prosa

O riso do demônio - Parte II

O riso do demônio - Parte II



por Asséde Paiva


Dedicado a meus antepassados, que viveram este estranho acontecimento.


POSSESSÃO

Eis a messe do fazendeiro. Como teria começado aquele drama? Ninguém sabia explicar corretamente. Aqueles que tinham boa memória recordavam que, no mês de maio, costumavam rezar o Santo Rosário, em homenagem a Nossa Senhora. Em cada casa ela ficava nove dias, era a novena. Levada de uma para outra em procissão solene, à noite, quando entoavam hinos religiosos durante o trajeto. Vestiam, neste dia, as crianças, de anjinhos para maior brilho da festa. Chegou a vez do acontecimento se dar na fazenda Jurema. Foi aí que os problemas da menininha se tornaram evidentes.
Nossa Senhora, a virgem santa, vinha de longe, em procissão, com muita gente, pois Chico Nico era importante Todos lhe puxavam o saco. E vinham segurando velas acesas, com as duas mãos à altura do peito, em sinal de contrição e cantavam:
“Avê... Avê... Avê, Maria!... Avê... Avê... Avê Maria!"
As velas tremeluzindo à brisa suave de uma noite estrelada, a imagem balançando levemente, no andor, nos ombros dos irmãos marianos, o serpentear na planície, causavam arrepios de emoção nuns e de medo noutros, dependendo do estado de espírito.
O pessoal aglomerado, no alpendre da fazenda, esperava. Os sons ficavam cada vez mais nítidos:
“A treze de maio na Cova da Iria,
Dos céus aparece a Virgem Maria...”
Ritinha, sexta filha do casal Chico Nico e Almira, então com onze aninhos, franzina, aparentava ser mais nova. Lourinha, cabelos ondulados, dentes perfeitos, rosto angelical, tinha um ar de princesinha. Quando no jardim, parecia uma fada, uma flor entre as flores. Os raios do sol ricocheteavam nos seus cabelos formando cascatas de ouro. Extremamente sensível, apanhava no ar os desejos da mãe e dos irmãos. Os olhos muito azuis brilhavam de prazer com essas premonições. Ela prometia ser uma bela mulher. Sonhava de olhos abertos, conforme os anseios da idade. Tinha sensações indefinidas, esperando que o mundo lhe fosse trazer grandes surpresas. Gostava de ficar sozinha com pensamentos e olhos perdidos no mundo interior. Tinha verdadeiro pavor do pai e nenhum diálogo com a mãe, que só sabia dar ordens:
“Varra a casa! Olha teu irmão! Vai deitar!...”
Obedeça, obedeça, obedeça... sim, sim, sim...
Como não era ouvida, nem chamada para conversar, criou um universo particular e nele se enclausurou e se dava muito bem. Neste mundo imaginário tinha como amiguinhos duendes, gnomos, elfos, salamandras e outros personagens míticos com os quais dialogava, expunha problemas, dúvidas, alegrias, tristezas, amores e sonhos.
Quando chamada pelo pai, tremia de medo, pois quase sempre ouvia sermões, zangas ou tomava safanões.
E a procissão chegou ao cercado. Ritinha, sem razão clara, começou a tremer incontrolavelmente. Olhos esgazeados, fixos no povo, nas velas e nas chamas dançantes, que de acordo com o vento, agora mais forte, algumas até apagavam. À medida que caminhava mais inquieta ela ficava. Escondeu o rosto nas pregas da saia da mãe; com os dedos crispados segurava no tecido e dava arrancos. Força incontrolável arrastava-a para dentro. Tomou um beliscão, dois, com ordem para ficar quieta. Não obedeceu.
“Menina fique quieta!”
O pessoal, as velas, a santa, estavam ao pé da escada e Rita chorando.
“Mãe! Manda eles embora!” Chico Nico, homem de pavio curto, deu uns cascudos na filha para ela se calar, mas não adiantou.
O cortejo subia a escada de pedra, cantando:
“No céu, no céu, com minha 'starei.”
Cada vez mais desesperada com o pessoal que pisava o último degrau, Rita não suportou. Disparou para dentro e foi se esconder no quarto onde se cobriu com uma colcha.
“Tire ela daqui! Tirem! Não gosto dela, está invadindo minha casa!” repetia, sem cessar. Chorava e gritava e gemia, e todos escutavam aquilo, sem entender nada.
A mãe resolveu perguntar o que se passava. Estaria a filha ruim da cabeça? Entre soluços, limitava-se a pedir que levassem aquela figura de barro, referindo-se à santa.
Por fim, dona Almira, que não entendera patavina daquele comportamento, desistiu de levá-la à sala onde estava o altar. Cerrou a porta, trancou o quarto por fora, voltou ao grupo desculpando-se pela filha que, com certeza, estava com histeria.
E os fiéis continuaram a cantar:
“Com minha mãe 'starei, / na santa glória um dia...”
“Ao lado de Maria / No céu triunfarei.”
Enquanto durou a reza, a garota permaneceu no quarto, de vez em quando, jogava um traste na porta, assustando os rezadores. Terminada a oração, a mãe fez outra tentativa, arrancou-a do refúgio e a levou à sala para beijar a fímbria da capa da santa. Foi um desastre. Ela se contorcia, se debatia e se jogava ao chão, gritando que não queria beijar barro. Praticamente arrastada, aproximou-se do altar. A mãe segurou-a pelos cabelos e levou a fita aos lábios dela. Ela agarrou a tira que passava pela cabeça da imagem e puxou violentamente. A santa foi arrancada do nicho e atirada ao chão, quebrando em mil pedaços. Como por milagre, Rita parou de se debater; ficou quietinha, olhando os cacos. Parecia que a razão de ser daquela agitação desaparecera, a santa não existia mais. Cessada a causa, cessava o efeito.
Os fiéis presenciaram a cena, estupefatos com a violência do ato e com a mudança de comportamento. Começaram a murmurar que ali estava o diabo. Cataram os cacos para tentar uma reconstituição e trataram de dar o fora daquela casa, arranjando mil desculpas.
E os antecedentes...? Acontecera o seguinte: Ritinha era uma criança normal como todas. Então o pai aprontou uma confusão que a afetou profundamente. Meiga como uma rosa, detestava brigas, confusões e discussões, mas o pai gostava. Um dia ele a levou ao arraial para assistir à missa. O pai, após algumas libações, ficou alto e por motivos políticos, arranjou uma arenga com o frei Gálio. A zanga entre os dois foi crescendo até que, saindo da afronta verbal, partiram para a agressão física. Chico Nico, mais forte, deu uns tapas e tombos no inimigo. A turma do deixa-disso interveio e não permitiu que a briga demorasse, separando os contendores. A guerra de palavras e ameaças continuou. O cura jurou que o fazendeiro iria se arrepender e que ainda lhe pediria perdão de joelhos. Invocou o poder de todos os santos e o dele de excomungar. Embora bom, puro de coração e probo, o padre tinha um defeito: irritava-se com facilidade. Chico Nico lhe prometeu uma sova de tala. Essas ameaças foram ouvidas por todos.
Voltaram a casa. A garota em total mutismo. Ligeiros tremores lhe percorriam o corpo. O velho fazendeiro contou à mulher a desavença, aumentando as invectivas e prometendo aplicar um corretivo inesquecível no vigário, que ficaria sem a pele das costas. Citou os nomes de Pedro Sertanejo e de Pedro Pião (este quando bêbedo, rodava como tal), dois valentões, que fariam o serviço, pois não queria se envolver diretamente.
Rita ouviu tudo, com os olhos arregalados de susto. Retirou-se para o quarto, chorando copiosamente. O pai estava errado, não era justo maltratar o pároco. Sem saber o que fazer para evitar a contenda, resolveu procurar os peões citados para lhes pedir que não batessem no bom padre.
Os capangas eram broncos, analfabetos e maus. Executavam tarefas sujas ordenadas pelo patrão; não hesitavam em matar se fosse preciso. Moravam no mesmo casebre, por serem solteiros.
Chegando à casa de taipa, entrou sem avisar, pois a porta estava só encostada. O que viu a encheu de vergonha: os xarás, bandidos estavam praticando sodomia. Ela, recuperando os movimentos, girou sobre si mesma e retornou em disparada, enquanto ouvia as gargalhadas dos boçais.
O caso do padre e dos facínoras foi demais para ela, que adoeceu e, por algum tempo, exigiu os cuidados dos pais. Por enquanto, Chico Nico esqueceu a querela.
Quando Rita se recuperou, não foi mais a mesma. Cada vez mais taciturna, raramente dirigia a palavra a alguém. Um dia, encontraram-na debaixo da cama. Perguntaram por quê. Disse que estava vendo um negrinho. Ele viera buscá-la.
Neste estado psicótico, tinha visões esporádicas, onde predominava a figura do cravunco. Ora ele estava numa moita de bananeiras, ora na copa de um coqueiro, ora trepado nas tábuas do retiro e, quase sempre, dentro do quarto. Ela dormia mal e dizia palavrões por qualquer motivo.
O tempo passou, o problema permaneceu. Então o pai resolveu levá-la à igreja de Humaitá. O capelão de lá era amigo, com certeza lhe daria uma orientação. Mandou selar três animais, um para ele, outro para a mulher e outro para a filha, os últimos com silhões, mulher, por pudor, cavalgava de lado.
