Aconteceu na Fazenda da Posse



por José Fleming


Era uma noite de chuva rica de relâmpagos e riscada por bandos de ventos de passos longos, que vindos da margem do outro lado do Rio Paraíba fustigava a casa da fazenda


Era uma noite de chuva rica de relâmpagos e riscada por bandos de ventos de passos longos, que vindos da margem do outro lado do Rio Paraíba fustigava a casa da fazenda próxima a margem do riacho Barra Mansa. Num dos lados do edifício assobradado ficavam os ranchos cobertos de sapê e, mais além, delineado pelos clarões dos relâmpagos, piscava o vulto de uma rústica capela. Do rio menor, corriam na estreiteza do leito, as águas da chuva recolhidas ao longo das margens cultivadas; que mesmo engrossadas pelos afluentes ribeirinhos, despejava suas águas mansas na margem encrespada do rio maior. Nessa cunha de terra, situada entre as margens rasas dos rios, foi que Francisco Gonçalves de Carvalho ergueu uma fazenda, construiu uma capela e um cemitério. Por que tomara posse do lugar graças a uma concessão do Vice-Rei, o Conde de Cunha, no ano de 1764, de a fazenda o nome de Posse e nela residiu por alguns anos. Ali por perto passava o caminho de tropas que descia de Minas para comerciar nos portos de Angra dos Reis e Paraty. Era uma noite chuvosa. A sede da fazenda golpeada pela chuva achava-se às escuras. Somente na capela tênues traços de luz brilhavam entre uma fresta da porta entreaberta. No interior da capela, agrupados em duas filas de toscos bancos, reunidos a alguns agregados e escravos, achava-se um grupo de tropeiros. No fundo da capela, quase encostado a parede, uma mesa retangular coberta por um atoalhado de tafetá branco; um oratório fechado por uma cortina de linho azul, sustinha em seu teto uma cruz de madeira. Nas duas pontas da mesa, fincada em um castiçal de cobre, de forma côncava, uma grossa vela bruxuleava, proporcionando uma fraca luminosidade ao interior do humilde templo. Ao desabar do temporal naquele começo de noite, logo as várzeas se alagaram. As enxurradas crescendo no terreiro da fazenda invadiram o rancho desprotegido de paredes onde se abrigavam os tropeiros. O dono da Posse, Francisco Gonçalves, abriu a capela para que todos nela se abrigassem, até o cessar da inesperada tempestade. Lá se achavam todos reunidos; mais alguns agregados e escravos, em companhia do proprietário da Posse, à espera de que se findasse o aguaceiro, com seu cortejo de relâmpagos e trovoadas, quando de repente a porta foi aberta de empurrão e um homem de meia idade, sem chapéu, molhado dos pés a cabeça, entrou assustado na capela.
_ Irmãos! Exclamou. Pelas chagas de Cristo. Sou o padre Luiz de Sá. Sou perseguido pelos soldados do Rei. E tirando debaixo da capa que portava uma imagem de São Sebastião, talhada em madeira, de dois palmos de altura, colocou-a em cima da mesa, na frente do tosco oratório. Em seguida caminhou para o lado mais escuro da capela e sentou-se na ponta de um banco. O senhor da Posse, diante daquele inesperado acontecimento levantou-se da cadeira onde se achava sentado, no lado esquerdo da mesa, e permaneceu por uns instantes sem ação. Súbito, tomou a decisão de caminhar para o lado do estranho, quando um grupo de soldados da Guarda Real entrou apressado na capela.
_ Calma, pediu ele aos tropeiros, que alvoroçados, se puseram de pé. Permaneçam calados e em silêncio. Deu uns passos em direção aos soldados comandados por um oficial, todos respingando água de seus uniformes. Enquanto tomavam posição para impedir a saída de todos que se achavam no interior da capela, o oficial ordenou:
_ Todos sentados! Que ninguém saia do seu lugar. Sem se importar com a ordem dada, Francisco Gonçalves aproximou-se do oficial, dando a entender que era o dono daquela fazenda. Como apenas duas velas alumiavam o recinto da capela, a escuridão era quase total. Apenas na parte da frente se podia distinguir as feições dos ocupantes, ao passo que na parte traseira, mal se distinguiam os vultos dos que ali se refugiavam. Lá fora a chuva ainda continuava.
