prosa

Talismã

Talismã



por Asséde Paiva



Juvenal adorava a redução carinhosa de seu nome para Juva. Era muito forte. Forte e bravo como um touro. Sua musculatura era aparente sob a roupa. Morava com o irmão e meu pai, quando o conheci. Eu tinha enorme admiração por ele, e ele correspondia me chamando carinhosamente de Ferrute. Até hoje não sei o porquê desse apelido. Como dizia, ao iniciar, Juva era extremamente forte e para tanto exercia a profissão duríssima de amansador de burro xucro, concomitante com a de boiadeiro e de ferrador de alimárias. Certa feita, ferrou cavalos de uns ciganos, nada cobrou e chamaram-no vortako kamale (amigo do peito) e elogiado como sindrabô petulengro (bom moço, ferreiro). Gostava mesmo de cavalgar a mula de estimação, não precisava se apoiar nos estribos, segurava na cabeça da sela “santo antônio”, dava um galeio e montava. A mula era ensinada, dispensava amarração em esteio. Ele apeava, jogava o cabresto ao chão, e ela não saía do lugar. Sempre acompanhado de seus cães: Lobo e Feroz, que deitavam ao lado dela e vigiavam. Se Juva apontasse alguém e dissesse: “inimigo aí”, os cães pulavam no indigitado. Os cães também eram ótimos condutores de boiada. Corria a lenda que Juva não precisava de laço: segurava marruco pelos chifres. Juva, nas horas vagas, era lavrador e plantava milho, arroz, amendoim, batata e feijão. Ele não era alto, tinha 1,68m, tez clara, queimada de sol, cabelos pretíssimos e ondulados. Morávamos ao lado da Estrada de Ferro Central do Brasil (EFCB), a uma légua além donde Judas perdeu as botas. A vida de lavrador e boiadeiro é livre, sadia e com muito trabalho, como dizem: de sol a sol. No tempo desta história, Juva tinha 20 anos e vendia saúde. Namorava uma adolescente formosa, residente em outro povoado, a mais ou menos cinco quilômetros do nosso. A menina amada chamava-se Helena de Abreu Lima (Lena). Linda como uma fada, pele aveludada, rosto que pedia muitos beijos, lábios carnudos, ancas largas, cabelos lisos, louros e olhos azul-esmeralda. Da mesma altura de Juva, ela desabrochava para a vida aos 15 anos. Sonhava com o Príncipe encantado, muito parecido com Juva. E a sua vida corria serena e feliz.
Outro personagem interessante neste causo é Augusto; para os íntimos, Gugu, irmão de Juva. Gugu ansiava por uma vida mais aventureira e, um dia, sem mais nem menos, fugiu de casa, engajou-se no exército. Foi incorporado ao 12o RI (décimo segundo Regimento de Infantaria), em Juiz de Fora, como soldado raso. O recruta adorava o uniforme, aliás, muito bem recortado e nos trinques. Rapaz de poucas letras e 18 anos incompletos, Gugu era baixinho, tinha olhos vivos, sorridentes, bigodinho fino, cabelos pretos, partidos ao meio. Muito comunicativo Gugu se deu bem no exército, onde foi ordenança do comandante. Sorte ou azar dele, o Brasil entrou em guerra contra o Eixo: Alemanha, Itália e Japão, e ele com milhares de colegas de farda foram componentes da Força Expedicionária Brasileira (FEB) e embarcaram para a Itália. Não fazem parte desta história as peripécias da guerra. Ele exalava alegria por não ter sido uma cruz a mais no cemitério de Pistóia. Combateu em Fornovo, Monte Cassino, Monte Castelo, Castelnuovo e outros lugares. Namorou muitas “ragazze” no Vale do rio Pó. Recebeu diploma de sangue (ferido em combate) e a cruz de combate. Voltou como herói, e a sorte de ex-combatente lhe garantiu o prêmio de muitas garotas. Quem não queria ser a esposa de um pracinha? E ele recitava a canção preferencial: “Tedesco levanta os braços; ajoelha e pede perdão; lá vai tiro de metralha; de bazuca e de canhão”.Na verdade, Gugu foi covarde, pois quando estava na trincheira com outro soldado teve um ataque de pânico e disse para o colega: “meu anjo da guarda está me mandando sair daqui” e se foi, deixando outro só. No retorno ao Brasil reencontrou o soldado que abandonara, e foi gozado algumas vezes, ao passar por ele na calçada. Irritado e armado com um soco inglês, atingiu o ex-companheiro de farda e saiu correndo rua afora. Lastimável ato de um “guerreiro”.