À medida que se aproximavam do lugarejo, a menina ficava cada vez mais inquieta e o cavalo que a levava, também. Quando avistaram o campanário, seu Chico resolveu dar de beber aos cavalos em um regato que ficava à esquerda do cruzeiro. Neste momento, um dos potros agitou, estacou, empacou e não foi possível fazê-lo andar. Desistiram de dessedentá-los.
Chico Nico amarrou o cabresto do potro de Rita no seu arreio e puxou. Dona Almira ia atrás chicoteando. Só assim puderam continuar a jornada.
Em um lugar sombrio, a estrada era engolida por um exuberante bosque de bambus, taquaras, taquaruçus e tabocas que, pelas altíssimas hastes curvadas umas sobre as outras, formavam uma espécie de túnel, um boqueirão escorregadio, úmido e frio. O local era denominado carrascal em face da grande quantidade de cristais e malacachetas ali encontradas. O pai soltou o cavalo para abrir a porteira. Uma vez aberta, Rita passou e o animal disparou. Bufando, desceu a ladeira sem que ninguém pudesse detê-lo, deixando os acompanhantes. Não se sabe como e ninguém jamais soube explicar a ultrapassagem de tantas porteiras sem que a amazona abrisse qualquer delas e sem que ela despencasse do animal desembestado.
Chegando, no adro da igreja, o ginete estacou. Ela se jogou da montaria, que partiu como um raio por um beco e dela ninguém teve notícia jamais.
Em pé, ela ficou olhando estática para a cruz no alto da torre. Os pais apearam, amarraram os animais em uma árvore na pracinha, e seguraram-lhe as mãos geladas.
“Vamos entrar na igreja” ordenou o pai.
Ela nem se mexeu. Recebeu um arranco. Nada. Parecia uma pedra bem assentada no solo. O velho sentiu que não conseguiria desse modo; colocou-a no colo. Ela estava tão pesada... Um peso formidável, insuportável. Depositou-a no chão e, desanimado, olhou para os lados num pedido mudo de socorro.
Dona Almira a tudo assistia abismada. O povo ia chegando pelo insólito da cena; por fim, fizeram um círculo em torno dos três: pai, mãe e filha, desamparados, patéticos e grotescos na praça.
A missa terminou. Os fiéis iam refluindo do interior da ermida e aglomerando no átrio. Dali observaram aquele pequeno grupo. Curiosos foram até eles, logo formaram uma multidão. O reverendo, nesse momento, assomou à porta principal ainda paramentado. Indagou o que se passava. Uma beata colocou-o a par da situação. Adivinhou que os viajores o procuravam, para eles se encaminhou. Com cotoveladas, empurrões “com licença”, ficou frente à frente com os três.
“O que tem ela?”
Cumprimentaram-se e o pai, em voz baixa, explicou concisamente o caso. O eclesiástico determinou que ela fosse levada para o interior da nave. Aí estava a dificuldade, não havia jeito de fazê-la caminhar. Estava fixa no solo. Três homens avançaram para ajudar. Seguraram nas pernas e nos braços, puseram-na em posição horizontal e levaram-na até à entrada. Impossível ir adiante, ela pulava, debatia-se, agitava, esticava e encolhia. Liberava um braço ou perna, chutava, caía no chão, serpenteava entre as pessoas até ser agarrada de novo. Não falava, dentes cerrados e lábios apertados deixavam escorrer uma espuma esverdeada. Os olhos vidrados. O quadro espantava. Desistiram da tarefa e a colocaram na entrada do templo, sobre um matacão, para deliberarem o que fazer. Alguns persignavam.
O povo assustado e temeroso segredava:
“É o demônio, nunca vimos nada igual.”
Rezavam em voz baixa o Creio em Deus Padre.
O ministro do Altar ficou pensativo por minutos, depois pediu que a levassem à casa paroquial, o que foi feito com muita facilidade; não houve resistência. Arrumaram às pressas uma cama onde ela foi deitada. Estava tão exausta que permaneceu inerte, como morta, esgotada pela luta para não entrar na igreja.
Acalmada a situação, a multidão se dispersou, ficando poucas pessoas para ajudar em qualquer eventualidade. Havia muita expectativa.
Serviram café e outros alimentos, que os viajantes comeram com satisfação, exceto a doente, que permanecia prostrada, alheia a tudo o que se passava ao redor.
Descansados, pai e mãe foram minuciosamente interrogados e relataram a história completa ao religioso, que tomou conhecimento das blasfêmias de Chico Nico, da briga com o frei Gálio, da praga recebida, de tudo.
Seguiu-se então longo silêncio. Todos meditavam sobre as mazelas daquela família. O guia das almas aconselhou:
“Temo que ela esteja endemoninhada. Infelizmente, se for o caso, não tenho autorização do senhor bispo para exorcizá-la. A igreja tem prelados especialmente treinados para isto. Recomendo que procurem um.”
“Vim aqui no maior sacrifício, porque é meu amigo, agora o senhor diz que nada pode fazer. Estou frustrado, decepcionado. Sou um homem desesperado. Ajude-me!” exclamou o pai de Rita.
Arruda, este era o nome do capelão, não se tinha como competente. Julgava-se medíocre, mais ainda, um pecador. Gostava muito dos óbolos dos fiéis, reclamava do seu pão-durismo, dizendo que padre também comia. Apascentava as ovelhas mecanicamente, de forma disciplinada e sem inovações. Como paciente sacerdote do povoado, realizava um bom trabalho: casamentos, batismos, confissões, extrema-unção, encomendas de mortos; coordenava as festas anuais a favor do padroeiro, fiscalizava o fabriqueiro para evitar deslizes financeiros; oficiava a missa aos domingos, dias santos e por solicitação. Neste ofício e ocasiões alternavam nas homilias, os surrados chavões contra os maçons, os ateus, os crentes e os espíritas, mas sem ênfase, grande fé, nem entusiasmo, pois era um tanto relaxado com as coisas da religião. Não esperava que os fiéis o levassem a sério.
“Posso tentar” disse o padre. “Para mim o caso é muito grave, vou fazer um teste; se for possessão, saberei.”
Mandou o sacristão ir à igreja apanhar no cibório uma hóstia consagrada. Logo que a teve em mãos, tentou introduzi-la na boca da garota; não foi possível, ela cuspiu.
“Não como esta porcaria” disse com voz rouca. Padre Arruda desistiu. Virando-se para o pai, aconselhou:
“Considerando que os sintomas são evidentes, não vou fazer mais experiências com ela, pois poderá perder a vida e a alma imortal; a solução, já dei: achem um exorcista.”
Embora contrariados, os pais tiveram que concordar; pernoitaram na casa paroquial e, na aurora, partiram, para alívio do clérigo.
A possessa melhorou consideravelmente quando iniciaram o regresso. Até se podia pensar que ela estivera fingindo tal a transformação. O rosto pálido agora estava rosado. Tagarelava com a mãe, ria das coisas tolas, acompanhava com os olhos o vôo dos pássaros, parava o cavalo e descia para colher uma rosa silvestre. O pai desconfiava do que via. Achava que estava sendo ludibriado. Intimamente, julgava a filha leviana e mimada. Talvez estivesse fazendo um papel para ser notada.
“Espero que Ritinha não esteja me enganando. Que será que está me aprontando? Quem sabe se um bom corretivo? Veremos isto lá em casa.”
Ao passarem perto da velha figueira calcinada Rita emudeceu, algo enganchou na garupa do seu cavalo, que se achatou, como se carregasse pesado fardo para suas forças. A coisa só pulou fora na entrada da malhada. Era o moleque-preto.
Chovia torrencialmente, os cavalos patinavam nas pedras e afundavam as patas entre elas. Os familiares e colonos da fazenda Jurema/Buriti esperavam no alpendre os patrões que, muito antes de aparecerem, foram anunciados pelos latidos dos cães. Noite escura, os lampiões, lamparinas e velas davam um tom irreal à cena. A batida das patas no esterco molhado: ploc... ploc... ploc... O uivo dos mastins, guarda-chuvas abertos, capas, tudo contribuía para aquela fantasia.
O sacudir das lanternas dos empregados, que se aproximavam para ajudar, assustou um dos corcéis que, empinando, jogou Chico Nico no chão.
“Com seiscentos mil diabos! mato este cavalo.”
Levantou rapidamente e desancou o pobre animal com o cabo do chicote. Um serviçal pegou o cabresto e se afastou celeremente, livrando-o da sanha do dono.
“O que se passou na nossa ausência?” perguntou. “Nada, senhor” respondeu um empregado.
Mesmo que tivessem problemas, a resposta seria a mesma, ninguém queria incorrer na ira do patrão.
Entraram. Nesta hora, a menina deu um berro e caiu desfalecida. Correram para todos os lados à procura de socorro: esfregar pulsos, sal, vinagre, éter e amônia. Voltou a si, mas não era ela. Notava-se principalmente pelos olhos opacos, sem vida, com a esclerótica revirada. Emitia sons guturais completamente estranhos a sua meiguice natural.

