prosa

A Hora de Teresa

A Hora de Teresa



por Luiz Francisco Silva


Durante o dia lavava roupa para as senhoras da vizinhança, à noite se consumia planejando algo melhor para sua vida.


A lamparina, no canto da mesa, iluminava levemente o rosto de Teresa. Os olhos distantes perdiam-se no vazio da noite. Ela tinha dúvidas, tinha medo, mas procurava mostrar-se forte. A vida privou-lhe de muitas coisas, inclusive de um pai para seus filhos, porém não lhe privou da força e da coragem para criar, além dos seus, o enteado, que também fora deixado pelo homem que a ela, um dia, jurou amor eterno.
Durante o dia lavava roupa para as senhoras da vizinhança, à noite se consumia planejando algo melhor para sua vida. Pensou muitas vezes em fugir e deixar suas crias trancadas, à espera de uma nova família. Pensamento bobo que escorraçava de sua mente quando via entrar pela cozinha, arrastando-se pelo chão batido, sua pobre Olívia, que teve as pernas amputadas por pura negligência de doutor Otacílio. Agora, ali, com o olhar distante, tentava entender seu destino. Uma mulher que sonhou ter uma casa repleta de filhos e netos via-se aturdida entre a lavagem de roupa e os filhos que cresciam ao deus-dará. De seus olhos escorrem duas lágrimas espessas. Seu rosto pálido posta-se entre as mãos calejadas. Teresa chora até sentir a alma exaurida e liberta do passado.
Não muito mais tarde ela ouve bater na porta. Não era tão tarde, mas estranhou, por isso abriu-a de mansinho. Era Augusto. Procurando disfarçar o espanto, olhou-o de cima a baixo e o que viu foi um farrapo humano cheirando à catinga. Quis voar em seu pescoço, quis xingar, fazer escândalo... Quis tanto, mas preferiu a sensatez de uma mulher que soube dar a volta por cima e manter-se viva, apesar das feridas. Augusto não ousou pedir desculpas. Atreveu-se, no entanto, a justificar sua ausência. Justificativa nada aceitável, porque nada poderia justificar tal sumiço.
Teresa tentou fechar a porta, mas, graças a Deus – pensou ela – não houve tempo. A voz chorosa de Olívia ecoou em seus ouvidos. Gritando “papai, papai”, ergueu os bracinhos para aquele cujo arrependimento pesava sobre os ombros. A mulher, que sempre se mostrou forte e determinada, via escorrer de seu íntimo toda a mágoa que vinha remoendo durante anos. Sem pronunciar palavra alguma, abriu a porta, acendeu o fogo e pôs uma chaleira de água para ferver. Passou um café bastante amargo, exatamente como ele gostava, e colocou-o sobre a mesa, bem próximo da lamparina e de algumas fatias de pão. Depois foi ver os outros filhos, que dormiam; olhou-os demoradamente, beijou cada um deles e foi para o seu quarto. Com lentidão, trocou o lençol e as fronhas e vestiu-se com uma velha, mas impecável camisola, cuja brancura parecia iluminar o ambiente.
Antes de ajeitar-se na cama, levou até o banheiro uma toalha florida, um sabonete novo e uma navalha, que há tempo não era usada.
Depois de acomodada em seu leito, Teresa começou delicadamente a acariciar o próprio corpo, redescobrindo curvas, entranhas e sensações. E então, como uma jovenzinha prestes a entregar-se pela primeira vez, estirou-se na cama e riu. Riu tão fartamente que chegou a achar graça do próprio riso.