prosa

Cântico

Cântico



por Julia de Cassia Araujo Tardém


Que as crianças possam oferecer as flores da primavera aos nobres professores


Não sei que estranha coincidência aproximou as comemorações da Primavera, das Crianças e do Professor. Seria acaso? Propósito deliberado? Campos semânticos afins? Mas o que existe de real é que, nesta época, o ar se enche sempre de fragrâncias sutis, os jardins se tangem das mais variadas cores, os botões – quais belas adormecidas – despertam ao beijo vivificador do sol. Tudo é vida, alegria, som, cor e luz. O mesmo que emana das tenras e mimosas figurinhas de crianças que nos encantam, completam nossas vidas, divinizam o ventre materno e, mesmo pequeninas, enchem os braços que as envolvem com carinho e iluminam com o sol de seus sorrisos.
Dos braços maternos para outros, de maternidade idêntica e mais ampla, ilimitada, abnegada dos mestres que não restringem seu amor ao círculo de seus próprios filhos. A eles eu dirijo minha crônica de hoje; a eles que lutam diariamente, multiplicando as horas do dia, num labor incessante e tantas vezes (e como!) incompreendidos, buscando forças na própria fraqueza, procurando atualizar-se cada vez mais para melhor guiar o seu rebanho. E o fazem hoje também, numa época em que já não são vistos com o mesmo respeito de outrora; hoje, quando muitos pais se omitem, interpretando erroneamente os modernos conceitos da Psicologia, confundindo independência e liberdade com o desrespeito pelo ser humano, esquecendo que o professor também é um. E é o mesmo professor muitas vezes confundido com a figura mansa e terna dos escravos – executores humildes das ordens soberanas dos senhores – felizmente alforriados pela Nobre Princesa.
Os veículos de comunicação muitas vezes ensinam a não agressão, agredindo, deformando a pureza original das crianças e dificultando o trabalho de seus mestres que, na obscuridade vão plasmando os homens de amanhã. Mestres que foram meus e o são de meus filhos, sucedendo-se em anonimato glorioso, erguendo verdadeiros monumentos de moral e de cultura. Posso homenageá-los sem falsa modéstia, porque me considero apenas uma simples aprendiz, nascida entre mestres que labutaram nos canteiros de cultura do norte e nordeste do Brasil.
Que as crianças possam oferecer as flores da primavera aos nobres professores, são meus votos mais sinceros, mesclando-se num todo de luz, de riso, de cores e de amor. Que seu trabalho não seja censurado sem prévio diálogo, indispensável entre os principais interessados. Que os educadores – pais e mestres – possam fazer um trabalho uno, realmente integrado, onde maiores beneficiados serão nossas crianças – a esperança de um porvir melhor.
Espera. PRIMAVERA. Quimera. Abundância. Inconstância. Infância, Corações. Perdões. Entreabertos botões. Lembranças. CRIANÇAS. Esperanças. Flores. Amores. Cores. Jasmins. Jardins. Querubins. Canteiro. Jardineiro. Obreiro. Passado. Cuidado. Amado. Amor. Pastor. Labor. Semeador... PROFESSOR!