prosa

Inverno

Inverno



por Angela Regina Ramalho Xavier


Dei carta branca para que preenchesses todos os meus vazios.


E foi por entre os meus dedos que a sua mão me escapou, sem que eu pudesse detê-la. Fazia frio e foi-se a mão quente que me aquecia. Neste inverno que agora me pega de sobressalto, corro ligar o aquecedor, mas descubro que nem todo o ar quente que sai do aparelho é capaz de aquecer meu coração.
Meus olhos não querem ver a cama vazia e viro-me de costas para o lado que até pouco tempo ocupavas. Mas ocupavas em minha vida muito mais do que esse espaço.
Consenti que adentrasses em minhas entranhas.
Dei carta branca para que preenchesses todos os meus vazios.
Sem pedir licença, tomastes de assalto minha alma. E assim, fui aos poucos, perdendo espaços dentro de mim mesma.      
E o coração... ah, esse não se emenda!
Foi tomado de paixão como quem não teme o perigo!
Baixou a guarda de vez e nem mesmo foi capaz de prever a chegada do inverno. E totalmente desprevenido, ficou à mercê do frio, tentando entender porque aquelas mãos tão quentinhas foram aquecer outro coração?