O ÍMPIO

O presbítero estava agoniado por demorar tanto na viagem, esquecia a cautela e apressava o possível, para atender o chamamento do Chico Nico, mas o cavalo estava cansado, sobrecarregado com duas pessoas, poderia afrouxar, queria evitar novos acidentes. Andava sempre, só parava para os descansos essenciais e alimentação. Curiosamente, dois sentimentos antagônicos o espicaçavam: queria conhecer o problema e tinha medo de encará-lo. Parente longínquo do dono da fazenda Jurema, há muito não o visitava. Conhecia bem a fama do mau-caráter. Valendo-se do parentesco, Chico Nico lhe escrevera, contando-lhe os apertos e convidando-o ou, melhor, intimando-o para uma visita.
Recebera a correspondência e pusera-se a cismar sobre a situação. Estivera tentado a rejeitar, mas não ousara. Não se considerava um santo, nem era versado em temas demoníacos. Sabia, porém, que o parente de gênio intratável jamais lhe perdoaria se não comparecesse. Depois de tomar algumas medidas na freguesia, avisou ao sacristão que iria se afastar por alguns dias. Qualquer recado urgente deveria ser encaminhado para a fazenda Buriti.
Enquanto tomava essa decisão, raciocinava. Foi por acaso que se tornara sacerdote. Último irmão de uma família de doze, e pobre, cresceu com os demais, livre de educação e com trabalho pesado. Um dia, no arraial em que moravam, sucedeu a semana das missões. Missionários promoveram conversões, casamentos e batismos. Havia muita festividade. O garoto observou que os pregadores eram saudáveis, alegres, bem nutridos e respeitados. Chegou à conclusão de que a vida religiosa lhe convinha, por esses motivos. Se enturmou com os redentoristas, ajudou-os a celebrar missa, fazia-lhes as vontades, arranjava o altar, participava das procissões e da limpeza da igreja. Foi tão simpático e fervoroso que acabou sendo convidado a tentar o ministério religioso. Aceitou de pronto, pois viu aí a grande oportunidade para escapar do marasmo da vila e da vida. Os pais reagiram fracamente a tão recente vocação, contudo, os padres os fizeram ver que a sorte sorrira ao menino e que um futuro brilhante o esperava. Concordaram. Uma boca a menos para alimentar fez a diferença.
Findas as missões, o menino partiu com os predicantes, largou para trás parentes, amigos e trabalho.
A vida no seminário era dura, duríssima, penosíssima mesmo. Levantava-se às quatro da manhã: rezas, orações, ladainhas, missa, estudos da Bíblia, latim, grego, religião comparada, filosofia, psicologia, ciências, sociologia e trabalhos diversos, por cinco anos. A comida saudável, sem exageros. Muitas vezes pensou em desistir; entretanto, lembrava das privações e da vida medíocre que o esperava no povoado, ganhava ânimo e continuava os estudos. Mas não tinha mesmo vocação para o ministério. O sangue quente por qualquer motivo punha-o às turras com os colegas. Além disso, tinha pensamentos pecaminosos. Ele mesmo se apanhou diversas vezes divagando sobre as formas femininas das santas. Transportando as idéias para as meninas, via-as nuas e ele roçando as mãos pelas carnes macias e quentes, sedosas, procurando com os dedos acariciar-lhe os peitinhos, mergulhando voluptuosamente nas partes íntimas. Um mundo de tentação, desconhecido e maravilhoso. Alisava o sexo, suspirava de prazer, tinha poluções fortes em sonhos. Não demorou a encontrar colegas afeminados que se dispuseram a satisfazê-lo em seus anseios por mulher. O hábito faz o monge, um adágio popular, não valeu para Afonso. O noviço logo que envergou o estamenho se julgou autorizado a praticar todos os absurdos que lhe vinham à telha. Tornou-se um prelado libidinoso, sem-vergonha, salafrário e iconoclasta. Em um acesso de fúria pegou um facão e degolou todos os santos e santas da igreja. Pôs as cabeças num saco de aniagem e enterrou-as no adro. Colocou os corpos decepados empilhados na sacristia. Em outra ocasião, muniu-se de um martelo e se dirigiu ao cemitério onde depredou cruzes, lápides, túmulos e anjos. Tudo foi destroçado. Os crentes, horrorizados, pediram ao bispo seu afastamento da paróquia, sem sucesso. Tirassem-lhe a batina, apareceria o demônio, o tratante. Tinha a alma, o corpo e a mente maus, perversos, e impulsos homicidas. Algumas vezes sacou o ponto .38 para ameaçar os paroquianos. Existia outro complicador. Tinha namorada ou, melhor dizendo, amásia. Por isso era objeto de fofocas e de galhofas. Diziam que, no início do namoro, escrevera um bilhete à amada reclamando que o amor sem beijo era igual o doce sem queijo. Verdade ou não ele era desmoralizado o bastante para temer as forças do mal. Este foi o ministro chamado para exorcizar a filha de Chico Nico. O insucesso era previsível.

