prosa

Um São João que se aproxima

Um São João que se aproxima



por Nelson Maia Schocair


Há são joões inesquecíveis que se vão longe


Desde tenra idade, as festas juninas sempre me fascinaram. Embora cariocas como eu sejam apaixonados pelo carnaval – a festa da carne – autêntica manifestação da vox populi, o São João possui um charme típico de quem resgata, sobremaneira nas grandes urbes, um pouco do interior simples e autêntico: as roupas são trapos novos, salpicos de alegria; os chapéus parecem feitos com a palha da manjedoura; os bigodes, a enfeitar as faces imberbes, dignificam a hombridade almejada de um ainda menino-homem; as saias rodadas e multicoloridas das mulherezinhas contrastam com a aspereza do asfalto enegrecido que não consegue substituir os terreiros de roça, não contaminados pelas mazelas sociais.
Há são joões inesquecíveis que se vão longe: como o do primeiro beijo escondido, ao ser fisgado pela ex-admiradora secreta – obra lúdica de um Eros, personificado de carteiro, ao nos entregar um lírico bilhete do correio doamor: era paixão à primeira leitura. Como esquecer as cadeias do arraial, divinas celas de prisão consentida por se cometer um crime imaginário, jamais motivado por alguma ação violenta ou vingança?
Por que se foram essas óperas populares? As festas dos santos juninos deixaram-se fenecer ou fomos nós que assassinamos sua essência pueril? Assumimos definitivamente a aridez intelectual citadina ou não cremos mais em sua pureza redentora? Escondemo-nos amedrontados em casulos estéreis ou não compreendemos mais o belo encanto das noites frias e suas fogueiras acolhedoras? Talvez nem tenhamos mais as noites frias ou precisemos dessas chamas e seu calor, pois a mãe Terra se aquece e a nós por nossa incapacidade de cuidarmos de seu frágil e combalido sistema vital.
Seja como for, nesse São João – São João mesmo – uma nova estrela, a Estrela Luísa, da Constelação das Marias, brilha no céu da minha noite, e novamente eu visto a fantasia costurada, o chapéu de palha amarelada e pinto meu rosto envelhecido com os matizes dos meninos renascidos.
Recebo, hoje, no São João que me redime, o beijo da felicidade paterna. Não me sinto preso: sou uma casa sem paredes, janelas suspensas que se abrem para receber a luz divinal.
Seja bem-vinda, minha Estrela de Luz, formemos nossa própria quadrilha e dancemos ao som das sanfonas dos anjos da paz.
Anarriê, minha filha!