prosa

Marcha à ré no tempo

Marcha à ré no tempo



por Asséde Paiva


De repente, a nebulosa desceu e se transformou em nevoeiro espesso e assustador.


— Você acha que é possível viajar no tempo? Acho que sim. E não falo em velocidade supraluz. Siga minha estória: O velho, manquitola, lento, de olhos baixos, cansado de guerra, com guarda-chuva aberto, com a barbatana quebrada, sacolejante, parecia decrépito. Assim, estava quem sabe, por agruras da vida aparentava ser mais idoso do que realmente era. Neste momento, não nos importa o passado desse senhor, vejamos o presente. Certo é que estava morrendo: morrendo de amor; fora muito amado pelos pais, muito amado pelas mulheres e sufocado pelo amor dos filhos. Enfim, não suportou o sufocante amor, fugiu de casa e foi morar nas ruas. O velhinho estava muito curvado, olhos esmaecidos, sem viço, voltados pro chão. Será que ele pensava em alguma coisa? Será mesmo que pensava? Teria neurônios em bom estado? Logo que dobrou a rua Treze de Maio parou indeciso: “Ia para frente, parava ou à esquerda...” Decidiu pela esquerda, pois, assim ficava à sombra dos edifícios e evitava o sol. E o Largo da Carioca estava no mormaço de verão; cheio de gente indo e vindo em direções várias. O velho ensimesmado, nem ligou. Também, não se deu conta da nuvem que lentamente caminhava no céu, qual lagartixa num teto qualquer. Ela tapava o sol e trazia frescor na sombra que projetava. Era um cúmulo-nimbo com forma de gigantesco algodão doce. Mancha no céu azul, azul-celeste. Nenhuma gaivota se via, logo agora na terra delas. E ele seguia costeando os prédios, sem dar a mínima para ninguém ou, para a vida que passava ou pela paisagem. Perto do Liceu Literário, rendeu-se ao cansaço e sentou-se no primeiro degrau, recostando-se na pilastra da entrada. Fechou os olhos e mergulhou em profundo torpor. Dormia... De repente, a nebulosa desceu e se transformou em nevoeiro espesso e assustador. O calor tinha o bafo do dragão. O Largo, o mosteiro de Santo Antônio, prédios, monumentos e carros desapareceram na tessitura que a todos diluiu, incluindo o velho encarquilhado. Parcamente, se viam vultos. Carros até acenderam faróis e buzinavam e batiam. Num ligeiro desvelar da estranha nuvem, um jovem materializou-se ao lado do velho e ensaiou andar. “Que rumo tomaria? Rumo nenhum, não era opção”, caminhou, apenas caminhou. Adiante, ouviu-se o ranger dos freios do bonde de Santa Teresa, quase atropelou o jovem... Vamos acompanhá-lo com olho de Hórus (que tudo vê). Ele foi mancando ao Tabuleiro da Baiana, onde uma negra de turbante e saia rodada (baiana certamente), abancada ao meio-fio, vendia quitutes. Ele apalpou o bolso, sacudiu moedas e retirou uma, de um cruzeiro (o caso se deu no tempo antigo), e perguntou o preço da cocada. A vendeira não lhe respondeu, certamente estava de mau humor. Ele desistiu e foi ao bar, na Galeria Cruzeiro. O garçom o ignorou; passou perto, sim, mas para atender a outros; a ele, não. Dos bondes, subiam e desciam passageiros e mequetrefes. Cobradores engravatados, uniformizados em azul-marinho, registravam os pagamentos com o característico dim, dim. Ele enxugou o suor na manga da camisa e decidiu ir ao outro lado da praça, sob a marquise do hotel Avenida, hoje o grande prédio Avenida Central. Logo, estava na Uruguaiana, ex-rua da Vala, segundo a história. Ciente de que tinha tempo, decidiu visitar na rua São José o sebo de mesmo nome. Certamente, compraria um livro usado, bom e barato. Matutando, atravessou a Avenida Rio Branco. No cruzamento com a rua