prosa

Um porquinho feliz... até certo ponto

Um porquinho feliz... até certo ponto



por Asséde Paiva


... sou um dos mais inteligentes animais, entendo tudo que dizem ...


–– Nasci numa tarde chuvosa e úmida, na fazenda São Mateus. Minha mãe bufava, ou rouquejava e nós saindo um a um rolando ao chão. Finalmente, éramos oito irmãos e quatro irmãs, doze qué-qué-qué. Que ninhada! Para minha desdita, fui o filhotinho mais fraquinho. Os outros, logo, logo se desvencilharam dos invólucros protetores, arrebentaram o cordão umbilical e estavam mamando nas tetas recheadas de colostro: hum-hum-hum! Demorei um pouco a me libertar e corri com perninhas bambas para sugar leite quentinho, mas... fui empurrado, pisado e expulso. Escorreguei por cima dos outros, fui parar longe. Voltei, tentei, tentei e consegui, mas quase nada sobrou para mim. Ah, que gostoso o leite da mamãe! Depois veio a noite, fiquei no cantinho mais frio entre pernas dela, enquanto os meus irmãos aninhados na sua barriga. Em poucos dias, todos cresceram, menos eu miúdo, excluído. Aí, apareceu a cinco dedos. Magra e bela. Senti que era boa de coração ela, sorriu para mim, curvou-se sobre a cerca que dividia nosso mundo e me pegou no colo. –– Credo! que focinho amassado! disse ela! A menina apalpou-me entre mãos. “Nossa, vai me matar agora”, pensei. Mas não foi assim. Ela falou numa língua desconhecida, entendi pela doçura: –– Coitadinho, tão pequenino, fraquinho, vem comigo. E me arrastou para longe, me aquecendo, murmurando palavras meigas. Ela chamou a mãe:
–– Vou cuidar deste porquinho, me dá um leite mãe! Logo, veio com um vidro, cheio de liquido branco, aparecendo uma ponta como a teta de minha mãe. Estava quentinho: é-um-é um-éum! é meu jeito de mostrar satisfação; mamei tudo.
Tempo vai, tempo vem... Chuva miúda não mata ninguém... Dias e noites, muitas luas foram e vieram. Aprendi a linguagem dos homens. Eu sempre ao lado de minha dona que me adotou para tudo: no trabalho, na folga, nas brincadeiras, no sono. No princípio, eu dormia ao seu lado; mais tarde ficava aos pés da cama e, quando muito gordinho, roncava num colchão de palhas de milho ao chão. Eu comia fubá, insetos, cascas de frutas, milho moído e principalmente muito leite na gamela. Que bom! Estranhava que minha dona cobrisse a pele com uma segunda pele a que chamava vestido. Eu não me dou bem com isto; é estranho, meu pelo liso, amarelinho, com pintas brancas, me basta. Ela costuma me dar soro de queijo no coité. Gosto de repousar meu queixo na perna dela, e gosto de cócegas no meu pescoço e na barriga. Vez por outra dou fugida ao local dos meus irmãos onde me chafurdo gostosamente no lamaçal. Minha dona me apanha me chama ‘porco’, não entende que sinto muito calor, preciso da lama pra me refrescar. Ah, que delícia quando ela me joga água!
Bonito sou eu, com meu lindo focinho. Minha amiga anda ereta. Suas mãos são agradáveis quando me alisa; às vezes se põe de quatro, para brincar –– Vamos brincar, meu lé! Aí ela me imita, grunhe e corremos pelos quartos: Eu dou oinc-oinc-oinc e ela gritando: ai-ai-ai a onça vai te pegar! E me pegando pelas pernas me levanta aconchegando-me ao colo. Vida boa... Fico tão feliz quando ela pega da viola e toca para mim.
Depois de brincar a valer, vou tranquilo deitar numa poça de barro, na beira do córrego, no jabuticabal. Minha dona chama-se Maria e detesta meu comportamento. O pai dela, um dia falou: –– Tira este bicho de dentro de casa, Maria!
