prosa

A ponte

A ponte



por Rozan Silva


Sem dizer mais nada Jeff se encaminhou para a entrada da ponte


Sob o sol escaldante os três homens cavalgavam em silêncio. Os cavalos andavam devagar, mal suportando o peso da carga, pois além dos cavaleiros cada um carregava dois pesados sacos atravessados em seus lombos. Os homens estavam cansados, mas não poderiam parar senão à noite, que ainda demoraria 3 horas para chegar. De vez em quando um olhava para trás, procurando por algum sinal de que estivessem sendo seguidos. A noite chegou e pararam para descansar. O mais novo de todos enfim cortou o silêncio:
— Você disse que hoje ainda veríamos o Rio Grande, e já estaríamos no México, Kurt.
O homem a quem Jeff dirigira a palavra devia ter uns 40 anos, e seu olhar frio fixou-se em Jeff, que sem querer estremeceu.
— Devemos ter nos desviado um pouco, mas sinto que o rio está perto. Amanhã sairemos bem cedo e logo estaremos atravessando o rio.
— Vamos então dividir o dinheiro de uma vez, já que estamos tão perto, disse o terceiro homem, que era extremamente magro, com um grande bigode caindo pelo rosto.
— Não, disse Kurt, que parecia ser o chefe do grupo.
Os três haviam se conhecido há menos de um mês, em um saloon, e, entre rodadas de bebidas, Kurt propôs o roubo. Seria fácil, três homens carregando sacos de dinheiro para pagar funcionários de uma mina. Eles também eram três, seria como fazer um passeio. O magro, que se chamava Smith concordou na hora. Os dois precisaram de mais um tempo para convencer Jeff, que vivia de bicos, e até pequenos furtos, mas nunca tinha assaltado ninguém, como estava sendo proposto. O assalto correu conforme Kurt planejou, exceto pelo fato que depois do roubo Kurt executou os três homens que transportavam o dinheiro à queima roupa.
— Porque você os matou? Perguntou Jeff.— Eles tinham se rendido.
— Eles poderiam nos denunciar, e, além disso, o motivo de carregar um revólver é matar, não sabia?
Jeff custou a adormecer. Queria se ver livre logo daqueles companheiros. Havia dado mais passos em direção à criminalidade naqueles dias do que em toda a sua vida. Amanhã depois de atravessar a fronteira iria para bem longe dos dois, principalmente de Kurt.
Acordou com tiros, e levantou-se rápido, procurando seu revólver. Será que já haviam descoberto o roubo e estavam em cima deles? Pensou Jeff. Então ouviu um gemido, e depois um grito: — Jeff, estou aqui. Venha me ajudar! Ao chegar mais perto Jeff viu Kurt, que estava caído com o peito ensangüentado. — O idiota do Smith estava fugindo com a grana. Eu o matei, mas ele me acertou.
Jeff levou o bandido para perto da fogueira, e abriu sua camisa para ver a extensão do ferimento. A bala tinha atravessado, isto era um bom sinal, mas ele estava perdendo muito sangue. Fazendo um curativo improvisado, Jeff, depois de fazer Kurt beber quase uma garrafa inteira de uísque, o deixou dormindo e foi dar uma olhada em volta, para ver se estava perto de alguma habitação. Chegando no alto de um pequeno morro ele viu o Rio Grande, e, mais do que o rio, viu uma casa. Voltou até onde estava Kurt, amarrou os três cavalos um no outro, colocou Kurt em cima de um deles, que acabou acordando.
— Tem uma casa perto. Vou te levar lá para receber mais cuidados.
— Casa? Aqui não tem casa nenhuma. Você está louco?
Sem responder Jeff puxou os cavalos. Quinze minutos depois estavam em frente à casa. Jeff não precisou chamar, a porta se abriu e uma senhora apareceu.
— O que querem?
— Meu amigo foi ferido e precisa de ajuda. Ao dizer isto, Jeff se virou na direção de Kurt, que, inclinado no cavalo, apontava a arma em sua direção.
