prosa

O homem que não podia sair do elevador

O homem que não podia sair do elevador



por Asséde Paiva


O elevador abria e fechava, rangendo os parafusos oxidados. Parou entre dois andares.


Caminhava seguro e pensativo. Carregava com firmeza um envelope que podia conter documentos valiosos, na verdade, era rascunho de uma novela que prometia ser sucesso na TV, segundo seu pensamento.
O tempo estava carregado e soturno. Bié, apelido de Gabriel observava o respingo do orvalho da noite, e os pássaros davam os primeiros chilreios. Um morcego que perdera o horário de retorno à caverna passou em voo rasante. Ele balançou a cabeça reprovadora e continuou... Tinha um objetivo a alcançar, precisava chegar cedo, pois, sabia que a emissora de TV, logo se encheria de gente: artistas, funcionários, visitantes, fornecedores, na lufa-lufa do dia a dia e, talvez perdesse o momento de ser recebido pelo diretor e de mostrar o seu trabalho. Isto era mau, decepcionante mesmo e não podia acontecer. Às cinco e meia da manhã, o metrô estaria com poucos passageiros. Melhor para ele, que poderia sentar e revisar o texto.
Desde a inauguração do metrô, Bié jamais voltara a pegar ônibus. O novo sistema era confortável, seguro, com ar refrigerado, bancos novinhos, cheirando à tinta fresca. Aderira incondicionalmente. Assim, atravessou a rua Rodolfo Dantas e, distraído, quase foi atropelado por um carro que, àquelas horas não se dera à obrigação de parar no sinal vermelho. Bíé deu um salto e gritou um palavrão ao motorista descuidado. Ele, debochado pôs a mão para fora e fez o sinal, significativo: “vai tomar no c”!
— Eu vou te pegar — gritou Bié, sabendo de antemão que isto dificilmente aconteceria. “Merda, que cidade nojenta!”
Na praça Cardeal Arcoverde, entre cortinas do nevoeiro, a estação do metrô, apareceu de boca aberta, como um dragão pronto para engoli-lo. “Ah! Que nevoeiro esquisito!” Logo foi engolfado por aquela bocarra e esqueceu o nevoeiro. As lâmpadas da estação assumiram estranho fulgor, como num passe de mágica; o claro ficou escuro; ficou à mercê dos seus instintos. No interior havia muita gente à espera do trem, contudo, não se distinguia com nitidez seus vultos. Os rostos pareciam distorcidos e feios; alguns tinham tonalidade esverdeada.
Olhando para todos com maior concentração viu que alguns passageiros confabulavam em voz baixa. Muito atordoante e confuso para ele, que se sentia no limbo. O importante era seus originais. Agarrou o envelope ferozmente e desistiu de abri-lo. O trem chegou silenciosamente, iluminando a plataforma com farol de claridade duvidosa. Depois do ranger dos freios, as portas automáticas se abriram e todos entraram.
No interior da composição ficou mais escuro; luzes mortiças num acende e apaga; seguramente, os passageiros pareciam fantasmas. O trem fechou as portas, sem ruído, e, silenciosamente como chegou, partiu, deslizando sobre os trilhos energizados. Bié não largava os originais de seu conto. Por eles seria aclamado como um grande escritor. E convencido de que tinha algum conhecimento de teledramaturgia sorriu antecipando os parabéns. No íntimo, tremia da cabeça aos pés de emoção. Pela primeira vez iria a uma TV, e conheceria os bastidores, os sorrisos das atrizes, o ti, ti, ti, o entre e sai dos camarins, o mundo da fantasia. Sempre imaginou que aquele pessoal pairava acima dos simples mortais. Eles, como deuses olhando os outros com desdém.
Bié teve uma visão de que seria roubado, então desceu do metrô, na estação Uruguaiana e seguiu a pé, tendo se prevenido enfiando o envelope precioso entre o cós da calça e a barriga. Com as mãos livres gesticulava para interlocutores invisíveis. Na estação Central pegou de novo o metrô para a estação Estácio, seu destino final. Quando saiu na boca do túnel se deparou com enorme descampado: à direita, prédios; à esquerda, um hospital; à frente, apenas dois edifícios quase iguais; ambos, estilo arte decô, com cinco, ou seis andares, ou mais cada um. De fato, eles tinham pé direito muito alto e enganavam quanto ao número de andares. Havia janelões em profusão, e uma entrada. Os prédios tinham algo em comum: eram sombrios, sinistros mesmo e com todas as janelas fechadas. “Como saberei qual deles é o da TV?” Para não errar, perguntou ao dono dum botequim:
–– Onde fica a TVZ? perguntou ao dono dum bar.
O português, dono do pé sujo, olhou-o surpreso, fingiu não ouvir. Ele repetiu a pergunta:
