prosa

Piano

Piano



por Beatriz Kollenz Gama


A única coisa que não era nova que carreguei até aqui foi o piano.


Meus dedos estão sujos de tinta, brancos e manchados. O pior é que a tinta não quer sair.
Eu esperei uma, duas, três semanas até criar coragem e ir pintar a parede. Na verdade, aquelas manchas de sangue me assustavam muito. Eu sentia um embrulho no estômago toda vez que caminhava até a sala. Por fim não teve mais jeito, eu precisei pintar.
Eu precisei pintar porque o piano ficava na sala. Porque nesta droga de apartamento minúsculo não existe mais nenhum outro lugar. Porque eu gastei até o último centavo com uma porção de móveis planejados e estantes planejadas, repletas de livros que eu nunca li.
— “Você deveria ter mais livros”, ele falou, e eu, que nunca quis parecer burra, assenti. Gastei dinheiro que não tinha montando um belo closet, com um belo quarto, numa droga de apartamento que virou uma caixa de fósforos depois de tão atolado em madeira de demolição. Madeira boa, madeira cara. A única coisa que não era nova que carreguei até aqui foi o piano.
Por não ter as teclas ao meu lado eu fiz um tour pela minha memória. Rememorei meus piores momentos nos seus melhores ângulos. Passei a vida toda tocando. Toquei quando meus pais se separaram, eu toquei quando minha mãe se casou. Eu toquei enquanto minha mãe ligava desesperada para a polícia gritando que meu padrasto não a deixava em paz. Toquei enquanto ele matava minha mãe e toquei sem parar quando me deixaram na porta da casa do meu pai. Toquei a vida toda. Mesmo sem um teclado. Toquei com os olhos, com a mente e com meus pés. Meus dedos nunca pararam quietos. Eu toquei o piano durante todo esse tempo tentando fugir. Eu teria tocado nessas semanas todas se não fosse essa porcaria de mancha. Eu teria me mantido sã nesse tempo todo se pudesse fazer isso.
Mas eu não consegui. Eu namorei a faca da cozinha, me escondi no quarto, fiquei dias sem comer. Eu quebrei meu espelho e rasguei aquelas roupas de mentira, teria rasgado meu sorriso de mentira se tivesse a coragem de fazer. Nunca senti mais vergonha e raiva de mim. Sentia tanto ódio que não conseguia tocar com minha mente, eu não me lembrava de nenhuma maldita música, eu só escutava ele gritando. Um grito longo e alto. Como detesto esse monstro em mim.
Eu nunca devo conseguir entender o motivo daquele grito. Eu não era a histérica afinal? Eu não era a maluca e descontrolada, gastando tudo e nunca dando o suficiente? Ele não me parece mais tão certo assim... Agora eu não consigo tocar. Ele atrapalha o martelo de bater nas cordas e ressoar o som do meu lindo piano. Ocupa toda a caixa com seu peso morto. Imprestável até no fim.
Eu me pergunto se um dia ele vai sumir e me deixar em paz. Será que quando eu conseguir tocar, o som das teclas vai soar como o seu grito? Eu não deveria querer isso, mas espero que sim.