Nosso último personagem, masculino, é oficial da marinha de guerra Almir Sacaroni, de sangue italiano, pele muito vermelha, cabelos ruivos, encaracolados. Extremamente altivo, voluntarioso, uma espécie de tutor das irmãs, porque sua mãe morrera cedo, e seu pai, viúvo, casou-se novamente deixando de lado os filhos do primeiro matrimônio. Sacaroni estava no vigor da juventude: tinha 23 anos e, como se diz, gostava de ser o macho dominante. Não admitia contrariedade, se provocado, não fugia à luta. Com uniforme branco, quepe com âncora, era partido e xodó das garotas.
Pois é, os três estavam na mesma festa, no mesmo baile e todos eles queriam namorar Helena (ou Lena). Ela surfava no charme e, indecisa, não privilegiava nenhum. Seu coração estava dividido: ora nos braços dum, ora nos doutro, sorria. Às vezes alisava a nuca do par com maior carinho. O par do momento era Gugu. Os preteridos, Juva e Almir, não gostavam nada do que acontecia. Morriam de ciúmes dando sorrisos amarelos. Isso não acabaria bem... “conta de três o diabo fez”. Leninha estava nas nuvens e não alcançava a tempestade a caminho. Deslizava do alto de sua sandália dourada pelo salão, enquanto “seu” Oswaldo, no acordeom, tocava o bolero “Dos Almas”: Dos almas enel mundo habíaunido Dios dos almas que se amabaneso éramos tú eyo. E ela roçou, talvez por provocação, seu brinco de ouro no rosto em Gugu. Juva saiu do baile muito revoltado e foi arrefecer sua raiva e decepção esmurrando uma amendoeira, no adro da igreja. Isso se deu ao romper da alvorada, às quatro da manhã. Ele não viu, mas o oficial Almir saiu também do baile e se dirigiu ao boteco do Pinduca. Recostado no balcão, degustava uma cerveja e sua cólera, porque perdera o benquerer para simples soldado raso; instantes depois, Juva, sem saber, entrou no mesmo botequim e pediu uma talagada de cachaça. “Dois dedos”, disse brincando, mostrando o polegar e o indicador, ou seja, um copo.
Almir ouviu e provocou com muita ironia:
–– Neste lugar só tem cachaceiro!
Juva nunca levava desaforo para casa. Sacou do punhal e tentou apunhalar Almir. Não conseguiu, porque havia puxado a arma com tal violência que lâmina e bainha vieram juntas. Sorte de Almir, porque estaria morto. Entretanto, engalfinharam-se e rolaram na poeira e nas pedras da rua.
Apareceram amigos, parentes e os deixa-disso, para tentarem separar os contendores. Foi tarefa muito difícil, tal a raiva dos brigões. Trocavam socos, pontapés, rabo de arraia, gravata, estrangulamento etc. O baile acabou. Pessoas corriam para todos os lados. Lena, que sabia ser a causa primária do evento, saiu correndo, perdendo alguns adornos. Ela refugiou-se em casa, trêmula, sendo amparada e consolada pelos pais, os Abreu Lima.
Finalmente, “seu” Neném, o dono do armazém local, e do salão de baile, homem muito forte e destemido, conseguiu separar os briguentos, mas levou um safanão que o derrubou na calçada. Juva, o autor da façanha, resolveu cessar a luta corpo a corpo. Apanhou algo brilhante no chão, pôs no bolso, montou na besta, esporeou-a e partiu, soltando fogo pelas ventas. E arrematou, sendo escutado por todos:
–– Eu voltarei para acabar contigo, Almir.
Pouco depois, após galope desenfreado, chegou a casa, armou-se com a Luger que o irmão trouxera da guerra, como troféu dos alemães, e se propunha a cavalgar de volta, quando Gugu, recém-chegado, perguntou:
–– Que é isso, Juva? Irmão, o que vai fazer?
Juva apontou-lhe o indicador ao nariz e disse-lhe simplesmente, soturnamente, engolindo a raiva:
–– Você é “irmão urso”, me afrontou com minha Lena. Vou acabar com a raça dos Sacaroni, e desapareça da minha vida!
Juva partiu com intenção de voltar ao arraial e terminar a briga na bala. Porém, na metade da viagem de retorno, avistou o carro de Almir. Reconheceram-se no ato. Almir dirigiu o carro em zigue-zague pra cima dele. Juva pressentiu o perigo, cutucou os flancos da besta, ela pulou o vale paralelo à estrada, salvando ambos de serem atropelados. Mas Almir não escapou do tiro: Juva sacou a pistola e fuzilou o auto por detrás. O projétil atravessou a carroçaria, bancos e o braço de Amir. Alojou-se no motor.