_ Sou o Capitão Ruiz. Busco um fugitivo da justiça do Rei. Creio que ele acabou de entrar nesta capela, bradou. Era o sesmeiro Francisco Gonçalves de Carvalho um homem ponderado. Sem demonstrar temor com a fala do oficial, avaliou o risco que corriam ele e o religioso que lhe pedira proteção. Antes que surgisse alguma manifestação entre os tropeiros, respondeu de maneira franca, expressa num tom de voz suficiente para que todos escutassem.
_ Senhor oficial. Nenhum estranho entrou nesta capela. A não ser que tenha entrado sorrateiramente. Como o senhor percebe, a escuridão aqui é quase total e a porta fica a nossas costas. E, antes que o Capitão Ruiz respondesse, indagou com propositada calma.
_ Que fugitivo é esse? Algum criminoso? O senhor oficial o conhece?
_ Não, respondeu o oficial do Rei. Mas é um contrabandista. Fui informado de sua passagem por este caminho. Quando nos aproximamos, ele desconfiou de nossa missão e fugiu. Estamos em seu encalço. Entrou nas terras de sua fazenda, achamos sua mula junto do curral. É possível que ele tenha entrado nessa capela. A situação de Francisco Gonçalves era embaraçosa. O perseguido, que se intitulava padre Luiz de Sá seria encontrado, sem possibilidade de fuga, entre os tropeiros ali reunidos. O Capitão da Guarda já tomara as providências para que isso acontecesse. Além de alguns soldados na porta da capela para evitar que alguém tentasse fugir, foi determinando suas ordens.
_ Senhor! O fugitivo está todo molhado, suas roupas e a cabeça. Ele perdeu o chapéu na fuga. Em nome do Rei, ordeno que sejam revistados todos que aqui se encontram. Se ele entrou nessa capela, será logo encontrado. Francisco Gonçalves permaneceu calado. Não tinha como reagir ou evitar a decisão do oficial do Rei. O padre acusado de contrabando seria logo encontrado por que suas vestes ainda respingavam a água da chuva. Esmagados pela penumbra que bruxuleava das duas velas acesas, quase ninguém respirava na capela. O silêncio que reinava entrecortado pela respiração dos homens ali agrupados tornou-se mais opresso. Outra ordem do oficial ressoou autoritária e forte, deixando os tropeiros sem ação diante do que fora ordenado aos soldados:
_ Revistem todos! O grupo de soldados se dividira. Uns foram para o lado direito, e outros para o lado esquerdo das carreiras de bancos. Os tropeiros e agregados tiveram então suas roupas e cabeças apalpadas. Francisco Gonçalves de Carvalho permaneceu de olhos fechados, diante da mesa com a imagem de São Sebastião às suas costas, com os ouvidos atentos ao silêncio que reinava a espera que a qualquer instante surgisse o rebuliço da prisão do padre Luiz de Sá. Mas o que o deixou atônito foi ouvir a voz de um dos soldados exclamar:
_ Capitão! Estão todos enxutos. Ninguém com as roupas ou a cabeça molhadas. A pressão que sufocava o interior da capela desanuviou-se do temor que pairava na obscuridade do pequeno templo; mas uma pergunta aflorou-se no pensamento de cada tropeiro ali presente. O que acontecera? Francisco Gonçalves de Carvalho, próximo da mesa, com a imagem de São Sebastião em frente do oratório, não conseguiu de momento entender o inusitado acontecimento de não haver sido achado o padre com as roupas molhadas. Vira o padre Luiz de Sá chegar encharcado, momentos antes dos soldados, e refugiar no canto mais escuro da capela. Calculou que ele estivesse escondido debaixo de um dos bancos, com altura suficiente para alguém de baixa estatura, como o padre, se esconder de baixo, ou se esgueirado, protegido pela escuridão para trás da mesa coberta pelo largo atoalhado. Foi o Capitão Ruiz que rompeu o silêncio, que tornava mais nítido o rumor da chuva fora da capela.