–– Onde fica a TVZ?
O português apontou para um dos dois prédios, e Bié julgou que entendera. Não mais insistiu, escolheu o que apresentava menos corrosão pelas intempéries.
Quando Bié se aproximou viu a porta, mas nenhum movimento de entra e sai, nem mesmo sinal de vida. “Estranho, né” No entanto, circulou o prédio, que ocupava o quarteirão inteiro, até que descortinou discreta entrada, protegida por imensa grade de ferro. Nenhum porteiro a vista. Bem, não podia escolher, ou entrava ou desistia. O desejo de ser autor famoso era maior do que o receio e caminhou resoluto. Ouviu uma voz interior: “Não entre aí, Bié, não entre!” Olhou para trás para ver quem falava assim e viu o mendigo que o abordara no início da viagem. Decididamente, abriu o vetusto portão e entrou. Estava angustiado. Aquele prédio não era o que imaginava ser: um ambiente cheio de vida, com carros entrando e saindo, vedetes, atrizes, agitação, luzes feéricas, enfim. Para minimizar seus receios, verificou pela centésima vez seu envelope. Cheio de confiança adentrou o hall. “Onde estão os porteiros, os seguranças, o entra e sai?” Como ninguém apareceu para impedi-lo, passou pela catraca, pegou o elevador e apertou o botão do quarto andar. Porém, o elevador, com cabine sacolejante, suja, em vez de subir, desceu e parou no subsolo, na casa de máquinas, pleno de cheiro de óleo. Bié não saiu, pois sabia que estava no local errado. Novamente apertou o botão do quarto andar. O ascensor não se mexeu e a porta, pantográfica, manteve-se imóvel como se morta. A energia se fora. Ele, de relance, pressentiu que a maquinaria era viva: barulhos de motores elétricos, compressores, engrenagens, o chamavam; molas rangiam; correias esticavam para enlaçá-lo; mangueiras, de ar comprimido, sibilavam e vaporizavam no ambiente tétrico. Ele, desesperado, apertava o botão até que o elevador rangendo tristemente fechou a porta pantográfica e subiu devagar, quase parando. Bié olhava os botões: um, dois, três, quatro. “Ah, que alívio!” suspirou. Ele saiu rápido, mas congelou extático. Adiante o esperava Jack, o estripador, com a navalha ensanguentada na mão, rindo para a prostituta da qual extraíra o útero. Bié, de costas, entrou no elevador e freneticamente acionou o botão, nem escolheu o andar, qualquer um serviria desde que o tirasse daquele quadro de horror. Felizmente, a pantográfica funcionou com estrépito. A navalha do estripador triscou nos losangos de metal. Enfim, o elevador ora parecia descer, ora subir. Teria vontade própria? Sim, tinha. Parou no sexto andar, que nem existia, ou existia... Talvez fosse o sétimo, quem sabe? Bié não raciocinava perdido em demanda mental, entretanto, mau cheiro, agrediu suas narinas; odor de cadáver em decomposição. Quando seus olhos se acostumaram com a penumbra, viu o conde Drácula, o vampiro. Que agonia! Bié deu um salto de costas ao elevador que o esperava de pantográfica aberta. “Você me pertence”. Era o elevador que tinha vida própria.
O elevador abria e fechava, rangendo os parafusos oxidados. Parou entre dois andares. Bié esmurrou os tijolos até quebrar dedos da mão, e a máquina se movimentou, outra vez. Agora, ela assumiu definitivamente o comando e pegou linha direta ao teto. Debalde, Bié apertava a emergência. O ascensor chocou-se, com violência, no teto arrebentado a casa de máquinas. Mas readquirindo fôlego desceu em velocidade crescente, numa viagem, sem fim, aos infernos. No fosso, as chamas invadiram o espaço de Bié, trêmulo no canto. Vade retro Satanáquia! Gritou Bié. E tonto de pavor exclamou:
–– Meu Deus! Onde estou? Como sair daqui?
E o elevador descontrolado subia e/ou descia. Em cada andar, uma cena chocante: O anticristo; a fogueira dos heréticos; as bruxas de Salem e outros horrores.
Finalmente, decidiu que a morte seria a libertação. Acionou ferozmente o botão do quarto andar e permaneceu com o dedo firme no botão. O elevador, agora obediente, alegre, quase a gargalhar o levou. Ele correu e disparou para a janela envidraçada... Espatifaram-se os vidros e ele voou para a eternidade... Não, ele fora enganado pela máquina estava no primeiro piso, estatelou-se no asfalto.
O povo curioso se ajuntando, murmurando: “O que aconteceu? Quem é? Por quê? Coitado”...
Do envelope rasgado, folhas em branco voaram ao vento.
–– Ah, disse um transeunte, conheço o cara. É o doido de Copacabana, ele pensa ser autor de nomeada. Pobre homem!
A turba, desinteressada, dispersou.