O que quer que possuísse Rita não tinha o menor receio do eclesiástico. Sabia que ele vendia hóstia aos pobres quando da comunhão pascal. Dera-lhe um tombo no morro da Fumaça e ainda tinha outros recursos. Em tempo oportuno seriam mostrados.
Padrinho, o padre e afilhado estavam serpenteando morro abaixo em direção à fazenda Jurema/Buriti. Mais quatro horas e chegariam ao destino. Desciam devagar, pois o monte, envolto em névoa translúcida, dificultava muito o caminhar, da montaria.
O garoto agarrava com força a cintura do cura que, para evitar outros tombos, conduzia com extremo cuidado.
O calor do jovem estava provocando pensamentos lúbricos no padrinho que, entretanto, sabia se conter. O menino, muito curioso, o interrogava a miúdo sobre o problema que iriam enfrentar. O pároco procurava explicar:
“Meu filho, segundo nossa crença e com base em texto da Escritura Sagrada, o diabo ou que nome tenha é uma entidade má que existe desde o princípio do mundo. Conta-se que ele convenceu Eva, no paraíso, a comer a fruta da árvore do bem e do mal, e enganou Adão, o primeiro homem que comeu da mesma fruta. Ambos foram expulsos por terem desobedecido às ordens de Deus. Nossos sofrimentos decorrem desse fato.”
— Quem criou o diabo?
— Deus criou os anjos. Um deles se rebelou; chamava-se Luzbel. Na hierarquia angélica era um Serafim. Ele, formoso, orgulhoso e invejoso, queria ser igual a Deus. Houve uma batalha no Céu. Os anjos comandados pelo arcanjo Gabriel venceram. O rebelde e companheiros foram lançados no inferno. Há quem diga que esse inferno é na terra, onde habitamos. Pessoalmente, estou de acordo com esta versão: estamos no inferno, mas o excomungado precisa de um quartel-general de onde administra os domínios e mantém as instalações para os tormentos. Satã, Demônio, Lúcifer, tem incontáveis nomes e nos persegue sem cessar ou descanso, tentando-nos para cairmos em pecado mortal e perdermos nossas almas. É uma luta terrível entre o bem e o mal. Aqueles que caem em erro vão sofrer penas eternas e serão assados no fogo do Inferno. Os que não fraquejarem irão para o céu, a mansão dos bem-aventurados, e contemplarão Deus. Outros que cometeram pecados de grau leve passarão algum tempo no purgatório, até que as rezas dos católicos e o beneplácito do Senhor os tirem de lá. Quanto à atuação de Satã, ela se apresenta de vários modos: infestação, obsessão e possessão. Esta é a mais grave. Ele toma um corpo e começa a comandá-lo, aí faz prodígios. Tem força fora do comum, lê pensamentos, adivinha o passado e o futuro, fala e compreende línguas estranhas. Não suporta objetos sagrados. Dizemos, nesse caso, que o indivíduo está possuído, possesso ou endemoninhado.
— Isto acontece muito?
— Certamente. O mundo é perverso. Grandes pecadores estão aos montes por aí. Vez por outra, o demo quer levar alguém para as profundezas. Quase sempre são jovens, porque são mais frágeis, ou melhor, mais imaturos. Ao mesmo tempo, servem de exemplo aos pais, que vêem concretizar-se, materializarem-se as maldades e impiedades. Menino, não sei se você suportará o que está por vir; em todo o caso mandá-lo-ei de volta, se desistir.
— Não! Quero ficar e ajudar, se for possível, e estou muito contente.
Enquanto conversavam, terminavam de descer a trilha do morro da Fumaça. O longo caminho findou sem problemas; apenas um escorregão aqui, outro acolá, davam pequenos sustos nos cavaleiros. Entraram na planície enlameada que antecedia Santa Bárbara, atravessaram o lugarejo e horas depois estavam no cercado da fazenda.

Dentro de casa de fazenda o cão gargalhava antegozando a vitória, pois o homem de saia tinha culpa no cartório.
Foram recebidos por Chico Nico, que segurou com uma das mãos o freio e o cabresto para o tonsurado apear com maior segurança, ao mesmo tempo em que dava a outra mão ao garoto para ajudá-lo a pular da garupa. Com calorosos cumprimentos, o fazendeiro convidou-os a entrar.
Na ante-sala esperavam os demais membros da casa, parentes, serviçais e hóspedes, sempre cheia de curiosos que vinham ver a energúmena. Feitas as devidas apresentações, o visitante pediu para ser conduzido à infeliz padecente, no que foi prontamente atendido. Tinha a secreta esperança de que fosse um caso de epilepsia ou outra forma de doença mental. Dirigiu-se ao quarto; a mãe abriu a porta e adentraram no recinto. O ambiente frio, fracamente iluminado, pesado, exalava velas, desinfetante, urina e fezes. Os olhos do padre, aos poucos, foram se acostumando com a escuridão; ele a viu deitada de bruços. Pegou a candeia e se aproximou da cama. Ela, com as faces voltadas para o canto, rápido se virou. As bochechas encovadas, os olhos vítreos, a espuma no canto da boca, formavam um quadro dantesco. Afonso desviou os olhos. Rita sentou-se, como se movida por uma mola, estendeu a mão em direção ao sacerdote e com voz roufenha:
— É este que veio me tirar? Ele tem amante! A carta da namorada está escondida no bolso da batina!
O espanto foi geral, o estupor do vigário, doloroso.
Entretanto precisamos voltar um pouco nesta história para saber o quê ou quem estava perseguindo Rita, o porquê sabemos: é só relembrar os xingamentos de seu pai, sua briga com um vigário e o trauma de Rita com os asseclas de Chico Nico.

