prosa

Ave, café!!

Ave, café!!



por Elimar Gomes da Cunha


...se derrama nos bules de prata dos palácios, e mata a fome nos copos simples dos casebres miseráveis...


Circulam pelos corredores e pelas boas línguas insinuações que sou apaixonado por ele. Analiso cada opinião, sem bases naquilo que eu penso, só pelo fato de me verem ao lado dele, sinto seu cheiro, e logo após... o prazer de seu gosto e de seu mais fiel acompanhante, que é o pão francês, que também já se abrasileirou, mas confesso, respeitando os gostos, que meu preferido ainda é o croissant, ou uma boa broa de fubá, é divino, qual broa não é boa?
O que muitos não sabem, digo, as boas línguas, é sobre meu verdadeiro interesse, que fica além da xícara, além da mesa dos vários cafés que me veem, ou até mesmo dos locais com nomes pomposos, ahhh... é o além!! Minha real motivação são os seres humanos ali distribuídos: garçonetes simpáticas com seus dias difíceis pelas agruras da vida, atendentes que por vezes pesquisam, trazendo-nos novidades e informações sobre o grão nobre que gerou tanta riqueza dor ao longo de sua história, amigos de tempos que ali refertam com o líquido recioso e colocamos as notícias em dia, casos de amor e casos de dor também desfilam harmonicamente nestes “antros” de prazer, até porque ele sabe conviver democraticamente e se derrama nos bules de prata dos palácios, e mata a fome nos copos simples dos casebres miseráveis, onde também tem seu valor. Acolá, também acontecem os encontros, um gole e logo após um olhar de promessa de dias doces, quentes, saborosos, brindados com ele! E também... desencontros que são propositalmente regados a café, trazendo-nos à razão, que o café acaba na xícara, mas se olharmos para a máquina ali afixada, veremos a água a ferver, o coador à espreita, e ele assentado no fundo a esperar, pois há sempre novas fervuras, fazendo-nos entrever da destemida continuação de novas histórias, que poderão ser escritas pelo doce sabor de seu líquido. Quantas histórias e logísticas existem do seu plantio, manuseio e transporte para que estejamos ali, à mesa, desfrutando desse momento, despretensiosamente, por vezes nos perdemos no tempo, como se ele nos embriagasse em sua companhia. Tivemos a feliz estadia em uma fazenda, no interior do Espírito Santo, região cafeeira há séculos, e, ali, observamos o cuidado e o zelo até chegar aqui neste bate-papo. A escolha dos grãos, o plantio por equipes contratadas pelo sistema de empreitada, a colheita em seu tempo e meses certos, hoje com instrumentação que facilita e agiliza, a despolpa, a secagem no terreirão, ou nos grandes fornos elétricos para esse fim, as plantações que se perdem ao infinito naqueles quilômetros, qual tapete esverdeado, o envio aos armazéns cooperativados de estoque e comercialização, enfim, como no início, os seres humanos envolvidos em todo esse processo: meninas, meninos, jovens, idosos, famílias inteiras que vivem e sobrevivem sob o aroma e a força do café! Quantas amizades que se iniciaram
pelo simples gosto de estar ali, em balcões e mesas, proseando sobre tudo: a meteorologia, a política, o futebol, a culinária, a dieta, a crise (várias), a família, os livros, a religião, a música, a moda, questões sociais, os desejos, sonhos, projetos, as tristezas, as perdas, o féretro, enfim... a vida!
Foi num desses encontros que aprendi a saboreá-lo com legitimidade, através de um amigo, advindo da região serrana carioca, com capacitação em massas, Pâtissier, recém-chegado à cidade, contratado para um empreendimento em que faria a ambientação, fizera um curso com um especialista em grãos, pedindo-me que reduzisse o açúcar para sentir a “qualidade” do café, para que minhas papilas gustativas pudessem perceber, não o açúcar, mas o líquido precioso.
Esta narrativa, sem pretensões de método e definições, inicia-se a falar de gente, lembram? Quando se dispuserem ao próximo café, abram-se a esta experiência de observação, se atentem às pessoas presentes, façam disso um ritual “quase” religioso, saboreando o café, aproveitando o ensejo de degustarem também o sabor de cada indivíduo, suas histórias, seus desafios que por vezes nos assemelham, seus desencontros profissionais que nos podem ser úteis no futuro, pois às vezes o café esfria, e o mercado também! Ninguém em sociedade pode se dizer completo, pois desconhecemos quem domine todas as artes, toda ciência, toda religião, somos seres em processo de crescimento, uns dominam como gênio uma cirurgia cardíaca, sabem exatamente a dimensão do corte do bisturi, mas são inaptos para uma intervenção no coador ao dosar a medida cirúrgica do grão moído. Por que quase religioso? Devido ao seu sentido etmológico: Religare = do latim religar, que propõe uma religação do indivíduo com a Divindade da qual se apartou, e neste sentido mais exato, independe de locais pré-designados, pelo fato da possibilidade de estarmos no templo sem ligações com Deus, pois não é o templo o elemento de ligação, e sim sua mente, seu coração, seus pensamentos, suas ações, enfim... seu desejo. Sendo assim, essa religação parte da relação com outros indivíduos, mas precisamos olhá-los, senti-los, e esse momento, que talvez seja o único de uma parada para a maioria, em que desaceleramos dessa vida corrida de agendas e por vezes exclamamos:
— “Faltam-me horas e sobram-me compromissos!” Perdemos o controle de nossas vidas para os compromissos, como se eles pensassem e tivessem o controle, e nos enchemos de orgulho de sermos prisioneiros, não parece um paradoxo? E é a vida sinalizando, e ela sinaliza sempre, nossos limites físicos, emocionais, psicológicos, etc.
Ainda estão aí? Olhar as pessoas, criar este exercício de maneira saudável, sem rotulá-las pela vida que escolheram, sem diminuí-las pela ausência de títulos, sem marcá-las pela cor da pele, classe social, religião, orientação sexual, profissão... ficamos um bom tempo diante de uma vitrine da moda, diante de um veículo de nossos sonhos de consumo, diante da TV, diante dos notebooks, todos eles seres inanimados, sem alma, sem a graça da troca, sem o sorriso de gratidão, sem o calor do toque, sem a capacidade de nos ouvir, incipientes para nos sentir... e ali está diante de nós uma multidão de seres animados, com alma, com sonhos, sentindo e se emocionando conosco, na expectativa da interrelação, da troca, da doação e, como no café... só pegar na alça da xícara e degustar!