prosa

O riso do demônio - Parte final

O riso do demônio - Parte final



por Asséde Paiva


Dedicado a meus antepassados, que viveram este estranho acontecimento.


O EXORCISMO CIGANO

Mal o padre Hauck partiu, aconteceu o impensável... o inimaginável terror voltou. Ouviu-se um urro espantoso, seguido de latidos de cães da fazenda, miados de gatos espavoridos com pelos levantados e pios de corujas quando Toninho observou que Rita começava a levitar. Tudo voltara à estaca zero... Rita gargalhava sem cessar. E depois falou quando todos se reuniram em volta dela:
“Pensam que me venceram? Aquele padre velho, deprimido, caquético e rezador em latim. Eu o enganei deliberadamente, eu sou impossível, rá, rá, rá... Ninguém derrota o maioral. Vamos orar para a vitória de satanás, e desenrolou uma algaravia que nada mais era do que o Pai Nosso ao contrário. E, sim, a rotina de horror recomeçou: fogo no pasto, estouro de boiada, ratos e sapos invadiram a fazenda. Era como as pragas do Egito ou piores. Doenças nos animais, febres insidiosas, praga de bicho de pé, e animais monstruosos, roubos e destruição.” O fim, pensavam.
Então Toninho falou: “Tem ciganos no vale!”
Aí Chico Nico questionou: “Há muitos anos passaram por aqui uns ciganos que sumiram repentinamente. Será que eles têm algo a ver com isto?”
Mas logo abandonou este pensamento por ser muito absurdo, mesmo porque ele assistira aos exorcismos e vira com seus olhos o diálogo com o ser das trevas. Ficou matutando, matutando. “Quem sabe poderiam ajudar? Se os religiosos não podiam, quem sabe os pagãos...” Ele acreditava que os ciganos não tinham religião.
E Chico Nico pensou: “perdido por um, perdido por mil, vou falar com os ciganos.”
Mandou selar o alazão de sua preferência e cavalgou em direção ao acampamento cigano. Eles estavam abarracados na confluência de dois rios e separados da propriedade do magnata por pequeno bosque. Uma estrada estreita (mais uma vereda), curva, barrenta e sombria, ligava o acampamento à estrada principal. Ali era chamado o cotovelo do nada. Nada de bom dava lá, só espinheiro, unhas-de-gato, malícia e rabo-de-burro. Os ciganos paravam ali por que não eram importunados, quer pela polícia, quer pelo dono da terra. Afinal, eram apenas vadios, segundo diziam os não-ciganos e logo, logo, partiriam como de costume.

Chico Nico era um homem alquebrado, os trabalhos por que passava lhe tiraram toda arrogância, envelhecera o dobro em alguns anos. Tanto que dirigia o animal sem pressa, pensativo da vida. Embora riquíssimo, sofria prejuízos seguidos, pois ninguém lhe pagava mais. Era onzeneiro, mas os endividados preferiam por o pé na estrada a pagar o agiota. Tinha o problema da filha que o punha quase doido. Assim, sentia-se velho e doente. “Se desse um tiro no ouvido tudo estaria acabado”, pensava. E foi com lúgubres idéias que avistou o acampamento cigano. Lá, ao contrário, a alegria reinava. Escutou vozes de crianças, viu as cinzas das fogueiras noturnas. Eram muitas, quase uma em cada tenda. Dois ciganos dedilhavam guitarras, algumas ciganinhas rodopiavam e batiam palmas. Mais perto, numa reentrância do bosque uma cigana esticava roupas estampadas no varal, enquanto cantarolava: En porfias soy manchega / y en el malicia soy gitana / mis intentos y mis planos / no se me quitan del alma. // O que denunciava origem espanhola. Alguns cães deram sinal ganindo, uníssono. Quando viram o fazendeiro, todos pararam o que faziam, cessaram conversa e cantoria, estacaram e olharam em sua direção. Ele sentiu o peso do olhar, mas não hostilidade, mais curiosidade. Chegando a uma distância razoável parou e esperou. De uma das tendas emergiu um senhor de barbas longas e cabelos que sobressaiam sob o chapéu preto. Não era velho e aparentava ser muito forte. Certamente, o líder. O cigano tinha uma espingarda na mão, caminhou até uma distancia segura e falou:
“Bom dia, senhor! Está perdido, procurando alguma coisa?”
“Bom-dia,” respondeu Chico Nico, “eu gostaria de falar com o guia deste pessoal.”.
“Somos ciganos, senhor, estamos de passagem, não vamos incomodá-lo, nem roubar. Eu sou o Barô (o chefe).”
“Em não quero expulsá-los daqui", disse Chico Nico, “mas somente conversar em tenho um problema desde que vocês passaram por aqui há muitos anos atrás, talvez há quinze anos, pouco menos.”.
“Senhor nós nunca viemos por aqui, esta é a primeira vez. O mundo é muito grande, cigano não precisa voltar às trilhas antigas. Por acaso, meus irmãos lhe deram algum prejuízo?”
“Não! Não!” respondeu Chico Nico. “É que desde então o demônio arranchou lá em casa e resiste a todos os meus esforços para retirá-lo de lá, pelo que vejo vocês não têm nada como isto...”.
“Isto mesmo, não temos não.” E digo ainda: “Não tememos Beng” (o mal).
Nesta altura, outros homens e uma velha mulher já tinham se acercado deles e ouviam tudo.
“Senhor” disse o cigano, “meu povo tem conhecimento de mistérios, talvez possamos ajudá-lo neste caso, entretanto, precisamos conhecer tudo. Vou destacar a nossa chovihani (mulher que tem poderes especiais) para ir até sua casa. Você tem alguns tachos pra consertar, Tem alambiques? Somos bons caldeireiros.”.
“Tenho sim” disse Chico Nico. “Podem ir até minha casa e fazer consertos, e levem sua curandeira ou feiticeira."
