prosa

(Con) Vivendo com livros

(Con) Vivendo com livros



por Carlos Brunno Silva Barbosa


Passei a namorar as inúmeras obras literárias da biblioteca.


É infalível: quem me visita e constata a biblioteca caótica que tenho em casa acaba me perguntando como consigo viver no meio de tantos livros. Nessas horas, costumo dar um sorriso sem graça e balbuciar declarações quase sem sentido e completamente vagas: “ah, vou levando” (como se a pergunta fosse “como vai sua vida?”) ou “a gente vai convivendo” (como se a dúvida fosse “como está o seu casamento?”). Evito a resposta real, seria complicado explicar.
Por muito tempo, me expressar foi um grande mistério: as palavras que dançavam livres em meus pensamentos, quando saíam de minha boca, alcançavam o mundo de maneira atropelada e atrapalhada, chegando aos ouvidos dos outros desfiguradas. Falar era um parto, um atirar-se cego em tenebrosa roseira; as palavras me doíam como espinhos e esse era meu grande desafio: domar meu medo delas, descobrir como chegar na rosa sem me machucar demais, dominar a linguagem.
Apesar de tímido e pouco comunicativo, aprendi facilmente a ler. Certo dia, minha madrinha, que era professora numa escola particular de um município vizinho, propôs que eu fosse com ela para o trabalho. Como eu adorava passear, aceitei logo. Chegando lá, informaram que eu não poderia ficar na sala de aula (e nem queria, pois significava pôr à prova a minha [in]capacidade comunicativa), restando-me esperar minha madrinha na biblioteca da escola. E o que uma criança que já aprendeu a ler poderia fazer naquele espaço pra preencher o ócio e o tédio da espera?
Passei a namorar as inúmeras obras literárias da biblioteca. Primeiro folheava-as sem compromisso, depois fui lendo-as uma a uma. Com o tempo, percebi que o segredo de como domar as palavras, de como torná-las atraentes e fluentes, estava ali ao alcance dos olhos, na minha cara, debaixo do meu nariz, como eu não tinha percebido antes? Foi paixão à primeira leitura.
Devorei prateleiras inteiras daquela biblioteca e as palavras passaram a escorregar de meus lábios como espinhos macios; ainda balbuciava demais, mas agora as palavras saíam incontidas, desesperadoramente necessárias. Eu precisava expressá-las, libertá-las, declarar meu amor por elas. No princípio, era o medo. Através da leitura, conheci o Verbo, sua coragem e seu imenso amor.
Mas a “operação traça” ainda me tornava inacessível ao batepapo informal. Precisei adequar minha linguagem. E até nisso os livros me ajudaram! Apiedado por inúmeros personagens, de todos os tipos, aprendi com os livros a ler também as pessoas, perceber os traços e estilos de cada uma e respeitá-las, amá-las. Os livros me ensinaram a me esquecer do próprio umbigo pra viver as aventuras e desventuras dos outros. Hoje não sei mais se apenas convivo com os livros ou se vivo neles, com eles – a cada página que viro em meu caminho é um novo romance (em todos os sentidos), uma nova realidade (nunca sei se real ou fictícia), a minha vida ganha novas vidas e, nesta lida de lidas diárias, vou encontrando uma humanidade mais compreensiva e infinitamente melhor!