LÚCIFER... POBRE DIABO

Vamos fazer ligeiro parágrafo e visitar rapidamente o diabo no seu (dele) lar. Sentado no riquíssimo e monumental trono, na sala de audiências, percorria com olhos absortos todo aquele amplo espaço, outrora tão animado e agora inteiramente vazio e silencioso. Com os cotovelos firmemente apoiados nas braçadeiras, descansava o queixo sobre as mãos em concha, tristonho. Sabia que algo estava errado. Pelo vão das janelas o sol brilhava. Logo onde! Onde deveriam imperar as trevas eternas. O que acontecera com os relâmpagos, os trovões e as chuvas de granizo, de fogo ou ácidas? Pandemônio, a capital, não fazia jus ao nome. Era um mar em calmaria. Os gritos, os lamentos, os choros e o ranger de dentes dos condenados, que eram música para os ouvidos, haviam cessado. Algumas gargalhadas distantes o irritaram profundamente. O cúmulo. O Averno se corrompia. Até o palácio estava se deteriorando. Urgia providências...
— Astaroth!
O grito ecoou pelas cúpulas douradas do Inferno, reproduzindo-se interminavelmente: oth, oth, oth...
— Astaroth! oth, oth, oth... — repetiu o eco. Esperou, longamente, um, dois ou três minutos. Silêncio mortal.
— Belial! al, al, al...
Pegou a trombeta, soprou violentamente como se estivesse decretando o fim do mundo. O clangor reverberou pêlos corredores, salões e abóbadas. Esperou o silêncio. Apanhou a enorme baqueta enchumaçada, com as duas mãos, bateu-a, seguidamente, no gongo e o retumbo se repetiu indefinidamente: ong, ong, ong...
Ele se sentia desprestigiado, desrespeitado e ignorado. A corte volatilizara-se, os íncubos e súcubos não apareciam para reverenciá-lo. Belfegor e Mamom há muito não eram vistos.
O Tártaro estava abandonado. A indisciplina e o desleixo campeavam. Faltava azeite no estoque, e o dos caldeirões estava aguado. A lenha, verde, fazia muita fumaça e pouca caloria. Dava para se respirar, razoavelmente bem, pois o cheiro de enxofre quase desaparecera. Os tridentes estavam rombudos e os ambientes onde deveriam vigorar a escuridão eterna estavam bem claros.
— Behemot! Asmodeu! Pazuzu!
Resolvera apelar para outros auxiliares. Nada.
Depois de longa espera, acudiu Azael, que exercia o papel de secretário-substituto. Foi logo informando que Baalberith, o titular, estava de férias ou afastado para tratamento de saúde.
— Onde andam vocês que não atendem os meus chamados? São uns irresponsáveis, meus domínios estão decadentes. Onde está Magistellus, meu incubo preferido?
— Chefe, todos os nossos estão ocupadíssimos, trabalhando lá fora.
— Impossível, somos 2. 665. 866. 746. 666.
— Não, ao longo de milênios temos tido algumas defecções; perdemos 666 milhões.
— O quê! Enquanto tentamos os lá de fora, temos desertores em nossas hostes? Esta não!... 666 é o número da besta. Sim, sou uma besta quadrada, acontece traição no meu território e sou o último a saber.
— Além das nossas baixas, na terra os pecadores são muitos, precisamos ajudá-los um pouco e às vezes usamos uma legião por homem. Na verdade, precisamos de reforços suplementares para atender o nosso portfólio. Vamos reduzir a guarda palaciana — aduziu o auxiliar Azael.
O rei pôs as mãos na cabeça, e enquanto acariciava os chavelhos, manteve-se silencioso.
— Às vezes me confundo. Sendo os homens, por natureza, maus, por que precisamos de tantos dos nossos para seduzi-los? — Formulou a questão mais para si mesmo do que para o secretário.
Azael ouviu e respondeu: — Chefe precisamos incentivá-los a permanecer no mal, fazê-los diversificar nas maldades, evitar recaídas no bem e os arrependimentos; obsessar os bons, para induzi-los em erro, etc., etc.
— Onde estão Belzebu, Lucífugo, Satanaquia, Fleurity, Sargatanas, Nesbiros e outros da cúpula?
Azael engoliu em seco. Não podia responder que a turma caíra na farra com os homens, piores do que eles. Assim, ficou calado. Não queria ser dedo-duro.
— Aonde foram minhas mulheres Lilith e Naema? Elas estão me pondo chifres! Sequer me visitam na alcova.
— As mulheres são muito espertas — disse Azael evasivamente para não se comprometer.
Lúcifer era polígamo. Além das consortes citadas tinha, legalmente, mais duas: Agarat e Moclat e ainda gostava de dar umas escapadas com as grandes cortesãs; isto tudo sem considerar Prosérpina, arquidiaba, a deusa do Inferno, com a qual mantinha um tórrido e tumultuado romance. "O Vampiro", semanário respeitável, registrava com humor as estripulias e aventuras eróticas luciferianas.
— O Inferno está esfriando. Posso sentar em meu trono sem usar almofada de amianto. Há evidentes sinais de relaxamento aqui e, na Terra, as invocações são ignoradas. Vamos fazer uma inspeção geral.
Pegou um molho de chaves. Saiu acolitado por Azael, que lhe pôs uma capa nas costas para protegê-lo do frio.
Atravessaram um magnífico jardim, cuidado pelos condenados. Nele deveriam existir as plantas carnívoras, tóxicas espinheiros, bem como animais repugnantes e insetos horríveis mas, ao contrário, rosa, cravos, lírios, margaridas, crisântemos e cítricos abundavam. Foram, desde a saída do gabinete, acompanhados por um enxame de abelhas. Que escárnio: ele se intitulava o senhor das moscas.
Súbito, Lúcifer pulou de lado e gritou: — Corta este avelós!
— Por quê? É tão bonito, tem espinhos tão agudos. — contestou Azael.
— Estúpido! Ele é também chamado coroa-de-cristo. Tenho alergia a este nome.
Passaram por uma ponte sobre um regato de águas sulfurosas (não medicinais) e entraram no primeiro pavilhão. O lugar era bem bolado. Todo compartimentalizado, possuía ambientes especiais para o flagelo das almas, tais como: caldeirões de azeite, fornalhas para assar, água fervente para os sedentos, tambores de breu, frigoríficos, sofisticados aparelhos de tortura e complementos. Sofrimentos cruéis estavam previstos; só que nada funcionava bem. A qualidade de "vida", quer dizer da morte, havia melhorado substancialmente para os mortos, com grande decepção de Lúcifer.
No depósito de ferramentas, um desastre, uma lástima, o descontrole: as prateleiras vazias, ganchos, tesouras, serras, pinças, tenazes, grelhas jogadas pelo chão; enferrujadas, quebradas, inutilizadas. Um monte de sucata. As colunas de aço, que deveriam estar quase no ponto de fusão onde as almas deveriam ser acorrentadas, há muito estavam frias e oxidadas. Não se via uma corrente íntegra, nem candidatos ao suplício, nem carrascos; uma bagunça, enfim.