da Assembléia desviou de ciganas ariscas, alegres e de saias estampadas, que liam a sorte. A chovixani (maga) o viu e acenou para ele, que desviou do caminho e por ela passou; as outras ciganas nem o viram... (por que não?). Na livraria, agachou-se entre estantes e vãos, bem perto dos romances franceses, onde se lia, nas lombadas, títulos de Alexandre Dumas; Du Terrail; de Victor Hugo e outros. Gostava dos autores franceses, de temas de capa e espada e de piratas. Ele consultou as finanças; infelizmente não dava para comprar os Três mosqueteiros de Dumas. Contentou-se em olhar e suspirar. Um dia leria Capitão Blood e todos os Tarzan da coleção Terramarear. Deixou, desolado, os tesouros de literatura na estante. “Vida dura de pobre, só pode desejar”. Vem o bonde destino Cinelândia-Lido. Acenou, mas o motorneiro o ignorou. Desistiu de Copacabana. Era hora de ir para a rodoviária, pois, teria que viajar para longe. Achou que podia pegar um táxi, só achou, porque os taxistas, bigodudos, não lhe atenderam “por que? Táxi, ou comida”. Decidiu pela comida. Nem entrou no bar do hotel Avenida, porque estava pobremente trajado. Assim, de rejeição à introversão, resolveu ir embora; não tinha conhecimento do melhor itinerário, era neófito no Rio de Janeiro. Em dúvida, voltou-se sobre os passos anteriores e desceu um quarteirão da rua Gonçalves Dias, onde a fome apertava cada vez mais, e o estômago roncava. Comiam e bebiam na confeitaria Colombo. Olhou para uma empadinha com jeito de saborosa, e a boca encheu-se de saliva, mas ao ver um garoto faminto, a seu lado, perdeu a fome na hora, e estendeu-lhe a moeda, mas foi também ignorado pelo menino, que seguiu adiante. Então, nosso herói seguiu adiante, sentiu o perfume das rosas e cravos, no Mercado das Flores. Sensível espirrou, por ter alergia ao perfume e ninguém disse saúde. “Tanta gente insensível”. Quase perdido, se achou na Avenida Getúlio Vargas; atravessou-a e também a rua Floriano Peixoto bem como a rua Camerino, que outrora se chamou Valongo, o mercado de escravos vindos da África, no Brasil Colônia. “Será que ouvira ecos do passado, os gritos de crianças, gemidos dos cativos, ao chicotear dos escravistas?” Reorientou-se e percorreu a rua do Acre, a dos comerciantes de atacado e, por fim, estava na Rodoviária Mariano Procópio, na Praça Mauá (que já foi Prainha, no Brasil antigo). Recostado numa coluna da entrada dormitava um vira-lata, que olhou para ele assustado e fugiu ganindo. Teria visto o quê? Entrou na fila para comprar o bilhete e foi solenemente ignorado pelo bilheteiro, que dava preferência a outros, mesmo os detrás dele. “Que desaforo!” E ficou desesperado por não conseguir comprar a passagem para as Minas Gerais. Perderia o ônibus? “Ah, isto não!” Foi para o setor de embarque. Aproveitando-se da distração do motorista, sorrateiramente, sem que ninguém mais o percebesse entrou e sentou-se. O companheiro de viagem ao lado, não lhe deu mínima atenção, sequer virou o rosto para ele que, nesta altura, estava se sentindo invisível.
Enquanto isto acontecia, a nuvem ou nevoa, lá no Largo da Carioca, finalmente se dissipou. O bom velhinho (do início desta história) continuava recostado no pilar do Liceu, parecendo dormir placidamente. Com o tempo passando para o infinito, o velho dorminhoco acabou por chamar a atenção de transeuntes. Um, desconfiado, chegou bem perto, tentou acordá-lo dando-lhe uma sacudidela. Ele desabou... Estava morto.
E no ônibus, um passageiro sentou-se no que seria uma vaga... “Ih! este cara vai sentar no meu colo”.
FINIS