_ Senhor! Creio que o fugitivo tomou outro rumo. Será mais fácil apanhá-lo, agora que foge a pé. Francisco Gonçalves de Carvalho passou logo ao oficial preciosa informação.
_ Do outro lado do cemitério parte uma trilha que chega a São João Marcos. É bem possível que ele a tenha tomado.
_ Seguiremos essa trilha, respondeu. Assim que o dia amanhecer será mais fácil capturá-lo.
E, alçando a voz num tom mais autoritário, solicitou ao fazendeiro.
_ Senhor, gostaria de ter a permissão para revistar vossa casa. É bem possível que tenha se escondido em vossa residência.
_ Tem toda a minha permissão, Capitão. Desde que, meus aposentos particulares sejam respeitados. Francisco Gonçalves de Carvalho deixou a capela, acompanhado pelo Capitão Ruiz e seus soldados, e caminharam para a sede da fazenda. A chuva continuava, mas afrouxava sua força e deixava antever que em breve iria se amainar. Entraram, acompanhado pelo fazendeiro, o oficial e dois praças. A sala principal da fazenda estava iluminada por um candeeiro de cobre pendurado numa das paredes. De um armário o fazendeiro tirou um pacote de velas, e com elas acesas percorreram os cômodos do primeiro pavimento, sem nada encontrar. Começaram a subir as escadas do segundo andar, quando o Capitão Ruiz declarou:
_ Senhor! Estou satisfeito com a revista. Saíram da residência, para alívio de Francisco. Ainda debaixo da chuva apanharam suas montarias e tomaram a trilha que conduzia a São João Marcos, levando a mula do fugitivo.
O dono da Posse retomou a capela levando as velas que usara na revista de sua residência. Encontrou o padre Luiz de Sá ajoelhado diante da imagem de São Sebastião. Chamou dois de seus escravos e passou-lhes uma ordem.
_ Saiam e vigiem os arredores da capela. O Capitão Ruiz poderá voltar de repente. Agora, sob a claridade de numerosas velas, a capela se achava iluminada. O padre Luiz de Sá, que se achava ajoelhado, ao ver aproximar o fazendeiro, levantou-se contrito e respeitoso.
_ Senhor! Aconteceu um milagre, disse com a voz trêmula. E, apontando para a imagem de São Sebastião, declarou:
_ Senhor, a imagem é oca. Dentro levo ouro do Bispado de Campanha para as obras de caridade do Bispado do Rio de Janeiro. Tive a proteção do mártir São Sebastião. Ainda sob o efeito a emoção que tornara suas mãos trêmulas, comentou:
_ No momento em que o Capitão ordenou a revista de todos, senti que minha roupa e meus cabelos molhados se enxugavam. Uma lassidão apoderou-se de mim e meu coração que batia forte se acalmou. Senti que alguém me protegia oculto na escuridão da capela.
_ Levarei o ouro oculto em minhas roupas, continuou. A imagem de São Sebastião ficará nessa capela como uma dádiva ao mártir que nela me protegeu. Francisco Gonçalves de Carvalho então apontou para um dos tropeiros que se achava a seu lado.
_ Este é o Graciano, o capataz da tropa. Ele o conduzirá disfarçado de tropeiro até Angra dos Reis. De lá seguirás para o Rio de Janeiro sem nenhum risco, já que os soldados que andam a sua procura não conhecem o teu rosto. Nessa noite nenhum daqueles que se achavam na capela se retirou. Nela permaneceram ajoelhados até que o dia amanheceu. Quando se retiraram da capela, já com a chuva serenada, no oratório sobre a mesa ficou entronizada a imagem de São Sebastião. Alguns anos depois, Francisco Gonçalves de Carvalho passou a Fazenda da Posse para outro dono. Mais tarde ,quando a rústica capela foi transferida mais para o centro de Barra Mansa, a imagem de São Sebastião não foi encontrada no primitivo altar. Certamente Francisco Gonçalves a levara em seu oratório para o Rio de Janeiro. Tomei conhecimento desse histórico fato porque sou descendente do tropeiro Graciano. E nos serões da família, muitas vezes ouvi minha avó contar com doce emoção, o milagre que São Sebastião fizera na Fazenda da Posse.