“Ela não é feiticeira, só tem poderes que não sabemos de onde vêm. A propósito quer trocar o seu cavalo?”
Chico Nico nem respondeu, seu alazão era inegociável.
Os ciganos se afastaram para confabular, após cofiar a barba, o chefe falou:
“Vou mandar Rustum e Palal para ver suas necessidades de caldeiraria, selaria e trançagem. Nossa matriarca seguirá com eles e vai ver a doente.”
“Então espero por eles,” disse Chico Nico e puxou o bridão da alimária, girando-a de volta à trilha que antes percorrera, sem saber porque, estava confiante.
Chegando a casa, tomou ciência das artimanhas do diabo naquele dia. Soube, por exemplo, que ele estava parodiando os padres que ousaram enfrentá-lo, e que perderam a porfia. Soube que todos os porcos haviam enlouquecido, arrombado a mangueira e disparados pela vargem, mergulhando no rio. Era demais, o fazendeiro quase teve uma recaída demoníaca exclamando por seiscentos mil diabos, tampou a boca e resolveu esperar pela ciganada.
No dia seguinte, bem cedinho, lá estavam os nômades à porteira do curral. Foram recebidos por Chico Nico, pessoalmente. Enquanto os homens eram levados às instalações de alambique, apresentados aos tachos e depois à sala às cadeiras a empalhar, a velha cigana, que aparentava ser centenária, foi levada ao quarto da padecente. O ambiente era um lástima, tenebroso: sujeira por todos os lados, cadeiras quebradas, portais rachados, estilhaçados, cama apresentando rasgos em toda sua extensão. Um crucifixo ou o que dele restava jazia a um canto sobre um livro de cânticos devocionais. A parede toda esburacada pelas pedradas ou aportes. E pior, muitos ratos, lacraias, bichos pestilentos corriam pelo piso, atravessavam gretas aqui e ali, desapareciam e voltavam guinchando. Aranhas teciam teias nas janelas; baratas agitando antenas como se regendo orquestra, sentindo o ar, muito nauseabundo. Vespas, sim, havia muitas e eram repugnantes ao sugarem restos de vômitos. A velha cigana (phuri daj, para eles), não se intimidou. Sabia que estava lidando com coisa ruim, fez o diagnóstico: “A menina está possuída por Melalo e pode morrer. Isto é caso para nossa chovihani”.

[No folclore cigano, Melalo tem aparência de um pássaro com duas cabeças e plumagem de cor verde e suja, é o mais horroroso dos demônios ciganos, com afiadas garras, ele rasga corações e dilacera os corpos; com o bater de suas asas, ele atordoa sua vítima que, quando recupera do seu desfalecimento, perde a lucidez. A vítima se agita freneticamente com muita fúria e loucura. Como demônio deve seu nascimento a uma pega (um pássaro), aqueles que forem atingidos pela loucura, conversam desconexos, como a pega].

Enquanto os ciganos, homens, tomavam ciência dos seus encargos na fazenda, a matriarca partiu em busca da feiticeira da tribo. A phuri daj embora sendo a mais velha, mais sábia e poderosa, não tinha forças para enfrentar demônios, forças espirituais, energias insólitas, isto quase sempre era tarefa para o kaku ou da maga, chovihani.
Mais um dia e noite de tribulações para todos naquela fazenda. Também com o nome Jurema, tinha que dar no que deu. Certos nomes devem ser evitados. Jurema é um deles.
Os ciganos voltaram. Agora era o trio phuri daj, kaku (o feiticeiro da tribo) e chovihani. Era um grupo poderoso, de respeito, e levavam com eles dois jovens músicos porque melalo (o mal), não gosta de música. Juntos traziam em si toda sabedoria, forças magnéticas e paranormais, necessárias ao enfrentamento com Melalo.
Primeiramente, exigiram que a menina fosse transportada para as proximidades de um córrego e posta sobre uma cama de palha longitudinal à água corrente. Em seguida, Fizeram pequena fogueira, nem tão perto para queimá-la, nem tão longe para não esquentá-la. Após a queima, retiraram tições fumegantes e cinzas que foram postas em baixo da enxerga. “É para expulsar o espírito do mal. Ele não é chegado ao calor, por incrível que possa parecer.” Explicaram aos assistentes céticos. Puseram uma navalha sob o dorso dela, no sentido da coluna vertebral, para cortar o demônio. Depois levantaram a menina e obrigaram-na caminhar no córrego, no sentido contracorrente (rio acima). Ela estava tão fraca, tão lânguida, que foi ajudada pelos ciganos. Enquanto isto, um dos ciganos procurou nos bolsos uma garrafinha, com líquido escuro; era um suco de cantárida (besouro de flores no mediterrâneo), poderoso revigorante, que foi derramado goela abaixo da garota. E ainda lhe deram sifrit, elixir misterioso e curativo. A velha cigana retirou do pescoço talismã, feito com espécie de moeda que evocava um mundo longínquo, no qual se via uma cruz, três pontos, um pássaro acorrentado (seria Melalo?) e letras cabalísticas. O talismã foi posto sobre a testa da garota, sendo contra ela pressionado por algum tempo, e depois posto no seu pescoço. Ela retorcia-se como cipó na ventania; babava espuma sanguinolenta. Um dos ciganos lançou mão de um violino e tocou fremente. Pediram um vestido da menina e desenharam sobre ele, com pedra lazuli, símbolos que lembravam galos, rosas, sóis, facas, cobras, bolotas, estrelas, meia-lua, arabescos e a vestiram com ele. Tudo isto era herança de uma cultura milenar. Reminiscências da velha Índia e do Egito, de onde vieram.
