prosa

O pintor

O pintor



por Rozan Silva


A fama do estranho pintor foi bater à porta do reino, e lá estava em pessoa o próprio rei.


Esta história aconteceu a muito, muito tempo atrás, em um reino governado por um tirano. Certo dia chegou um homem idoso, que se instalou no mais populoso, povoado do reino. No começo ele vivia quase recluso, poucas pessoas o viam, e ele só saía de casa à noite, para ir a uma taverna beber, o que fazia sozinho, em um canto, sem trocar palavras com ninguém, exceto com o taverneiro, para fazer o pedido de uma garrafa de vinho. Mas, como não incomodava ninguém, aos poucos parou de ser notado, até o dia em que colocou em sua porta um aviso, dizendo que era um pintor, e aceitava trabalho. Demorou até que o primeiro cliente aparecesse, um pai que trouxe a filha de quinze anos, para que se fizesse seu retrato. O pai naturalmente quis acompanhar o trabalho do pintor, e passou os dias sentado a um canto, enquanto a filha posava para o artista. Ao fim de cada dia de trabalho tanto o pai quanto a filha queriam ver como estava ficando o quadro, mas, assim que se cansava, o pintor imediatamente cobria o quadro, dizendo que só quando estivesse terminado ele poderia ser visto. Este primeiro trabalho demorou quase quinze dias, ao fim dos quais o pintor enfim permitiu que outros olhos que não os dele vissem a obra. E que obra! O pai ficou maravilhado, pois o quadro mostrava sua filha ainda mais bela do que era, as cores, as sombras, tudo fazia com que quem visse a pintura, se encantasse. A partir dali a fama do antes recluso desconhecido, agora pintor, se espalhasse. E, como seu preço era módico, vieram bater à sua porta pessoas de todas as classes, e ele atendia a todos da mesma maneira, sem fazer distinção entre os mais abonados e bem vestidos, ou os mais pobres e quase maltrapilhos. Sim, porque a alguns, ele mesmo os convidava para posar para um retrato, não importando se nem tinham casa nem parede para pendurar o quadro quando terminado. Porém, seus métodos de trabalho continuavam os mesmos, e ele não deixava que vissem a pintura, enquanto não terminava. E mais um detalhe passou a fazer parte das histórias que contavam sobre ele: alguns quadros, ele não entregava. Foram poucos, diziam, mas um homem que encomendara o quadro do sobrinho, para fazer um presente à irmã, contou que quando o quadro ficou pronto, o pintor parou, deu uma longa olhada, e derramou um balde de tinta por cima. Em seguida, colocou o rapaz para fora da casa, sem dar tempo para reclamações. O homem disse que foi ao encontro do pintor, para saber o que tinha acontecido, mas que o pintor havia dito que era melhor que ele esquecesse o assunto, batendo a porta.
Após três anos que o homem começara a pintar, em um entardecer uma comitiva adentrou as ruas do povoado. Eram mais de trinta cavaleiros, armados e engalanados com roupas da guarda real, era o Rei que visitava pela primeira vez aquela paragem distante de seu reino. Todos se acercavam para ver o que estava acontecendo, alguns apenas espreitavam pela janela, visto que o a fama do rei o precedia, melhor não correr riscos, pensavam muitos dos moradores, que ficaram dentro de suas casas. A comitiva parou enfim na porta do pintor, que já estava do lado de fora, como se estivesse esperando pela nobre visita. E o que o rei desejaria, senão o seu retrato? A fama do estranho pintor foi bater à porta do reino, e lá estava em pessoa o próprio rei. Era um pedido, ou melhor, era uma ordem irrecusável. Porém o rei não poderia ficar ali por dez ou quinze dias, era muito ocupado, o reino era vasto e cheio de problemas, e o pintor deveria pintar o retrato em um dia e uma noite. Pois que seja, o pintor pôs-se a trabalhar. Dentro do quarto de pintura, o rei e o pintor desempenharam seus papéis, as horas foram passando, pessoas se acumulavam do lado de fora, impedidas de chegar mais perto pela guarda real. Vendedores de comidas e bebidas, cantores, quase um circo fora formado nos arredores da casa do pintor. Era um acontecimento. Depois de trinta horas, sem que nem o rei nem o pintor adormecessem, o quadro ficou pronto. O artista, depois de dar uma longa olhada no quadro, pegou um balde de tinta, e derramou sobre ele, dizendo que não poderia entregar a pintura. Claro que o rei não era um qualquer a quem o pintor poderia fazer tal afronta. Levantando-se, com certa dificuldade por ter ficado tantas horas no mesmo lugar, quase escorregando em sua urina, o rei gritou pelos guardas, e levou o pintor preso, sob apupos da multidão, que sem entender o que acontecera, gritava ora para soltá-lo, ora para queimá-lo em uma fogueira.
