prosa

Flores Ocultas

Flores Ocultas



por Julia de Cassia Araujo Tardém


Mas no fundo, bem no fundo, persiste o homem com suas dores, sua alegria, seu amor e sua saudade...


Os dias se sucedem, a civilização marcha implacavelmente, as guerras abrem imensas crateras na Terra e nos corações dos homens. Apregoa-se que o homem se mecaniza, torna-se um mero robô sem sentimentos, sem ideais mais elevados que o aperfeiçoamento de suas armas mortíferas.
A vida humana perde o seu valor. A agitação não deixa que se pare para pensar, para sentir tudo o que nos rodeia – as coisas que se sucedem em monótona rotina, mas que delas sentimos tanta falta quando não as temos: o vento que farfalha as folhas das árvores, o canto dos pássaros, o perfume de uma violeta – rescendendo oculta em sua singeleza – o sorriso e a presença do ser amado...
Mas no fundo, bem no fundo, persiste o homem com suas dores, sua alegria, seu amor e sua saudade... E, por mais mecanizado que esteja, a saudade é tema constante, latente em todo latino, brasileiro especialmente... Sente-se saudade até do que não se sabe explicar... Se o homem para e deixar vir à tona tudo o que está ciosamente guardado, descobrimos tesouros incalculáveis. E isso pode ocorrer sob os mais diversos estímulos. A música, por exemplo. Ela nos eleva; faz-nos renascer, quais fênix, das próprias cinzas.
Outro dia pudemos observar isso bem de perto. Numa sala de aula demos a nossos alunos músicas de Chopin e Liszt para que, inspirados nas melodias, escrevessem sobre o que lhes aprouvesse. E os jovens, amantes do iê-iê-iê, turbulentos, acalmaram-se e deixaram que a música lhes penetrasse... E pudemos, então, ler coisas maravilhosas, poesia pura.
Lembrei-me da infância na terra distante e tão cheio de lendas, sendo que uma me encantava sobremaneira: o pequenino e feio uirapuru sublimar-se com seu maravilhoso canto, enfeitiçando todas as feras da floresta, que paravam estáticas, verdadeiramente hipnotizadas... Fiz ver assim, aos jovens, as coisas bonitas que poderiam produzir se parassem um instante para ouvir o que lhes dita constantemente o íntimo e colher as maravilhosas flores ocultas, guardadas na alma...