Chegou a hora do desafio final. A chovihani entrou em estado de frenesi girando loucamente e proferindo numerosos sinais e ensalmos para desencantar a menina: Fogo, fogo, queime, queime! / e desta criança leve embora / as doenças e os demônios. / Leve embora com sua fumaça. // Dê boa sorte a esta criança; / e torne a mais sortuda do mundo, / varetas, ramos e mais galhos / eu lhe dou / fogo, fogo, queime, queime! // Em romani: iseç yahá tut dikhen / te yon káthé mudarén / te átunci eftá coká / te çaven miseçe yakhá //. Enquanto isto, a matriarca apanhou um pouco de argila que aflorava à beira do córrego e fez com o barro uma máscara que secou ligeiramente nas brasas. Sorrateiramente, aproximou-se de Rita e lhe aplicou a máscara, mantendo-a sobre o seu rosto convulso. Rita instantaneamente se imobilizou. O ponto culminante dos exercícios físicos fora atingido; o encanto foi quebrado. Os olhos da endemoniada brilharam com intensa luz, que como dois punhais cravaram no coração da cigana, era o clímax. A chovihani caiu em colapso, num total estado de inconsciência, indo ao chão com estrondo. A garota simplesmente suspirou, seus olhos voltaram a brilhar e ela disse: “mamãe”.
Tudo terminado. O mal se fora.
Se foi a força mística dos ciganos, se foi porque o diabo se cansou, se foram os remédios ou palavras cabalísticas, ou um pouco de cada coisa, jamais saberemos, mas funcionou...
A gratidão de Chico Nico foi imensa. Cumulou os ciganos de benesses e queria porque queria que eles habitassem permanentemente sua terra, pois eram não só poderosos em magia, como também, excelentes ferradores, ferreiros, domadores, tacheiros etc. “Cigano não quer terra” disse o chefe. “Cigano quer liberdade, o direito de acampar hoje e ir embora amanhã.” E de fato, poucos dias depois eles anoiteceram, não amanheceram no mesmo ponto. Foram-se com a neblina. O fazendeiro demarcou pedaço de terra para que todos ciganos que por ali passassem, poderiam acampar o tempo que quisessem, não seriam molestados nem prejudicados em nada.

O DESTINO DOS OUTROS

A história de possessão termina aqui, mas em respeito aos leitores e leitoras, vamos dar informações sobre a sorte de outros participantes.
Para Toninho, o drama da fazenda Jurema terminara. Visitantes e parentes foram embora. Todos queriam esquecer o que tinham presenciado.
Padre Simeão regressou ao convento convencido de que vencera o demo. Ledo engano. Sabemos. Os embates com as forças satânicas lhe afetaram a saúde. Pegou uma pneumonia e apesar dos sinapismos, emplastros de angu, cataplasmas de farinha de mandioca, sangrias e cristéis, morreu; não só pela doença, mas também pelos remédios que lhe ministraram. Morreu tartamudo, “perdi o meni...no... sal...vem-no”. Pobre padre Hauck!
Ritinha, jovem e forte, recuperou rapidamente o frescor e a beleza. A vida dela, saudável e alegre, transpirava amor. Queria recuperar o tempo perdido. Infelizmente, para Toninho, ele não estava nas cogitações da moça. Procurou-a e foi devidamente ignorado. Ela gostava desinteressadamente dele. Nada mais. Será que ele não via que era carta fora do baralho e demasiadamente jovem?
O que se passara com Rita em relação a Toninho, só ela poderia esclarecer. Talvez nem ela soubesse. Talvez ela tivesse vergonha porque ele sabia demais sobre ela e as mulheres gostam de algum mistério. Talvez, talvez...
Toninho, magoado por tamanha ingratidão, partiu da fazenda Jurema e voltou para a casa dos pais; a fazenda da Legalidade. Lá permaneceu um triênio. Nesta época, depois de muito implicar, conseguiu que lhe chamassem como queria: Antônio. A vida continuou a despeito dos fracassos e tristezas dele que, apaixonado e com imensa dor-de-cotovelo, ficava cada vez mais retraído, passava horas a fio a cismar, sentado na entrada da ponte coberta. Tinha especial atração por aquele lugar.
Tão moço, sofria com a incompreensão e indiferença das mulheres. Não entendia a mudança de atitude de Rita. Não lhe perdoava. Quando doente tão meiga e carente dele. Foi uma interesseira. Bastou sarar, para colocá-lo de lado como um traste inútil. Estivera apaixonado e quisera ser retribuído. Pesava-lhe muitíssimo a derrota do primeiro amor.
“O que acontecera? Por que ela não me quis? O que fiz de errado?” Estas e outras questões o atormentavam e ele ficava elucubrando respostas sem se satisfazer com nenhuma delas. Sonhava de olhos abertos, fazia castelos no ar; desmoronavam.
Ele se iludia com um simples olhar e ficava a imaginar que a pessoa o queria; na verdade, não distinguia amor de amizade; por outro lado, angustiava-se com toda rejeição que pressentia a distância. A despeito dos grandes problemas psicofísicos, pretendia ser feliz, mas era meio maluco: trancava-se no quarto dias seguidos. Deitava e ficava imóvel, com os olhos fixos em algum ponto do teto, parecendo sem vida. À luz bruxuleante de uma lamparina de querosene, escrevia cartas para uma namorada inexistente. Olhava para algum ponto da parede onde via a imagem de Rita; amassava os papéis e arremessava as bolas contra ela. Sem dúvida, desenvolvia uma esquizofrenia, tinha visões, era perseguido, falavam mal dele. Tudo produto de sua imaginação. Após dias de clausura, caía em si e ficava remoendo pesares.
“Por que pensar tanto nela? Se ela o amasse, teria ele condições de amá-la? Superaria tantos complexos?” Às vezes imaginava estar casando com ela e com tanta intensidade que parecia real, abraçava o travesseiro supondo ser ela.