Na repartição de aquecimento central os fornos estavam, em grande parte, desativados. Até fazia frio naquela ala. Ah! As forjas de Pedro Botelho, quanta ironia; uma desmoralização para quem se orgulhava do terror que causava aos que eram enviados ao fogo do Inferno, que por definição queimava mil vezes mais do que o da Terra. Xaphan, o responsável pelas caldeiras, foi, no ato, exonerado da função e, de passagem, Leonardo, o presidente dos sabás das feiticeiras, que fazia de tudo para não ser visto, levou um puxão de orelhas, porque andava muito relapso e desacreditado.
No setor número sete, o grupo aumentara muito, pois onde passavam, mais bajuladores aderiam à entourage do diabo.
— Onde está aquela linda fonte de ácido sulfúrico?... E o pântano de águas salobras?
— Secaram, — respondeu Leviatã, o encarregado local.
— A propósito, ó digníssimo — interrompeu o terrível Adramelech, o grande chanceler, adiantando-se — tenho aqui este documento, para lhe entregar há dez dias. Entretanto, estava muito ocupado com a burocracia interna.
Satã arrancou-lhe o envelope das mãos. Abriu-o e leu:
“Nós, abaixo-assinados, os mártires que, por especial concessão do supremo Criador, vimos periodicamente a este local para assistir aos flagelos de nossos algozes, informamos que, suspenderemos nossas visitas, em face dos tormentos não ocorrerem continuamente e porque os horários programados não são cumpridos.”
Foi o que faltava para a explosão: Lúcifer soltava fogo pelas ventas, chispas pelos olhos, vapores deletérios pela boca e fumacinhas pelos ouvidos. Olhou de viés para o desastrado Adramelech.
— Patife! Você me criou um incidente diplomático com o pessoal do empíreo. — Deu-lhe um tabefe, no pé do ouvido, que o mandou a dez passos de distância.
Sentiu-se mais calmo. Continuou a inspeção no oitavo galpão, o dos condenados especiais. Almas danadas, lídimas representantes da maldade humana, ali estavam. Átila, rei dos hunos, que brincava com as cabeças de alguns dos milhares que decapitou; um profeta e o faraó discutiam a técnica de separação das águas do mar; os conquistadores espanhóis continuavam afiando as espadas nos incas, astecas e maias; num grande salão, numerosos pontífices promoviam a venda de indulgências, incentivavam guerras, envenenavam e ou absolviam genocidas, em nome do Salvador. Calígula, Nero, Cômodo, Caracala, ex-imperadores romanos se divertiam em rememorar atrocidades que praticaram quando encarnados. Foram vistos, também, os Bórgia, especialistas em aquatofana e punhais. Torquemada e demais inquisidores; bem como, a turma que decretou a noite de São Bartolomeu. Numa suíte, atapetada, luxuosa, habitava Adão. Aquele que, por trapalhadas com nossa mãe Eva, foi expulso do Paraíso. O bom Deus cassou-lhe a mordomia. Entretanto, não estava infeliz, muito pelo contrário, fora-lhe concedida a companhia da cara-metade e eles se compraziam em comer maçãs o dia inteiro. Por deferência especial do maioral, não havia diabrete para importuná-los. Nas termas, Messalina, Teodora, Cleópatra, Marósia, Lucrécia e outras, combinavam um bacanal.
Todos os hóspedes continuavam praticando as mesmas ações e maldades que os levaram à condenação. Como estavam as coisas, não era castigo e, sim, promoção.
Notando que algumas celas estavam superlotadas, pois, quem levantava o braço não podia abaixá-lo, tal o aperto, elogiou:
— Parabéns, aqueles sofrem sufocação eterna.
— Não é por nós, mestre, é excesso de políticos corruptos. Também, o oponente, lá de cima, com a mania de chamar muitos e escolher poucos... 99% deles estão aqui. Breve, teremos de construir um anexo.
— Reforça nossas legiões com alguns deles. São uns velhacos. Que raça miserável, cuidado com eles, são falsos e capazes de perverter e corromper os guardas.
Continuou o exame por outros locais sem qualquer melhoria para o humor do "imaculado". O rio Aqueronte, que deveria ter as águas putrefatas, estava mais límpido que muitos rios na Terra.
Lúcifer estava irritado, não se conformava com tanta impudência, interrompeu a fiscalização no nono pavilhão porque parecia uma repartição pública, ninguém o reconhecera, exigiram-lhe que se identificasse, pois estava sem o crachá. Retornou à sala do trono, onde preparou um decreto. Chamou Alastor, o executor das decisões infernais. Passou-lhe o papel.
— Resolvi baixar uma lei para execução imediata. Trata-se de uma reorganização geral do Inferno. Você tem carta-branca para exonerar, transferir, afastar qualquer elemento, inclusive da alta administração.
— Vossa majestade não está sendo muito rigoroso? — ousou argumentar. Alastor era atrevido.
— Certo, estou. É preciso; em 9.720 anos, jamais vi tanta desídia e incompetência. Aja implacavelmente. Convoque Mulciber, o arquiteto, para reformar o palácio. Enquanto isto vou tirar umas férias, estou esgotado, preciso me divertir um tanto. Há muito ouço alguns desaforos vindos de fora como: "corisco! diacho! demo! Se ele aparecer vamos cruzar os bigodes. Não temo o Demônio, etc." Não aceito provocação, vou comparecer. .
— Digníssimo, deixa que eu resolvo. O assunto é de somenos, enquanto aqui grave é a crise. — Obtemperou Verdelet, o mestre-de-cerimônias e encarregado do transporte das bruxas ao sabá.
— Ó poderoso mandatário — interrompeu Verrine, diabrete protegido, bajulador — permita-me fazer o serviço, afinal sou co-autor da opressão daquela gente. Adoro infestar.
— Negativo! Isto é ponto de honra. Azael assuma a governadoria, dê todo apoio a Alastor. Até mais tarde.
O que ele não sabia é que iria demorar muito mais do que planejara e, acima de tudo, estava dando mal exemplo, afastando-se do local de trabalho em momento crucial, logo ele, o chefe.
Ouviu-se um estrondo, uma fumaceira se levantou, forte cheiro de enxofre se fez sentir. Lúcifer desapareceu. Voou através do vulcão Vesúvio (ou seria o Etna?), pousou numa moita de bambus gigantes, na qual fez um estrago total. Adotou a forma de um negrinho serelepe. Foi visitar Chico Nico, na fazenda Jurema. Era rotina um diabo, vindo do inferno, cair sobre uma moita de bambu.