Dou uma pequena pausa na narrativa, para relatar que um boato corria sobre o trabalho do misterioso pintor. Seus quadros, os que ele entregava, eram maravilhosos. Os outros, os que ele destruía, ninguém tinha visto. Por isto, diziam que o pintor conseguia enxergar a verdadeira face, ou alma, do retratado. Quando era uma pessoa boa, o quadro exaltava a aura do retratado, se tornando uma obra-prima. Quando era uma pessoa má, diziam que o quadro retratava uma pessoa horrível, quase um monstro, e por isto o pintor não os mostrava, derramando tinta e os destruindo imediatamente.
O pintor ficou preso na masmorra do castelo do rei por uma semana, ao fim da qual foi chamado à presença de sua majestade. Foi levado para um grande salão, onde o rei e seus ministros o aguardavam. A um canto do enorme salão havia um grande espelho, e, defronte, um cavalete como um quadro em branco e materiais para pintura. O rei então levantou a mão, todos ficaram em silêncio. Quero ver qual a cor de sua alma, bradou o rei, se é negra ou azul. Só então decidirei o seu destino. Olhe para este espelho que está à sua frente. Veja-se por ele, e pinte o que vê. Pinte a si mesmo, este poderá ser o seu retrato final, dependendo de como você se retratará. E nós nos postaremos atrás de você, para que não possa destruir este quadro. O rei fez um gesto e todos o seguiram, se postando atrás do pintor, a uma distância em que poderiam acompanhar cada pincelada. O pintor resignou-se e começou a trabalhar. Primeiro começou a pintar as laterais do quadro, preenchendo as nuvens, o céu, a terra, uma árvore, e o tempo foi passando, alguns dos ministros e súditos foram adormecendo, menos o rei, acostumado a longas noites em claro durante as batalhas contra inimigos do reino. Até que não tendo mais jeito, começou a pintar o ponto principal do quadro. Não era um retrato de rosto, isto todos perceberam, quando viram que os primeiros esboços e as primeiras imagens serem retratadas. Era uma pessoa em pé. Quando o artista começou a pintar a silhueta de si mesmo, o rei ficou de pé e se aproximou, acordando os que estavam próximos, e vários olhos ficaram fixos no quadro. As mãos do pintor se moviam agora freneticamente, e, em poucos minutos, ele terminou a pintura, e se afastou um pouco para o lado, para que todos vissem. Ao centro do quadro, estava retratada a figura da morte, com sua ameaçadora foice.
O rei gritou, o que fez com que os ainda adormecidos acordassem assustados. Você ousa dizer que é a morte? Com uma alta gargalhada o rei mandou os guardas segurarem as mãos do pintor, como se temendo alguma coisa. Confirmas que és a morte? Não, não sou a morte, não a morte como vocês imaginam que ela é. Esta morte, retratada aqui neste quadro, não existe, ou melhor, existe na figura de muitos. A morte não é uma só, são várias entidades, que andam por este mundo. E elas contam com aliados, com pessoas como eu, que tem o dom de ver o fundo da alma de cada um. Homens e mulheres como eu que podem identificar pessoas de alma má, a quem a morte leva mais rápido, ou pessoas de alma boa, que podem ficar aqui por mais tempo. Eu não sou a morte, eu sou alguém que diz à morte, à legião de mortes, quem deve ir mais cedo, quem deve ir mais tarde. Neste momento um frio intenso começou a percorrer o castelo, à sua passagem as pessoas desmaiavam. De pé só ficaram o rei e o pintor, que disse: Vossa majestade foi a alma mais horrenda que já retratei. No meu ofício eu sempre espero que os homens possam mudar suas almas, então espero alguns anos antes de apontar seus destinos finais. Alguns conseguem, mas outros possuem a alma tão negra, que mesmo que eu esperasse por mil anos eles continuariam maus. Você é um destes, o pior que já vi. Pela primeira vez eu me regozijo por ter visto o mal ao invés do bem. Eu vi o mal em sua alma, e agora, sua hora chegou.
Quando todos acordaram o rei estava morto, com os olhos esbugalhados, como se tivesse visto a própria morte. O quadro no cavalete havia mudado, era uma paisagem alegre, ensolarada, mostrando parte do reino e o castelo, com uma estrela brilhante em cima, como se a anunciar que novos e melhores tempos viriam. Do pintor, nunca mais se soube nada.