— Obrigado Jeff, agora podemos encerrar nossa sociedade. Vou ser cuidado por esta senhora aí, e depois atravessar o rio com o meu dinheiro. E disparou dois tiros, fulminando Jeff, que caiu ainda com um olhar de espanto no rosto.
Ele abriu os olhos e tentou se levantar. Tudo rodou e ele teve que se deitar de novo. Quando abriu novamente os olhos viu a senhora ao lado de sua cama.
Não tente se levantar. Você foi muito ferido, e precisar de repouso.
Jeff aos poucos foi se lembrando de tudo o que acontecera. Kurt, aquele bandido, tentou me matar. Entendendo o que Jeff estava pensando a mulher disse:
— Não se preocupe, ele morreu. Não resistiu ao ferimento que tinha quando chegou aqui.
— Morreu? Quando chegou aqui? Há quanto tempo estou aqui?
— Vocês chegaram a duas semanas. Ele morreu no mesmo dia. Você resistiu, e vai escapar.
Ao fim de mais dois dias Jeff conseguiu se levantar e sair devagar da casa, com a ajuda da senhora, e sentou-se em um banquinho, defronte para o rio. A mulher vinha administrando medicamentos extraídos de ervas que o estavam fortalecendo com rapidez. Disse que por várias noites ele delirou, dizendo que não era culpado pela morte de ninguém.
— Você poderá ir embora daqui a uma semana. Os sacos que vocês traziam estão guardados no porão.
— Eu não os quero mais. Vou mudar minha vida, começar de novo. Vou para o México sim, porque aqui eu sou um bandido. Lá serei um novo homem.
— Eu sei, disse a mulher, eu conheço os homens, e vi que em você ainda havia algo de bom, que bastava ser cultivado. Meus remédios aliviaram seus ferimentos, mas você se curou de um mal maior.
Sete dias depois Jeff estava pronto para partir, quando a senhora disse:
— Se quiser você não precisa ir longe para atravessar o rio. Atrás da casa tem uma ponte.
Jeff deu a volta na casa, estranhando o que a mulher dissera. Ele já havia andado em volta e nos arredores, e não tinha visto ponte alguma. Mas ela estava lá, uma ponte estreita, mas que parecia firme e segura, sobre os 20 metros de vão que o rio tinha naquele ponto.
— Incrível. Esta ponte não estava aí.
— Estava sim, só que você estava muito debilitado para poder vê-la.
— Vou atravessá-la então. O dinheiro eu vou deixar. Quando vierem procurá-lo entregue às autoridades e conte a minha história. Pode ser que eu deixe de ser procurado por aqui.
— Espere, disse a mulher. Para atravessar esta ponte você tem que estar com o coração livre das maldades. O tempo que você ficou aqui serviu para esvaziar o mal que você trazia dentro de si. Mesmo assim tenho que alertá-lo que, se estiver ainda com intenção de continuar a trilhar o caminho errado, esta ponte vai ser seu fim.
— Eu vou atravessá-la. Não tenho dúvidas do que quero ser daqui para a frente.
— Mais um momento. Dizendo isto a mulher se acercou do cavalo, e falou baixinho ao seu ouvido. O cavalo fechou os olhos e se dirigiu à ponte, atravessando-a em um trote rápido. Do outro lado parou, virou-se e só então abriu os olhos, esperando por seu dono.
— Agora é sua vez. Vá.
— Preciso fechar os olhos? Perguntou Jeff.
— Não. Mandei que ele fechasse os dele para não se assustar.
— Como fez isto?
— Vá! Mas lembre-se. Somente os homens bons podem atravessá-la.
Sem dizer mais nada Jeff se encaminhou para a entrada da ponte, colocando primeiro um pé para testar a resistência dela, um gesto inútil já que ela aguentara o cavalo. Então começou a caminhar devagar, e logo estava no meio. Olhou para trás uma última vez, para um aceno de adeus, mas não havia ninguém do outro lado. Até a casa havia sumido. Com a boca aberta de espanto Jeff olhou para baixo. A ponte também havia sumido. Ele estava em pé, no vazio, a trinta metros de altura. Voltou-se na direção do cavalo, e continuou a andar em direção a ele. Agora ele era um homem bom.