O PODER DAS TREVAS

Iria mostrar a que veio. Lúcifer traçara um plano. O homem não lhe interessava diretamente, tinha o passaporte garantido para o Inferno. Pretendia atazaná-lo através dos parentes e nada mais fácil do que se apoderar de Rita.
A primeira vez que ela o viu foi na varanda, no primeiro degrau de pedra, usando a capa preta de avesso vermelho. Lábios finos, sardônicos e sensuais; o sorriso maldoso; dentes pontiagudos e olhos vermelhos como fogo. Uma espécie de turbante encobria os chifres. Os pés fendidos eram dissimulados por babuchas vermelhas.
Foi com esse visual nada simpático que eles se encontraram face a face. Ele queria assustar, conseguiu. Ela havia aberto a porta da saleta. Parou repentinamente, com o pé ainda no ar. A imagem terrifica a paralisou encostada no portal. Abriu a boca, sem conseguir emitir som. Os olhos esbugalhados fitavam aquela figura. Em segundos o pretinho começou a crescer... crescer... crescer... e a inchar. Ficou mais alto do que uma paineira, mais ainda do que um coqueiro e desapareceu. Pálida como um cadáver, ela voltou para dentro de casa. A mãe observou o estado catatônico da filha. Algo estava errado. Segurou-a pela mão e perguntou-lhe o que tinha acontecido. Ela não conseguia articular um som, estava fora do ar.
— Você está sentindo alguma coisa?
Como não obteve resposta, deu-lhe um safanão, mas não houve reação. Pegou-a no colo com força sobrenatural e levou-a para a cozinha. Chamou as empregadas. Rápidas, esfregaram-lhe os pulsos e bateram-lhe nas faces.
Lentamente, voltou a si. Quando se recuperou, com a voz entrecortada por soluços, contou o que vira. Como se esperava ninguém acreditou nela. Julgaram que fora uma ilusão, uma fantasia ou uma alucinação, coisa de criança adolescente.
Decorreram alguns dias sem novidades. O pai, como sempre, invocava o demo. A mulher admoestava:
— Para de xingar, homem! Olha que ele vem!
Às seis da tarde, dona Almira costumava rezar o Ângelus. Aquele dia não foi diferente.
— O anjo do Senhor anunciou a Maria. Ela concebeu do Espírito Santo...
Foi interrompida por um grito:
— Ah! Ele está lá na laranjeira me chamando. Mamãe me acode!
— Eis aqui a Serva do Senhor, Ave-Maria...
— Ele está acenando para mim.
— Que é isto Ritinha? Quem está na árvore?
— É o que estava na varanda, o homem preto!
Dona Almira correu o ferrolho na porta e fechou a janela. Ajoelhou-se em frente a um crucifixo e tentou continuar:
— Faça-se em mim segundo vossas palavras. Ave-Maria... E o verbo se fez carne, e habitou entre nós. Ave-Maria... Rogai por nós, Santa Mãe de Deus...
Foi impossível terminar.
A menina fora tomada, ria com escárnio da oração.
— Deixa desta chorumela, dona. Esta ladainha não vale nada. Eu sou mais forte; quero levar a pequena.
Almira, mal teve tempo de abrir a porta, caiu desmaiada entre as ombreiras. Os empregados corriam atarantados por todos os lados. Ajoelhavam e gritavam por Jesus, Maria, José.
Chico Nico apareceu e custou a entender o que viu; era uma bagunça. Levou a mulher para a cama, deixou-a aos cuidados dos outros filhos e foi procurar Rita. Ela estava com as pernas escancaradas e o vestido na cabeça. Irritado, desceu-lhe as vestes e levantou a mão para lhe dar um tabefe. Força invisível jogou-o contra a parede, deixando-o estonteado. Ela se escondeu debaixo da cama, emitindo sons que pareciam rosnados de um cão.
Puseram-se de joelhos e principiaram a rezar:
— Ave-Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois Vós entre as mulheres, bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. / Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte. Amém. //
— Padre-nosso que estais no Céu. Santificado seja o vosso nome. Venha a nós o vosso reino. Seja feita a vossa vontade, assim na Terra como no Céu. O pão nosso...
Uma saraivada de pedras atravessou a parede caindo na cama e no piso. Tiveram que interromper as orações.
Os sucessos da fazenda Jurema se espalharam por léguas. A parentada se reuniu para fazer novenas, orações e benzeduras. Nada resolvia o caso. Chico Nico, com os nervos à flor da pele, se desesperava. A produção caía, os serviços estavam paralisados, gastava as economias alimentando parentes, afins e amigos. A casa parecia uma pensão.
Um preto-velho, mandingueiro, soube do caso e, como se considerava muito poderoso resolveu oferecer os préstimos à família, na esperança de derrotar o torto e se encher de glória. Ele era famoso, tinha olho-gordo. Ao passar perto de uma colônia de vespas, foi por elas envolvido; não se aborreceu. Pegou a caixa de marimbondos com a mão direita e com a esquerda ordenou: — "Vai embora, bichinho! Vai!" — Eles partiram em nuvem densa, sem molestar o feiticeiro.
Outras provas o negro deu de que era digno de respeito. Passou por barbatões de uma boiada recémchegada do sertão e não foi molestado por eles. Sequer foi detectado pelos boiadeiros. Ultrapassou um carro de bois, carregado de milho, rechinando triste e continuamente pelo atrito entre o eixo do rodeiro e os chumaços presos contra os cocões, rodando dolente, aos eias do carreiro e do candeeiro. Tampouco foi visto, parecia ser invisível. O mais sensacional feito se deu na chegada: o rezador, ao se aproximar do cercado, viu uma jararacuçu enrolada ao pé do esteio da porteira. Firmou o olhar no réptil que em segundos agitou-se, desenrolou-se e tentou, em vão, fugir. Força hipnótica a reteve. Coleava, enrolava, e não saía do lugar. Em minutos, foi reduzindo os movimentos até que cessaram completamente. O curimbeiro pegou a cobra com uma forquilha e a dependurou na cerca. Estava morta. Quando entrou no estábulo, além das vacas e outros animais estava a matilha de cães ferozes. Eles tiveram dois tipos de reação: uns puseram os rabos entre as pernas e fugiram ganindo para o mato; outros vieram lamber, alegremente, os pés descalços do viajante. Tudo testemunhado pelos moradores, maravilhados com aqueles feitos extraordinários.
Em casa, depois das apresentações, o homem se ofereceu para pôr uma mesa, modo como denominava o trabalho, para tirar o encosto. A família, em desespero, concordou com a benzeção.
Imaculadamente limpo, todo de branco, ele entrou no quarto, com uma trouxa e começou. Abriu uma velha e ensebada Bíblia, pendurou um quadro de São Jorge, encheu um copo d'água, distribuiu sobre a superfície uma chave de aço virgem, estrela-do-mar, cavalo-marinho, oratório com a imagem de São Miguel, cachimbo, fumo de rolo, incenso, cuia e uma garrafa de cachaça. Desenhou, no chão, um pentáculo e, em cada ponta, acendeu uma vela de cor diferente. Espalhou, cuidadosamente, pólvora em círculo, envolvendo o pentagrama. Queimou, levantando densa cortina de fumaça.
Encheu o cachimbo com fumo desfiado, acendeu-o, tirou algumas baforadas e soprou em direção aos quatro-cantos, recitando ensalmos e, a seguir, iniciou um monótono e ineficaz conjuro:
Eu, como criatura de Deus, feita a Sua semelhança e remida com seu santíssimo sangue, vos ponho preceito, Demônio, para que cessem os vossos delírios, para que esta menina não seja jamais por vós atormentada com vossas fúrias infernais. Pois o nome do Senhor é forte e poderoso, por quem vos cito e notifico que vos ausenteis deste lugar.
Fazia reverências diante do gongá. Em seguida, curvou o corpo para o lado direito, num semi-arco e começou a bater, ritmado o pé direito, acompanhando de palmas. Depois mudou de posição para o lado esquerdo, repetindo toques e aplausos.
O ambiente começou a mudar: sombras, ruídos e distorções nos móveis. O frio aumentou sensivelmente. Mestre Joaquim, sem parar, encheu o coité de aguardente e tomou-a de um só gole.
Subitamente, um sopro gelado apagou todas as velas, o quarto ficou numa penumbra em face do excesso de fumaça. Em um canto brilhou luz fosforescente. Imediatamente, o macumbeiro retirou da trouxa algo parecido com uma tíbia de defunto, levantou-a sobre a cabeça e foi sacudido por convulsões, contrações e tremores. Começou a girar numa velocidade crescente; rodopiando... rodopiando, até perder o equilíbrio e estatelar no chão, com estrondo. Tentou levantar, não conseguiu. Algo o obrigava a se manter de quatro: um ser disforme que se confundia com as sombras. O macumbeiro insistiu mais três vezes em se pôr de pé. Começou, então, a retroceder ou a ser empurrado de costas em direção à porta. Quando transpôs o umbral, a mesa, a trouxa, os santos, a parafernália e ele foram jogados, com violência, para a sala contígua. Líquidos, cacos e detritos esparramaram-se por todos os lados.
O aterrado pai-de-santo só conseguiu se erguer auxiliado por outras pessoas. Meio grogue articulou:
— Não estou bem, preciso repousar. Tentarei, outra vez, à meia-noite.
Puseram-no na cama, onde ficou arriado, sem se mexer e sem forças para piscar, talvez até em coma.
Pouco antes da hora aprazada, foram buscá-lo. Apesar de todos os apelos e arrancos, não conseguiram acordá-lo. Deixaram-no trancado, para que ninguém o molestasse.
Naquela noite, um nevoeiro espesso cobriu a região. Desapareceu a fazenda, árvores, animais, plantações. Não se via um palmo diante do nariz.
Bem de madrugada, pai Joaquim saiu da letargia. Custou a se reorientar. Tudo estava tão confuso. A cerração pesada, branco-leitosa, quase palpável. Estirou a mão no sentido horizontal, detectou pelos e calor; forçando a vista, descobriu que estava deitado no estábulo, entre os bezerros.
— Como vim parar aqui? — se interrogou. Recordou-se da aventura, ou melhor, da desventura. Deu um pulo. Estava de pé. Sacudiu o esterco de boi, benzeu-se. Com extrema cautela passou entre as reses. Pulou a cerca, achou a estrada... correu, disparou... e nunca mais foi visto.
Assim terminou a empresa daquele feiticeiro que ousou enfrentar o tinhoso e se deu mal.

