prosa

Dá para esquecer Barra Mansa?

Dá para esquecer Barra Mansa?



por Mércia Heloísa Monteiro Christani


Barra Mansa para mim, em toda a minha infância, teve sabor de festa, alegria, novidade.


Sempre me perguntam: Você é de onde? Respondo – sou mineira mas fui criada em Barra Mansa. Nunca deixei de fazer alusão a Barra Mansa, apesar de estar fora de Barra Mansa há muito tempo!
Morei quando menina e adolescente, em vila Nova, na Praça da Bandeira, na Mário Ramos e por último na Estamparia, sendo vizinha da querida e saudosa D. Lurdinha Chiesse.
Existem situações várias que vivi em Barra Mansa, que estão gravadas para sempre na memória.
As lembranças que guardo de Barra Mansa são as verdadeiras lembranças de minha infância, não que esteja renegando as minhas origens, mas realmente as vivências, os folguedos infantis, eu os desfrutei em Barra Mansa, pois cheguei pequenina, senão, até seria injusta com as minhas lembranças.
Quando cheguei a Barra Mansa com minha mãe, meu pai foi nos buscar na estação de Barra do Piraí, onde o trem mineiro fazia baldeação. Tomamos um táxi e fomos para nossa casa em Vila Nova. Era uma casa muito simpática, de cor creme, com uma varanda que era uma graça, sendo a última de um conjunto de quatro casas iguais, todas novinhas e meu pai a havia mobiliado, e portanto, tudo cheirava a novo!
Fui estudar na escolinha D. Gláucia. Como me esquecer quando ia para a escola daqueles morros tão verdinhos, do armazém do “Seu” Juca, onde a gente se deliciava com Maria-mole, balas de coco queimado (nunca mais encontrei essas balas).
Como esquecer as pinguelas que tínhamos que atravessar antes de chegar à escola? Era um suspense... Mas se tivesse outro caminho não iríamos, pois aquela sensação de medo era deliciosa e dava asas à imaginação...
Quando esquentava, a criançada ia pegar “bitu”. Os meninos diziam para as meninas encherem as latinhas que os pescadores compravam. Eu, como as outras meninas, enchíamos as latinhas. Que eu me lembre, nunca ganhei dinheiro com bitu...
Em Vila Nova, brinquei muito, participei da cruzada na Igreja de Santa Cruz, fui até catequista, ainda menina!
Uma grande lembrança de minha infância, foi um presente que ganhei de D. Gláucia: um pintinho bem amarelinho que trouxe para casa dentro do meu casaco, pois estava muito frio. Na minha casa não tinha quintal de terra. Era uma área cimentada com cimento bem lizinho. E foi lá que o pintinho cresceu, virou um frango com umas unhas enormes, pois não tinha onde ciscar.
Nessa época minha avó, já morava conosco e ela era excelente cozinheira! Ela estava de olho no frango, para fazer um guisado, e vivia insinuando para mim que o franguinho ali não poderia viver. Eu chorava e não deixava ninguém levar o meu frango.
Porém, um dia ao chegar da escola, senti aquele cheirinho de comida gostosa e o meu franguinho não estava no quintal. Já se pode adivinhar onde estava: na panela! Como chorei! E é óbvio que não almocei nem jantei aquele dia e fiquei muito tempo sem comer galinha. Que eu me lembre até estar no primário, guardei no meu livro de reza suas penas e o gosto da decepção, motivo de riso de algumas coleguinhas, que não entendiam ser aquela, a primeira decepção de minha vida.
Barra Mansa para mim, em toda a minha infância, teve sabor de festa, alegria, novidade. Era uma sensação de prazer infinita, com gosto de bala de coco queimado que nunca esqueci...
Então, dentre tantas lembranças de minha infância, dá pra esquecer Barra Mansa?


Barra Mansa - 1968