Muita água rolou sob a ponte. Ele não esqueceu a primeira namorada. Apesar de tudo o que aconteceu, lá no fundo, bem no fundo do coração, ficou um cantinho só para Rita. Não voltou a vê-la, soube que tinha casado e toda esperança acabou. Rita foi um marco. Teve outras namoradas, sem grande entusiasmo. Duvidava dele próprio; da virilidade (seria homossexual?) e competência pessoal. Seguramente, as mulheres eram-lhe um suplício. A timidez, a introversão e a tristeza assumiram-lhe a personalidade. Voltou a examinar o corpo e se considerou feio; pior ainda, relembrou, com ênfase desnecessária, aquele pequenino defeito, um detalhe anormal, a bolsa escrotal, demasiado grande, cheia de veias, que o fazia diferente dos demais. Valorizou tanto este problema, que adquiriu o mau hábito de se apalpar continuamente o que lhe valeu o apelido infame: coça-saco.
Aos dezenove anos, ainda, não se definira sexualmente. Não tivera relações com mulheres. Ignorado, ou melhor, rejeitado, afastou-se deliberadamente delas. Passou a temê-las e a querê-las ansiosamente. Dolorosa dualidade, aflitiva indefinição. Por outro lado, para suprir esta carência, se ligou afetuosamente aos colegas do mesmo sexo e aí ficou mais dividido. Chegou a ter profunda e duradoura ligação com um jovem chamado Osvaldo. Este parecia compreender o mundo ambivalente de Antônio e respeitava o seu dilema. Por muito tempo foram unha e carne. Quem sabe se entre eles não tenha havido mais do que uma simples amizade? Os vizinhos batiam com a língua nos dentes. Talvez fosse verdade, talvez não. Não se notabilizou em nenhuma tarefa ou serviço exclusivo dos homens. Não foi bom cavaleiro, nem operário braçal; considerava-se muito frágil para tais encargos. Fugia de bailes, festas e de reuniões de qualquer espécie. Era um poço de solidão, um misantropo. O único amigo, Osvaldo ou Vadinho, como ele chamava carinhosamente, estava sempre por perto, como uma espécie de protetor. Penetravam nas matas, vadeavam riachos, faziam extensos passeios, caminhadas e caçadas, sempre a sós. Não davam satisfação a ninguém sobre seus atos. Às vezes ficavam tempos abraçados conversando banalidades. A amizade se tornou suspeita para o povaréu, mas eles se diziam inseparáveis, mais do que irmãos.
Sem namorada, sem juízo; para alguns era um vagabundo, aparentemente sem futuro, foi severamente admoestado pelo pai. Não aceitou a reprimenda e acabaram se desentendendo. Pediu algum dinheiro e saiu de casa, indo para a cidade estudar e se tornar guarda-livros. Diziam os bisbilhoteiros que partira por imposição dos velhos, para separá-lo de Vadinho. Como este era pobre, podia-se acreditar que havia um quê de parasitismo naquela amizade.
Na cidade grande instalou-se, sem o saber, em uma pensão de má-fama e isto lhe trouxe tristeza e um grande aborrecimento mais tarde. Tímido e introvertido, sentiu-se pouco à vontade em compartilhar um quarto com outros companheiros. Não queria ser chato, aceitou o fato.
Como acontece em todas as estalagens, os banheiros são comuns e, entre os vários chuveiros, não havia qualquer divisória. Toninho evitava tomar banho na presença dos outros, mas nem sempre isto era possível. Então havia um problema sério para ele esconder dos demais o motivo dos complexos. Assim que descobriram, caíram na pele dele, com a gozação deprimente de sacudo. Na rua gritavam:
“Hei! Lá vem o coça-saco, o mala!” Então parou de tomar banho, fedia, deram-lhe o apelido de chulé.
Estava escrito que a cruz pesaria ainda muito. Caiu doente com uma virose banal das crianças e adolescentes: caxumba. A dele veio tardia. A doença evoluía normalmente: mal-estar, alguma febre, dores musculares e inchaço das glândulas. Um foco ou motivo desconhecido provocou o que os médicos diagnosticam como a descida da doença e denominam cientificamente de orquite. As dores terríveis que suportou não foram o bastante. Por ignorância, medo ou vergonha demorou a procurar os recursos da medicina e, quando o fez, o dano era irreparável. O médico prescreveu tratamentos paliativos, como pomadas antiinflamatórias, banhos de luz ultravioleta e compressa. A doença cedeu após algumas semanas; todavia, segundo parecer do doutor, deixara uma sequela indelével: ficara irremediavelmente estéril. Foi um duro golpe no seu amor-próprio. Arrasado pela diagnose, a primeira decisão foi parar de estudar. Tornou-se profundamente revoltado e egoísta. Não gostava de ninguém, odiava a humanidade em geral. Queria que o mundo desse um curto-circuito. Não durou muito este estado de espírito; de natureza dócil, superou a raiva, restando-lhe apenas profunda melancolia.
Tudo passou, conformara-se com a sina. Voltara à fazenda, ao trabalho do campo, com dedicação integral para desviar os pensamentos malsãos. Não ia ao povoado; não se misturava com os outros, estava enclausurado, como uma ostra, dentro dele próprio.
Ficou sabendo por vias oblíquas que o amigo Osvaldo também havia voltado e que, após beber excessivamente, andara falando do antigo relacionamento dos dois em termos inconvenientes, e que requeriam um formal desmentido. Indignado, foi procurá-lo e questioná-lo sobre a veracidade do falatório. Além de confirmar tudo, Vadinho partiu para a agressão física e, forte como um touro, deu a maior surra no ex-companheiro.
Envergonhado e deprimido, sentiu que não haveria ambiente para ele no povoado tão pequeno, com tanto disse-me-disse. Em surdina, fez as malas e partiu sem se despedir de ninguém. Nem os pais souberam do novo destino. Ele queria recomeçar a vida. Deu um mergulho no desconhecido.
