prosa

Ouvindo Chopin

Ouvindo Chopin



por Julia de Cassia Araujo Tardém


Vejo-me caminhar entre os verdes bosques da terra tão estremecidamente amada, terra que tão belos poemas musicais te inspirou!


Tudo favorece à meditação – dia escuro, frio, triste, refletindo-se na alma. A música começa a se insinuar suavemente até tomar conta de tudo. Os sons se espalham pela sala e ecoam no coração. Música, divina música... Com satisfação constatamos que ela está voltando a ocupar verdadeiramente o lugar que sempre lhe pertenceu. Já se constitui em acontecimento de real interesse uma reunião onde se ouve e se discute música. A própria televisão, através de seu veículo mais popular – a novela – encarrega-se de difundir o bom hábito da música classe “A” para ouvidos menos afeitos a ela, passando desde então a ir à fonte em busca de mais e mais alimento sonoro.
Descobrem-se nomes e harmonias nunca suspeitadas: Liszt, Brahms, Debussy, Schuman, Tchaikovski, Schumbert, Chopin... Como admiradora do belo, amante da boa musica, vibro com a revolução que se insinua nos hábitos mais burgueses e menos apurados. E as notas continuam sua doce evolução... Quase vejo cor nos sons que brilham à minha volta... Chopin sempre me faz sentir assim, sonhadoramente melancólica... E dizer que mais de um século me separa do poeta da música... Fecho os olhos e escuto a magia dos acordes que, vencendo a barreira do tempo que me transportam à época em que nasciam a cada instante, frutos de uma alma sensível e apaixonada...
Vejo-me caminhar entre os verdes bosques da terra tão estremecidamente amada, terra que tão belos poemas musicais te inspirou! Entre as notas que brotavam, chego a imaginar as vezes que aspiravas profundamente, quando enxugavas as longas mãos nervosas e continuavas a tocar, a viver e a amar... Enquanto isso, eu, em não sei que mundo minúsculo e ignoto me abstraia desta vida tão cheia de sons para hoje sofrer a saudade do que não vi, não ouvi e nem vivi, mas que sinto em cada fibra do meu ser como se fossem meus próprios sentimentos que explodissem em notas que se assemelham a respingos de aquarelas borrifadas através do tempo, através do espaço, até os corações daqueles que o compreendem e o amam.
E meu coração chora o não ter vivido então, para mesmo ignorada, partilhar dessa alma que estremeço, tão gêmea da minh’alma...