Afinal, sou um dos mais inteligentes animais, entendo tudo que dizem, contudo, quando me espojava na lama fresquinha, vinha ela correndo e gritava ‘porco’! Um apelido chato. Tenho asseio, sim; um lugar para sujar, fazer meu cocô. Era ofensa a mim, mas não ligo. Ela me levava pro banho e tirava meus bichos de pé e voltávamos a correr pelo terreiro e pomar. No curral, certa feita uma vaca me deu uma patada que resvalou pelo rabo e cortou um pedacinho dele, perdi o lacinho, fiquei ‘cotoco’. Gostava de saltitar ao lado do boi jungido ao braço da moenda de cana, de pegar borboletas esvoaçantes no quintal e outras artimanhas. Um dia fui mexer numa corda que não era corda: era cobra. Felizmente, a picada pegou na minha unha e nada sofri. Minhocas são gostosas. Sou bom pra comer, como de tudo: cascas, frutos, raízes, cana, pequenos animais, restos, capim e outras gostosuras. Que pena que minha dona não possa fuçar! Seu nariz e fraco, mas seus cinco dedos são muito bons para pegar coisas. Eu só tenho quatro dedos em cada pata e uso só dois.
Um dia o pai dela falou:
–– Maria, vem cá! Vamos comer este leitãozinho no Natal, ou na virada do ano. Acabei de vender a porcada, tem peste suína na fazenda Cachoeira”.
–– Meu lé, não! Maria correu para sua mãe. — Mama, papai quer comer meu lé!
— Deixa minha filha, eu cuido disso, ninguém vai comer seu lé.
“Dessa eu escapei...”
Vieram a mim dois homens mal-encarados, me seguraram, abriram um canivete e me cortaram lá atrás, Que dor horrível, desesperadora! Guinchei, lutei, chorei, mas puseram um joelho na minha cara, enquanto o outro arrancava minhas bolinhas e as jogava fora para cachorros comerem. Depois, passaram sal grosso no ferimento e me soltaram. Minha dona correu, me pegou, fez-me carinho e me lavou. Ai, que dor! Fiquei doente, não queria comer. Ela me deu remédios, limpou-me a ferida.
–– Tadinho do meu lé!
Eu não gostava de ser chamado ‘porco’, pois, pareço demais com os humanos, Minha cara é diferente, é mais bonita. Eu me enlameio, porque sinto muito calor; em compensação, minha dona tem os pés gelados e me chama para esquentá-los, enquanto costura. Para isso, sirvo. Não é? Mas ela me ama, sei disso.
Fiquei maior, mais pesado, engordava a olhos vistos. Andava em volta da casa pelo quintal. Quando minha dona chamava meu lé, eu corria e deitava aos seus pés, os esquentava e dormia, enquanto ela costurava e cantava: Tatu tá lá no morro / tá danado pra cavar / outra vez tatu, / me ensina cavoucar. Fui engordando, até sentia grande dificuldade em subir a rampa da cozinha. Minha visão do mundo era nas réstias das pálpebras. Maria me chamava: eu subia a escada de pedra na maior dificuldade. Depois, não voltei mais. E o tempo passou e eu cada vez mais gordo, diziam que estava no ponto. Que ponto? Não entendi. Pouco depois dessa fala, num dia embruscado, sem pássaros no céu, ouvia-se o chorocar tristonho fuóó, do macuco, na mata. Meu coração triste disparou:
––Vem, meu lé! Fui. Dessa vez tiveram que me ajudar a subir a escada de pedra. Meu peso perto de quinze arrobas; no ponto... Minha dona esperava na entrada. Ouvi o chio do carro de boi e o carreiro ôa- ôa-ôa ô-ôa, e depois o silêncio. Não entendi o que se passava. Seu pai mandou que ela me chamasse: “lé, lé, lé, lé! Vem, meu lé, vem!” E eu fui atrás dela, em total confiança. Atravessamos a casa, e no alpendre estava parado o carro de bois com a mesa recostada no último degrau de pedra. Recuei, desconfiei da armadilha. Minha amiga entrou para me inspirar confiança. Acompanhei-a... Ela, então, pulou da esteira para o cabeçalho e fecharam o vão, atrás de mim. Vamo, eh, eixe, ei, incitou o carreiro. Os bois em sincronia partiram da fazenda. Eu tinha olhos tristes, meu destino ignorado por mim, já selado. A saracura no brejo rente cantava: Três potes, um coco, um coco. Eu sei, eu sei, ela ainda chora por mim...