Na capital, a sorte enfim lhe sorriu. Fez alguns bons negócios e ganhou muito dinheiro.
Quando alguém está começando na vida, é como subir uma escada. Até o meio, todos o empurram para baixo, do meio para cima, todos o ajudam, querendo ser gentis e usufruir bondades. Antônio sentiu na pele esta realidade: rico, bem apanhado, todos queriam ser amigos. Às vezes lhe ofereciam as mulheres. Ele tinha nojo dessas pessoas. Nestas rodas conheceu os fariseus, os cínicos e os maiores patifes.
Frequentava, por dever de ofício, clubes, sociedades diversas, casas de políticos e de artistas. Participava de chás, festas, comemorações, programas teatrais e saraus. Muito assediado pelas mulheres, que gostariam de tê-lo por marido, descartava todas. As mamães e os papais empurravam as meninas para cima daquele solteirão convicto e grande partido. Curiosamente, ele se mantinha distante, frio, inacessível. Seu comportamento, no mínimo, estranho. Procurava as moças, conversava, passeava com elas e demonstrava profundo interesse. Entretanto, nos finalmentes, evitava a todo custo uma aproximação mais íntima. Algumas se ofereciam aberta e despudoradamente. Nestes casos, fingia não entender.
“Meu Deus! O que há com ele? Qual o mistério?”
O dilema seria facilmente compreendido, caso tal modo de agir fosse comparado com os choques que sofrera desde a gestação, passando pelo nascimento, infância e juventude, multiplicados na maturidade.
Um evento particularmente danoso para exacerbar o desequilíbrio emocional se deu quando morava na pensão suspeita, no tempo de estudante. Lá residiam algumas mulheres, seja para ficarem perto do trabalho, seja para se liberarem da família ou para se divertirem. Umas poucas tinham misteriosas ocupações noturnas. Uma dessas simpatizou com Antônio, que nem havia notado ser o motivo de algum interesse. Na hora das refeições ela preparava um prato gostoso para ele; quando se encontravam nos corredores, procurava conversa, oferecia presentes, balas e até promoveu uma festinha para comemorar seu aniversário. Ele não queria nada com ela e não lhe retribuía as gentilezas.
Uma ocasião estava sozinho, no quarto, pois os colegas haviam saído para namorar, quando alguém bateu na porta. Mandou entrar. Era a moça que enfim optara por tomar a iniciativa de um encontro a sós. Ele ficou atônito com a visita inesperada, mas ela estava disposta a tudo. Deitou-se sobre ele e seus lábios buscaram sequiosos os dele, colaram-se num quente e demorado beijo. No início ele permaneceu impassível, tenso. A moça treinada no ramo, começou a se esfregar nele. Devagar, foi sentindo um calorzinho na espinha, uma coisa gostosa no sexo, que acordou com toda força da virilidade. A moça manipulou os botões da calça e mergulhou a mão na abertura, começando uma carícia estonteante. Correspondeu, e passou a beijá-la freneticamente, enquanto lhe passava a mão por todo o corpo. Finalmente, penetrou nela. Estavam no sétimo céu, principalmente ele, que nunca tivera uma relação. Em poucos minutos atingiu o clímax, deixando-a insatisfeita.
— Já acabou?! Eu nem cheguei lá! — reclamou.
Levou a mão ao sexo flácido, tentando reverter a situação. Aí, então, viu que ele tinha o problema. Deu uma risada nervosa e, um tanto contrafeita, levantou-se, pôs o vestido e se retirou. Deixou-o aniquilado. Sabia que não tinha agradado. Tivera um orgasmo precoce e pior, muito pior do que isso, a deficiência fora notada. Os complexos, as taras recrudesceram subitamente. Tornou-se completamente inseguro perante as mulheres. Desejava-as ardentemente e temia-as igualmente, não por elas, mas por ele mesmo. Quando via uma que lhe agradava, tentava conquistá-la. Se não conseguia, dava graças a Deus por livrá-lo do vexame; contudo, o ego ficava ferido. Por outro lado, se conseguia, arranjava, correndo, um meio para cair fora. Certamente, podia-se afirmar ser ele o homem que não podia amar.
Com uma vida tão contraditória, não sabia de que lado estava. Era homem; amava/odiava as mulheres. O que fazer? Qual o caminho? Escolheu mal. Passou a visitar ambientes pouco recomendáveis; enturmou-se com pessoas deslocadas como ele, arranjou amigos desprezíveis e se degradou. Tinha consciência do erro e se considerava um desgraçado. Angustiado, refugiava-se na bebida e ficava num estado deplorável; cometia atos que, no dia seguinte, lhe traziam grande amargura. “Quem sou eu?” perguntava e respondia: “Um restolho humano, enfim, a sombra de um homem.” Imensa confusão mental se instalou nele; passava noites em claro, parafusando... parafusando. Não tinha religião, sequer acreditava nos homens, em Deus, em nada. Estava desesperado, liquidado, no fim da linha.
Não procurava conforto nos templos religiosos. Na verdade, sentia invencível repulsa ao tentar visitar algum.
Lúcifer estava muito contente.
O golpe definitivo veio pela forma mais inesperada. Estava sentado em um banco de jardim, olhando, distraído, os pássaros brincando em um tanque de areia, quando chegou uma garota, possivelmente estudante, na faixa dos quinze a vinte anos, e puxou conversa. De assunto em assunto, ela ganhou a confiança dele. Deve ter havido uma atração muito forte, daquilo que chamam amor à primeira vista, pois Antônio não estava nada apresentável.