CRIME E CASTIGO

Do inescrupuloso vigário (Afonso) começara com o caso, carta. O garoto, que se esgueirara entre ele e o batente, vira, atônito, o entrevero do padre com o diabo, com a derrota preliminar daquele que, ao ouvir as invectivas, se fizera rubro de vergonha. Logo se recompôs, fez o sinal-da-cruz, como uma bênção em direção à menina e pronunciou as palavras-chave:
— Vade retro, Satana!
O tal não se dignou a obedecer. Emitiu gases, deu uma gaitada. Fez a menina virar de costas, levantar o vestido e mostrar o traseiro.
— Tragam meus paramentos — solicitou o padre, traquinas.
Buscaram a caixa de folhas-de-flandres, na sala. Abriu-a e pegou, rápido, a galheta com água benta e aspergiu a garota.
— Está me machucando, pare de jogar esta água suja.
Rita, ou melhor, a coisa que a incorporava, se encolheu no canto e tapou o rosto com as mãos. Ao mesmo tempo, a tranqueira abriu com barulho. Vacas leiteiras e crias, que tinham sido apartadas, se misturaram. Correria para separá-las. Ninguém abrira a porteira. Todos sabiam que era arte do tição.
O prelado aproveitou a confusão e se retirou do quarto. Após conferenciar com Chico Nico, informou que jejuaria por alguns dias, para ganhar forças antes de terçar armas com o maldito. Solicitou e obteve um local amplo, totalmente isolado e nele se instalou, com recomendação expressa para não o incomodarem. Queria ficar isolado no período de abstinência. Pediu para o menino Antônio atendê-lo quando chamasse. Foi obedecido.
Nos três primeiros dias, cumpriu à risca todos os preceitos. Levantava as cinco, oficiava a missa, no que o garoto diligenciava para ajudá-lo. Ele não entendia o ritual da Santa Missa, principalmente aquelas palavras em latim; entretanto ajudava compenetrado e com boa vontade. Passava o missal da direita para a esquerda e vice-versa, punha vinho no cálice, fazia e desfazia o altar, arranjava e guardava as vestes litúrgicas.
— Dominus vobiscum — orava o oficiante.
— Et cum spiritu tuo — respondia o garoto, como papagaio.
No quarto dia, o reverendo não aguentou a fome e pediu a Toninho para trazer, à sorrelfa, alguns pedaços de carne, acompanhados de um pouquinho de arroz e salada. Daí em diante, o jejum foi uma palhaçada. Empanturrava-se todos os dias às escondidas. No duro, estava com medo de enfrentar o sarnento. Dava tratos à bola para achar uma saída honrosa, sem desagradar a família.
O padre pilantra tinha segundas intenções em relação ao afilhado. Desde a viagem vinha alimentando pensamentos escusos. Começou por conquistar-lhe a confiança. Falava sobre o desejo dos jovens, procurava dar sentido dúbio às palavras, utilizava sofismas, evidenciava que as atrações sexuais atendiam a sentimentos naturais, mesmo entre pessoas do mesmo sexo. Procurava valorizar a convivência harmoniosa entre homens. Passava, distraidamente, a mão no rapazinho. Quando julgou que ele estava doutrinado, pretextou estar com dores e pediu que o massageasse. Teve uma ereção, tentou agarrá-lo. O garoto se desvencilhou, correu para o quarto e trancou a porta com a taramela. Estava desconcertado, furioso, colérico. As pessoas em que confiava eram tão desprezíveis. Primeiro o tio, agora o padrinho. Procurou, inutilmente, entender os motivos; de ingênuo nada tinha, conhecia alguns segredos, por isso se revoltou com as artes do vigário. Embora precoce, não maliciava tudo e nem conhecia a extensão da maldade humana. Sentimentos conflitantes fervilhavam no cérebro. Raiva, perdão, ódio. O que fazer? Denunciar, calar, ignorar ou silenciar?
“Deus do céu! Cometera algum pecado?”
O sacerdote, no dia seguinte, deu por encerrado o jejum falso e se dispôs a enfrentar o rabudo para acabar logo a tarefa. Muniu-se de um crucifixo, hóstia consagrada, água benta e entrou no quarto da endemoninhada. Foi recebido por uma catapulta de injúrias, excrementos, pedras e outros objetos.
— Miserável, desavergonhado, serás meu ajudante no inferno! Sujo, patife, imundo! Tu não prestas! Como tens coragem de ser padre? És meu companheiro! Fora!...
Não pôde reagir. Afastou-se balbuciando palavras incoerentes, algo como o pai-da-mentira. Pediu um cavalo arreado e partiu como um raio. Mais um derrotado.
Não voltou ao presbitério nem a lugar algum... Muito tempo depois fora visto errante pelas estradas, montes e várzeas, em diálogo permanente com as sombras. Babava como um cão danado; a saliva escorria pêlos cantos da boca, empapava a camisa que ficava suja e pegajosa, com um aspecto repugnante. Um dia foi apanhado furtando linguiças dependuradas no varal sobre o fogão de lenha em uma casa. Internaram-no em hospício, onde teve que se haver com os demais doentes mentais. À noite tinha sonhos, pesadelos e visões. No paroxismo da loucura, apontava para os cantos gritando: — É ele, é ele, que veio me buscar! — Ficou agressivo, louco furioso; atacava todos com dentadas e resistia violentamente aos enfermeiros. Vestiram-lhe uma camisa-de-força e o jogaram no isolamento, onde urrava, gemia e investia contra as paredes. Aplicavam-lhe, rotineiramente, doses maciças de sedativos e eletrochoques. Quando as lamentações e os gritos se tornavam insuportáveis, um brutamonte entrava na cela e lhe dava uma sessão de pancadas.
Sem comida, sem tratamento adequado, sozinho, abandonado por todos foi definhando cada vez mais. No final da vida, teve um lampejo de razão e pediu um confessor, para lhe dar o perdão dos pecados. Isto também lhe foi negado, porque um louco não tem o que dizer e assim, ele morreu chafurdado nas próprias imundícies, após longa agonia e sofrimentos atrozes.
Eis o fim do clérigo abominável e corrompido, que semeou ventos e colheu tempestade.