prosa

Ninguém Viu

Ninguém Viu



por Rozan Silva



Aquela rua sem saída era pacata, de cidade do interior de Minas, o tempo passava devagar. Mas aquele dia foi diferente. Havia um burburinho em frente a duas casas gêmeas de dois andares; todos falavam ao mesmo tempo; os cachorros latiam, e a confusão era total. Homens e mulheres brigando, xingando, um visivelmente bêbado, e o cabo tentando botar ordem na confusão. E ninguém sabia o que estava acontecendo.

Ele estava atrapalhado. A cabeça doía, pois dormira pouco e não conseguira finalizar os escritos da palestra que iria dar na Universidade. Teria que acabar no trem, que estava por sair, e ele ainda estava colocando coisas na mala. Enfim, terminou. Consultou o relógio de bolso, herança do avô, sempre atrasado 13 minutos. Estava em cima da hora. Teria que correr. À porta, deu um beijo na mulher. E que mulher! Aos 50, já meio barrigudo e quase careca, conquistara uma mulher de 30, que parecia mais nova e garbosa. Seu título de médico o ajudara, mas ele achava que era dos carecas que elas gostavam mais e estava pensando em acelerar a calvície, quando voltasse da viagem, pois assim achava que asseguraria o amor dela para sempre. Virou-se e caminhou em direção a saída da rua, sem olhar para trás. Se tivesse olhado, teria visto que sua mulher estava olhando fixamente um trabalhador na obra em frente, sem camisa, suado, que retribuiu o olhar e fez gestos, indicando um encontro mais tarde. O marido não viu, ninguém viu.

O bar do português, no fim da rua, estava cheio já desde o começo da tarde. Não era assim todos os dias, mas naquele dia em particular a cachaça estava correndo solta, de graça, e graças à boa sorte do Mundinho, contador dos mais procurados em toda a região, com dinheiro, mas pão duro. Diziam, inclusive, que seu refrigerador tinha cadeado, e que atrás de cada quadro de sua casa tinha um cofre. Mas o Mundinho tinha um vício, que era o jogo do bicho. Jogava diariamente poucas quantias e perdia sempre. Uma vez por semana, ia ao bar do portuga, tomava duas cachacinhas, jogava um dedo de prosa fora e voltava para casa. Voltava para seus clientes e para sua mulher, gorda, fogosa, e que achava que todos estavam de olho nela. Mais de uma vez, Mundinho teve que se esquivar de brigas que sua mulher arranjava para ele, sempre denunciando algum gaiato que dera em cima dela, isso, só nos pensamentos dela. Ele, magro, fraco, com a metade do peso dela, se resignava, pedia desculpas a todos e ia para casa. Mas estamos fugindo da história, isto é, o motivo por que o bar do português estava cheio. É que, certa feita, o portuga fez o Mundinho prometer que se ganhasse no bicho ia pagar bebida para todos, e ele concordou. E ele ganhou, pela primeira vez ganhou, e deu a milhar inteira: 1304. E, coincidência, era 13 de abril. E lá foi o Mundinho para o bar, pagar uma rodada para todos, e, de tão feliz que estava, bebeu mais do que as duas doses a que estava acostumado. Bebeu a terceira, a quarta, e assim foi bebendo, bebendo, bebendo, até o anoitecer. Ao chegar em casa, estava tão bêbado que não conseguia abrir a porta. De repente, a porta abriu, não estava trancada. Entrou cambaleante, pensando em perguntar à mulher porque a porta estava aberta. Também não olhou para cima e não viu um homem na sacada do segundo andar, tentando passar para a sacada da casa ao lado. Ninguém viu.

Aquele seria um dia bom para o Zé. Depois de algumas semanas sem trabalho, conseguira um bico de servente. Sempre achou que os dias 13 davam sorte, e aquele estava sendo o melhor de todos. Já havia escapado duas vezes do trabalho para ir ao bar do fim da rua, onde estava havendo um tipo de festa, e um sujeito magro, que mais parecia um rato, estava pagando para todos. E, na casa em frente, uma morena sensual o estava provocando, andando pelo quarto com roupas mínimas. Melhor ainda, foi quando o marido, (ou seria pai?), saiu, com mala e cuia, e partiu apressado, e ela lhe lançou olhares maliciosos. Ele deu um sinal que mais tarde a procuraria, e ela aceitou. Fantástico. Ao término do dia, estaria lá, amando aquela potranca. Que dia!!! Pelo menos assim ele pensou. Agora, estava na sacada do quarto dela, tentando pular para a casa do lado. Correndo o risco de se esborrachar no chão. Ainda bem que já estava escuro, e ninguém estava vendo ele.