Muito simpática e atraente e doce ela conquistou aquele homem desiludido. Ficou ansioso quando ela se levantou para se despedir. Teve coragem de dizer-lhe que voltaria no dia seguinte no mesmo lugar e que gostaria de reencontrá-la. Tudo foi dito de maneira simples e direta; interiormente, estava apavorado pela possibilidade de receber um não. A moça, porém, concordou e, com um lindo sorriso, falou que gostaria de revê-lo. Assim, aconteceu muitas vezes. Com o tempo amiudaram os encontros; passearam pela cidade. Foram a museus, cinemas e festas. Quando analisaram os corações, descobriram que estavam apaixonados. Sem perceber, ele aprimorou o estado geral; preocupava-se com a aparência, comprou novas roupas, melhorou a saúde. Modificou radicalmente a maneira de viver e até se sentiu muito feliz.
Lúcifer sacudiu a cabeça, contrariado. Tinha um obstáculo a superar, a vítima se lhe escapava.
O despertar de Antônio foi fatal.
Um belo dia marcou encontro com a namorada em um lugar muito aprazível e deserto. Um grande parque, com quiosques e caramanchões cheios de rosas, parasitas e plantas trepadeiras que escondiam os amantes de olhares e risos dos indiscretos. Bem à vontade e protegidos dos curiosos, se abraçaram, se beijaram. Foram se agitando e aumentando a ousadia das carícias. Apertou os peitinhos dela, massageou-os e ela fechou os olhos, gozando de intenso prazer. Ela foi ousando também os carinhos, que não se limitaram ao rosto e ao peito. Desceu a mão às calças dele e tentou desabotoá-las. O primeiro botão cedeu. Ele sentiu um terrível choque, afastou-se rápido, com um aperto no coração.
— Não posso! Não posso!
Os problemas íntimos suplantaram o desejo. O amor foi derrotado ou, melhor dizendo, Antônio foi derrotado por ele mesmo.
— O que há com você? — ela interrogou-o suspeitando que ele estivesse passando mal. De fato, era extravagante a maneira pela qual ele agia. Certamente, desequilibrado ele era. Talvez fosse esquizofrênico. Ela tremeu de medo, gostaria de estar longe dali. “Deus me livre!” pensou.
Antônio caminhava lentamente de costas, olhando para ela com um sofrimento intenso. Quase fora do pavilhão, respondeu:
— Desculpe-me, eu me esqueci, sou incapacitado.
Correndo, foi desaguar a frustração bem longe dali e proclamar a revolta a Deus.
“Não tenho vícios, nunca fui mau, sempre solidário com os outros e, no entanto, o mais comezinho prazer me é negado. Que estigma insuportável, O que estou pagando? Por quê? Serão os pecados dos meus pais? Não! Não é possível! Deus não faria esta maldade comigo. Deve ser o capeta. Que sina infame!”
Estas imprecações, ele as pronunciava olhando fixa-mente para o céu. Como que envergonhada por aquele desespero, a natureza cobriu o sol com nuvens escuras, a cor cinzenta o envolveu. Continuou:
“Com que finalidade me colocaram neste vaso aleijado, deficiente e inútil? Que lastimosa morada! Que faço aqui? Qual o porquê da vida? Nada posso realizar; o que intento sai errado. Eu só queria um instante de felicidade, um só. Quisera ter sido abortado ou morto no parto. Sou um ser abominável física e espiritualmente. Maldição! Tenho raiva do meu corpo, ódio da minha alma, horror dos meus sonhos e pensamentos, vergonha ou culpa por minhas ações.”
O lado sombrio do mal prevaleceu. Levantou os braços em atitude de desafio e blasfemou: “Pedirei contas a Ti, por tudo que me fez.” Era demais... Antônio estava totalmente desequilibrado, um doido, talvez. Mas ele se achava em seu direito. “Por que uns tinham tudo e ele nada? Por que uns eram amados e ele tinha medo do amor? Por quê? Por quê? Odeio o mundo, a felicidade, odeio os que amam, sou um poço de ódio”. A vida inteira excluído dos mais elementares prazeres, mal amado, debochado, espezinhado por todos. O quê fazer? E nesses dilemas sem solução a vista, nadava como um náufrago, totalmente sem direção ou sem norte. Enfim, ele se indagou: “Qual a minha essência? Sou homem, ou monstro?” E a velha pergunta o por que da vida?
Diante de tanto despautério, diante deste enorme despeito, diante do trágico desfecho que se avizinhava, Lúcifer sorriu.
O ANDARILHO

Vagueava daqui para ali, de lá para acolá, de um povoado para outro; de uma porta de venda a outra, confabulando consigo mesmo. Desleixado, sem higiene, com as roupas rotas, barbudo e cabeludo, dormindo ao relento e vivendo em promiscuidade. Era Antônio.
Um dia, o que mais temia aconteceu: observou uma pequenina mancha no antebraço, apalpou-a, nada sentiu. Apavorado, solicitou ao companheiro um fósforo aceso. Aproximou a chama do sinal e não sentiu calor. Um raio que lhe caísse sobre a cabeça seria menos doloroso. Estava com lepra. Sentou-se numa pedra, curvou-se até a cabeça pousar sobre as pernas, os braços cruzados. Chorou longamente, convulsivamente. A doença era terrível; o ferrete insuportável. O fantasma da infância. Desesperado e sem qualquer idéia preconcebida levantou-se e caminhou como um bêbado em uma direção qualquer. Assim, ficou dias e dias. Para aonde? Para quê? A fuga interminável dele mesmo. Não tinha um objetivo, nem sabia onde estava ou o que queria. Passou fome, sede e outras necessidades. Em algumas localidades foi apedrejado. Chegou a disputar comida com os cães.
Deus apiedou-se daquele desgraçado e orientou-o para a serra da Saudade. Sem saber como ou por que, viu-se morro acima na trilha íngreme, em busca da água milagrosa: a fonte na cabeça da serpente.