O carro virou de rodas pro ar, e o passageiro ferido lutava para abrir a porta e fugir.
Juva não esperou pra ver. Assustado, fugiu para o sitio do Azevedo, do coronel Zé Tenente, perto duma rodovia, e de lá tomou ônibus para os Caramonhas, terra de gente brava. Depois, se mudou para o lugarejo chamado Divino e tornou-se boiadeiro; ganhou muito dinheiro, comprou um sítio e fez a casinha dos sonhos, para aninhar-se com Lena, o amor da sua vida.
Quatro anos após o incidente relatado, voltou para buscar Leninha. Ela não o esperou tanto tempo. Sempre bela e mais cortejada do que nunca, fugiu com Almir para lugar incerto e não sabido. Juva sentiu-se um bigorrilho, quis morrer de paixão e ódio; engoliu em seco a enorme frustração e voltou ao seu sítio, onde o bom cabrito não berra. Pôs-se a trabalhar como mouro. Tornou-se ensimesmado, sisudo e conhecido como o homem que não ria. Carregava um bentinho do qual jamais se separava. Porém, não há dor eterna, ele queria ter um lar e se casou com moça, prendada, da vizinhança. Apesar dos pesares, foi um bom companheiro.
Numa festa de Reis, Juva animado pelos traçados¹ que bebera, arrastou as asas para uma menina moça, gente do seu sangue. Lamentável... sua sobrinha não gostou e delatou. Teria sido brincadeira, má interpretação ou síndrome de mau caráter? Nunca se saberá! O episódio cinzento e doloroso ficou na história do lugar. O pai dela não aceitou pacificamente o fato: houve troca de desaforos, xingamentos. Então, deu-se um duelo de espingarda e revólver. Uma bala de Juva riçou a testa do oponente, as outras se perderam; mas os chumbos da espingarda pipocaram em Juva, e seu corpo, ficou marcado como peneira furada. Felizmente, não houve vítimas a lamentar. O tema sombrio tornou-se tabu, nunca mais foi mencionado. A família Juva foi duramente atingida no moral. É a consagração da história do vaso quebrado: juntam-se os cacos, colam-se os pedaços, mas não é o mesmo vaso, jamais.
Juva estava bem situado, tinha cabedal no banco e algum prestígio entre os habitantes do povoado. Muito respeitado, para não dizer temido. Não há bem que sempre dure... sua propriedade confrontava em águas vertentes com outro sítio. No alto do morro, num capão de mato, marejava um olho d’água que mal dava para duas vacas beberem água ao mesmo tempo. Ele e o vizinho discutiram por causa da nascente... Um dizia: “o moirão é pra lá”; outro questionava: “é pra cá”. E não se entendiam quanto à derrota² . Juva, explosivo, de pavio curto, chamou o vizinho para o entrevero. Era mesmo turrão e invasivo.
Pra quê o diabo trabalha? O homem desafiado era sonso, embora brutamontes; enfiou a viola no saco e contratou facinoroso pistoleiro, que tinha o trato com o cão.
Cada qual tem seu dia. Juva voltava de Divino, e o céu prenunciava chuvarada, com trovoadas. Pingos de chuva caíram no chapéu, justamente quando passava ao lado da sua roça de milho. O destino do qual não se escapa, mandou-o que se abrigasse num pequenino rancho abandonado, distante cem metros da trilha.
Juva apeou e, levando a mula pelo cabresto, foi se aproximando do rancho. O tocaieiro, à queima-roupa, puxou o gatilho: bam,bam,bam,bam, bam!
Cinco tiros de carabina perfuraram o corpo de Juva.
Embora ferido mortalmente, cambaleante, tentou montar de novo. Não deu. A besta assustou-se, upou, e ele caiu. Lentamente o sangue, a terra e água se misturaram numa poça.
Assim morreu à traição Juva, um homem sem medo.
Mulher e filhos souberam que algo muito grave acontecera ao ouvirem o relincho da mula no curral e sem o cavaleiro.
Mais tarde, ao prepararem o corpo, viram que no patuá estava um brinco de ouro.

Me voliule samurri djibe movoin = Na vida só se tem um grande amor (lema cigano).

¹ Cachaça misturada com vermute.
² Significando rumo, direção. Palavra usada na demarcação de terras.