Aquele dia seria como outro qualquer para ela. Seria, mas não era. Estava com 40 anos e se achava o último biscoito do pacote. Estava acima do peso, mas não se pesava. Deviam ser uns dois ou três quilos, que ela perderia quando chegasse o verão. Mas via que os homens a olhavam com desejo. Homem gosta é de carne, pensava. Mas aquele dia estava diferente, porque o seu marido havia finalmente ganhado na porcaria do jogo do bicho. Jogava todo dia que podia, nunca ganhava, e agora ganhou. Foi comemorar no bar do portuga, depois de dar uma parte para ela gastar. Já havia gasto. Comprara um vestido novo. E bem verdade, estava um pouco apertado, mas gostava assim. Por duas ou três vezes, pensou em ir ao bar, mas resolveu deixar. Ao menos uma vez, ia deixar o Mundinho se divertir um pouco, pois ele trabalhava muito. E, depois, se fosse ao bar, com aquele vestidinho apertadinho, iria despertar o desejo de muitos homens, e o Mundinho, com a quantidade de bebida já tomada, não teria condições de defendê-la. Resolveu ir à sacada. Dali dava para ver, no fim da rua, o bar, que era bem iluminado. Iria aproveitar para fumar um cigarrinho, escondida, pois Mundinho não gostava. Na sacada, acendeu o cigarro e deu uma forte tragada. Escondeu o cigarro para ninguém a visse fumando. Mas, quem iria olhar para cima aquela hora?

Que dia!!! Mal dormido, com dor de cabeça, e agora isso. Desmoronamento na linha do trem. Fora obrigado a caminhar 15 quilômetros para voltar para a cidade. Agora, além da dor de cabeça, estava cansado, com calos nos pés, e não conseguira chegar ao destino, para dar sua palestra. Que droga. Além de tudo, ainda caíra, pois não estava acostumado a andar nos dormentes escorregadios. Andar em dormente cansa muito. Não dá para olhar para frente. Sempre para baixo. Se olhar para a frente, cai. Mas, mesmo olhando para baixo, caiu. E se sujou todo. Chegou sujo em sua rua, muito sujo. Ele, um Doutor, respeitado, chegando sujo assim em casa. Ainda bem que ninguém o viu naquele estado.
Eu gostava muito de cinema. Ia todos os domingos, com meu pai, na matinê. Foi assim que meu gosto por cinema começou. E os filmes que mais gostava eram os faroestes. Mocinhos e índios. E os faroestes italianos, com um tom de comédia. Não vou contar como minha vida desandou, a história é muito longa, não vale a pena. Mas desandou. Vim parar na rua, sou um mendigo. Mas estou feliz com o que a vida me apresenta. Há dias que como pouco, mas sempre como. O povo de Minas é muito hospitaleiro, e eu não sou uma ameaça. Sou até limpinho, calmo, e, de vez em quando, faço alguns trabalhinhos leves, é bom que se diga. Hoje é dia 13 de abril de 1966. No céu, as estrelas estão brilhando, depois de uma chuvinha forte e chata na noite anterior. Estão brilhando muito mesmo. Deve ter nascido alguém importante hoje, para as estrelas estarem assim, em festa. Meus dias são monótonos, quase iguais. Mas hoje foi bem diferente. Começou com a festa que o Mundinho deu no bar do portuga. Eu mesmo bebi quatro cachacinhas, e olha que não sou de beber. Depois de catar algumas coisas que achei que seriam úteis, resolvi descansar, pois as cachacinhas não desceram bem. Me ajeito ao lado de uma construção, num beco onde fico meio oculto. Já estou nessa rua há algumas semanas. Não fico muito tempo em um mesmo lugar, gosto de mudar. Tenho espírito de cigano. Gosto de observar tudo à minha volta. Afinal, não tenho muito o que fazer mesmo. E hoje, muita coisa aconteceu. Para começar, a mulher do médico, mal ele saiu de casa, nem da rua ainda tinha saído, e ela já estava flertando com alguém da obra. Eu vi. Quando o serviço terminou, ele entrou na casa, pois ela havia deixado a porta aberta. O mais engraçado é que, algum tempo depois, o Mundinho, bêbado feito um gambá, errou de casa e parou em frente à casa do médico e ficou tentando abrir a porta, com a chave errada, pois não era a casa dele. Estava tão cambaleante que esbarrou na porta, que ainda estava aberta. E entrou resoluto. Eu vi. Na casa do Mundinho, aquela mulher gordíssima, que se achava gostosa, estava na sacada, fumando. Foi quando o trabalhador da obra saiu pela sacada da janela, de cuecas, e pulou para a sacada do Mundinho, e deu de cara com a gorda. Eu vi. E, para piorar a situação, chegou o médico, mancando, sujo, e olhando para os lados, com medo que vissem seu estado. Eu vi. E entrou na casa. Nessa altura dos fatos, já estava armada a confusão. O médico deu um tiro para o alto, achando que o Mundinho o estava corneando. E a mulher do Mundinho, aos berros na sacada dela, dizia que o pedreiro estava de cuecas, querendo agarrá-la. Todos foram parar na rua, brigando entre si, até chegar o cabo da Polícia, apitando, para tentar pôr ordem na confusão. Difícil pôr ordem numa confusão daquelas. Eu me diverti.
Ah, esqueci de dizer meu nome: em homenagem ao filme de faroeste que mais gostei, meu nome é ninguém.

OBS: Em uma licença poética, a citação ao filme “Meu Nome é Ninguém” está cronologicamente errada, pois a história se passa em 1966, e o filme é de 1973.