Contornou o paredão de pedra e iniciou a dificultosa ascensão; perigos ignotos o espreitavam. Ele os venceu mais pelo instinto de viver e sobreviver do que pelo raciocínio. Incontáveis vezes esteve prestes a mergulhar nos abismos, outras tantas foi salvo por algum ramo providencial que o sustinha na queda. Cobras... de quantas escapou, por um triz, do bote? Contudo, a sorte não lhe protegeu sempre. Ao afastar uma pedra que o impedia de prosseguir, percebeu o barulho da cascavel que desaparecia por entre os paus podres e a vegetação rasteira. Olhou para a mão, o dedo anular sangrava. Verificou que estava levemente arranhado. Seria da picada ou não? Apertou a ferida, estava indolor. O machucado fora feito sobre uma placa branca da fatídica morféia, era anestesiado, insensível. Na dúvida, preparou o torniquete com uma tira da camisa e aplicou-o acima do pulso, usando a mão e os dentes. Em seguida, fez uma pequena fogueira, retirou um tição e pressionou-o na ferida até cauterizá-la.
O lazarento terminou a escalada na maior fraqueza; penetrou na gruta lentescente, se arrastou vacilante, até à banheira de água sagrada. Mergulhou inteiramente vestido, mantendo apenas o nariz de fora. Deixou-se ficar por tempo indeterminado se sentindo bem melhor. Então saiu, despiu-se, levou a roupa para secar fora da gruta e recomeçou o banho saneador. Mais tarde reapareceu na boca da caverna, onde dormiu sob as estrelas.
No dia seguinte, partiu de madrugada. Não alcançava o benefício que recebera ou conseguia imaginar por que fizera aquilo. Quando criança, ouvira a lenda da água abençoada; jamais prestara atenção e nem acreditara na estória. Como última esperança, valia a pena tentar e foi o que fez, embora tivesse pouca consciência do gesto.
De deu-em-déu, andava pelo mundo. Ora a pé, ora de trem, ora de ônibus, na condução disponível que o levasse para qualquer lugar. Seus problemas psicossomáticos eram graves. Dava para notar. Falava sozinho, gesticulava, ria, chorava e se afastava das pessoas. Também exalava mau cheiro por falta de higiene corporal. Um ser sem eira nem beira, um vagabundo. Com ele, apenas uma bolsa que não largava por nada.
Em solilóquio com um ente invisível, ele se julgava portador de todas as moléstias incuráveis, um hipocondríaco é o que ele era. Tinha vontade de matar ou morrer. De vez em quando, enfiava a alça da sacola no ombro para deixar a mão livre e com ela apertava as escamas no braço, escondidas sob a manga da camisa, empalidecia e chorava. A doença fatal, na sua opinião, não avançara, mas também não regredira. Apresentava manchas e pontos amortecidos nas orelhas, nariz e dedos. Estava sendo injusto. As lesões, na verdade, cicatrizavam, era o milagre que ele egoisticamente não reconhecia. Continuava a lengalenga:
“Não sou ninguém e ninguém gosta de mim, nunca fui digno de mim. Até quando vou carregar este pesado fardo? O que é o mundo? Não faço parte dele, sou um estranho. O céu e o inferno são as mandíbulas de uma máquina maldita. Estou sendo esmagado por elas.”
Afundado em pensamentos tão lúgubres, viu-se numa rodoviária. Com ele, apenas o embornal de pano. O chapéu de palha surrado descia da cabeça às orelhas. A barba amarfanhada, cheia de fios brancos temporões, lhe escondia as faces, tornando-o praticamente irreconhecível.
O monólogo prosseguia:
“Aqui estou, olho para os lados e nada vejo. E como névoa. Na verdade, volto-me para o meu interior, sou a angústia que caminha. Nada procuro, não sou nada.”
Tamanho desapreço por si só poderia indicar que o caminhante era um zero à esquerda da vida ou, talvez invisível...
A rodoviária, bastante modesta, possuía o mínimo que todas têm: banheiro sujo, guarda-embrulhos, algumas lojinhas e guichê para venda de passagens.
Ficou por alguns momentos lendo as plaquetas indicativas dos destinos. Ônibus para todas as direções e ele sem nenhuma. Nomes curtos, longos, engraçados, bonitos, feios, alegres, expressivos ou insignificantes como ele. Diante da indecisão personificada, o vendedor perguntou:
— Para onde o senhor vai?
— Para o lugar mais longe..., para o fim do mundo, se for possível... — Deixou no ar mil indagações.
O atendente olhou-o espantado. Citou o nome de uma cidade qualquer, queria se livrar daquele ranço.
— E distante? Não estou brincando.
Com a resposta afirmativa, pagou a passagem e, com pequeno jogo mental, trocou o destino por outro nome: Lugar Nenhum.
Dirigiu-se à plataforma de embarque. O ônibus velho, estacionado com a porta aberta, aguardava os passageiros. O motorista fiscalizava a entrada de cada um pelo exame do bilhete e, quando solicitado, prestava informações. Deu uma olhada crítica naquele homem mal trajado. A passagem estava correta, deixou-o entrar, afastando-se um pouco para fugir da inhaca.
Acomodou-se no assento cujo número correspondia ao do bilhete. Sentou-se, abriu a janela de vidro, ajeitou a bolsa entre as pernas e fixou o olhar no exterior.
O ônibus partiu pontualmente. Realmente, era muito usado. A carroçaria rangendo indicava mais de dez anos. Não garantia viagem calma e rápida, muito pelo contrário. Quem saberia se aqueles passageiros chegariam a algum lugar? Para o estranho homem nada importava. Sem destino, sem objetivo, inútil.
Alguns retardatários ainda estavam se acomodando. Havia vários em pé. Perto do motorista, um garoto pedia para ficar no banco da janela. Mais atrás, um homem tentava empurrar um embrulho no bagageiro; duas mulheres discutiam sobre passagens, com o mesmo número.
Ele, com os olhos atentos no horizonte, muito além da paisagem ao derredor, pouca ou nenhuma atenção dava a esses arranjos no interior do veículo que, nesta altura, resfolegava para subir um monte na base do qual se assentava a cidade que acabavam de deixar.
Alguém parou na poltrona ao lado: o companheiro de viagem. Fora o último a entrar, o tipo que gosta de aparecer. Depois que guardou um grande pacote no porta-bagagem, esparramou-se, escandalosamente, no banco. Esticou as pernas, respirou fundo e desabotoou parcialmente a camisa. Descansou os braços no encosto. O mulato estava na faixa dos trinta anos; forte, cabelos pretos, encaracolados e olhos escuros. Suava bastante, enxugou a testa com o punho da camisa antes de dobrá-la. Sorriu, mostrando belos dentes. Virou para o companheiro do lado e puxou conversa:
— Qual o destino do amigo?
Antônio fingiu não ter ouvido e continuou com os olhos fixos, perdidos muito longe dali. O homem do lado não se deu por vencido.
— Eu gosto de viajar e não durmo o tempo todo, prefiro tagarelar. Estou vendo que o senhor não é muito de assuntar. Não faz mal, converso por dois.
E continuou a falar ininterruptamente...
— Estou passeando há meses. O senhor também parece ter andado muito. Interessante, tem um ar conhecido. Será que ainda não nos vimos?
Tentou observar as feições do outro, sem sucesso.
O fastio e o mau humor do vagamundo subiam de temperatura. Sacudiu os ombros, com enfado, fechou os olhos fingindo sono. Apertou o chapéu ainda mais para fugir do exame indiscreto.
Ao lado o companheiro continuava a matraquear pelos cotovelos, enquanto a viagem prosseguia monótona. Fazia algum tempo que a cidade ficara para trás. O silêncio imperava entre os passageiros, exceto pelo parolar constante do mulato. O ouvinte parecia ignorá-lo, não olhava, nem respondia, ou dava qualquer sinal de interesse. Às vezes, sacudia o corpo, displicente, como se dissesse: “cale-se!”
O cansaço atingia igualmente a todos, que se acomodavam como podiam. Alguns cochilavam, apesar das sacudidelas do velho ônibus que, no momento, trafegava por uma planície. Esta, por motivo de sucessivas enchentes, apresentava uma pista extremamente irregular. Grandes e pequenos buracos dificultavam o desenvolvimento de uma velocidade satisfatória. O motorista realizava prodígios, ziguezagueando entre eles. As malas e pacotes postos no teto davam pulos como cabritos nos montes.
Quando percorria trechos menos esburacados, a velocidade aumentava; aí vinha uma poeira infernal, que se infiltrava pelos olhos, nariz, boca e por todos os poros. Um e outro tentavam se proteger com guarda-pó, inutilmente.
O veículo dava a impressão que ia se desfazer. Porcas, parafusos, rebites e dobradiças rangiam contra a lataria. O motor possante e desregulado provocava vibração constante, que se transmitia aos passageiros e todos tremiam como geléia. Aí vinham novos buracos e novas reduções de marcha e pulos nos assentos.
Aqui e ali se parava para a entrada ou saída de passageiros. Gente triste, sofrida, miserável e sem esperança. A visão da paisagem era condizente com o povo, cada vez mais pobre. Pequenas casas de taipa e sapé, de colonos, apontavam nas grotas tão tristes como eles. Mulheres esquálidas, com filhinhos barrigudos, assomavam às portas e janelas, atraídas pelo ronco do motor. Tinham esperança de trocar ou vender algum alimento.
De vez em quando, a estrada passava dentro do curral de uma fazenda, aí o condutor, por respeito ou medo, parava, descia e comprava ovos, queijos, aves, porcos e embarcava tudo. Outras vezes, estacionava perto de um botequim, onde os interessados adquiriam roscas, fumo e cachaça. A viagem se eternizava. Gastava horas para percorrer pequeno trecho. Numa vila tiveram que esperar que uma família de gansos atravessasse a estrada.
Enquanto isto, o homem continuava a palrar e o companheiro a se enervar.
— Outrora, tive um amigo como o prezado. Ambos bem mais novos. Sabe, a nossa amizade foi além do convencional. Tivemos algo mais — riu, cinicamente.
O cacarejar encolerizava terrivelmente o estranho que procurava a todo transe ignorar o parceiro, mas ele insistia.
— Convivemos uns três para quatro anos. Nosso bom relacionamento deu o que falar, ele então sumiu por uns tempos, voltou diferente, eu também mudei. Confesso que, entre colegas, me excedi e contei detalhes íntimos que se passaram entre nós. Será que errei?
Súbito o homem da janela enrijeceu-se. As faces perderam a cor; os olhos, o brilho; os dedos fecharam-se convulsivamente nas palmas da mão e reabriram deixando marcas das unhas na carne.
O boquirroto não observou tais reações.
— Meu parceiro soube das minhas inconfidências e me procurou para tirar satisfações. Desentendemos-nos, entramos em luta corporal. Eu, mais forte, venci. Dei-lhe uma surra. Nunca mais o vi. Ele se chamava Antônio. A propósito, meu nome é Osvaldo, pode me chamar de Vadinho. Qual é a sua graça?
Antônio não respondeu, um relâmpago de ódio fez brilhar seus olhos. Depois estes ficaram vítreos. Foi a gota d’água que faltava para a explosão dos recalques, falhas, exclusões e humilhações. Decidiu acabar de vez com aquilo, alterar o seu kismet. Num impulso fulminante, curvou-se e apanhou a bolsa; remexeu o conteúdo, encontrou o que procurava. A mão, empunhava um revólver, apontou-o firme para a cabeça de Vadinho e disparou. Antes que o pessoal se desse conta da tragédia, ele voltou a arma ao próprio coração. E Antônio perdeu a vida e alma... E o diabo riu por último.

Só Deus é o Senhor absoluto da vida e da morte. Portanto, dispor alguém da própria vida é usurpar um direito exclusivo de Deus.