prosa

O Mistério do Paraíso

O Mistério do Paraíso


Um Conto Surreal


por José Fleming



Narra uma lenda desaparecida dos anais religiosos, que Deus ao criar Adão e Eva, disse ao casal, ajoelhados em sua presença, que desfrutassem dos floridos jardins do paraíso terrestre e, que entre suas flores, gerassem seus filhos e filhas. Prometeu que seus netos e bisnetos, ao longo dos séculos futuros habitariam todos os recantos da terra que acabara de criar.
Relata ainda a misteriosa lenda que, tempos depois, Deus reapareceu no paraíso. Levou um dos maiores sustos que uma criatura divina poderia levar. O paraíso achava-se deserto, silencioso e abandonado. Adão e Eva haviam desaparecido de seus belos e reflorescidos jardins. Nenhum ser humano perambulava sob os bosques divinos do Éden Terrestre.


Um tanto assustado, Deus se pôs a chamar pelas criaturas a quem dera um corpo e uma alma.
_ Adão! Apareça. Eva! Apareça.
Em um curto momento de espera surgiu, de súbito, ao seu lado, a figura orgulhosa de Satã, e antes que Deus se movimentasse, demonstrando ousadia e atrevimento, agitou um dos braços diante da face de Deus.
_ Eu tentei Adão e ele aceitou as minhas tentações e promessas.
Deus respondeu calmo, em átmo, fitando o rosto abusado de Satã.
_ Eu criei o inferno para os mortos, e não para os vivos.
Satã replicou, cheio de escárnio.
_ Sim! Não há mortos no inferno, mas lá está cheio de homens e mulheres, nascidos de Adão e Eva, seus netos e bisnetos...
Deus então replicou com severa fala:
_ Mas haverá mortos no futuro! E alterando com extremo rigor sua voz divina, ordenou furioso a Satã: Quero todos eles, homens e mulheres, já, aqui diante de mim. E, dando um passo em direção a Satã, exclamou:
_ Eu te puni como anjo e posso te punir como diabo que és. Será pó de enxofre por toda a eternidade, e queimarás no fogo que será aceso, quando os primeiros mortos condenados pelos seus pecados para lá forem mandados. E avançou mais um passo em sua direção. Satã recuou.
_ Traga-me todos eles. Adão, Eva, homens e mulheres.
Todo trêmulo, em ligeiro piscar de olhos, Satã sumiu do paraíso.
Instantes depois uma turba de homens e mulheres surgiram no jardim do paraíso. Ficaram maravilhados com a claridade do sol, com as nuvens suspensas no céu azulado e, encantados com as belezas das flores que revestiam o chão do paraíso terrestre. Um profundo silêncio reinou ao redor de Deus. A robustez dos homens e a beleza das mulheres surpreenderam seus olhos divinos.
_ A Terra não merece isso – pensou Deus. E continuou a pensar... pensar...
_ Possuir tão belos habitantes, e ter o estigma de seus moradores serem descendentes de homens e mulheres nascidos no inferno.
E continuou a pensar... pensar...
_ Uma nova geração nascida na Terra deverá ser criada para formar a humanidade, e continuou a pensar...
_ Nenhum homem e nenhuma mulher terá descendentes. Nenhuma geração advinda do inferno procriará no paraíso. E concluiu seu pensamento, fitando os homens e as mulheres, aglomerados em sua frente. E, apontando a mão para o chão, ordenou:
_ Adão! Apareça. Eva! Apareça.
Detrás de uma fileira mais afastada saíram nossos pais – Adão e Eva. Apesar de não ser uma criatura humana, Deus compareceu diante da presença do casal criado por Ele. Nosso primeiro pai e nossa primeira mãe, exibiam em suas cabeças uma cabeleira branca, uma tanto magros, demonstrando um enfraquecimento corporal. Os anos passados no inferno lhes tiraram a robustez e a energia de sua criação.
Um tremos arrepiou a figura de Deus, de olhos postos nos corpos de Adão e Eva.
_ Não irá acontecer; nem Adão será pai, nem Eva será mãe. Elevou a fronte para o céu. Pensou... pensou...
Quando seu olhar abriu, instantes depois, sobre a claridade terrestre, não deixou de ter a mais impressionante surpresa que um olhar divino poderia imaginar. Aquelas centenas de homens e mulheres, agrupadas diante de sua figura, achavam-se ajoelhados, com os braços cruzados e os olhos voltados para o chão, as cabeças abaixadas, numa atitude de adoração ao Criador do Céu e da Terra, envoltas no mais extremo respeito. Foi o momento mais divino da criação do paraíso terrestre.
Então... então... se é dado a um Deus emocionar-se, creio que trêmulo, levantou vagarosamente a mão direita sobre os corpos curvados ante seus pés, e, num tom mais que divino, proferiu sua sagrada sentença:
_ Eu vos abençôo, sejam donos da Terra. Eu estarei convosco em todas as gerações, até que chegue o final dos tempos.

Quem tomou conhecimento desta lenda, creio que não acreditou nela, até eu mesmo. Mas vamos supor que ela seja verdadeira. E é isso que me deixa arrepiado. A Bíblia escondeu isso da gente. Os anjos são como nós – homens. Não têm nenhuma asa nas costas. Os diabos também são como nós – homens. Foram punidos por Deus, mas não perderam suas formas físicas. Tornaram-se garbosos diabos. É isso que me assusta. Será que algum dos nossos primeiros ancestrais não tiveram família com um desses diabos? Se isso tiver acontecido, na Terra numerosas famílias descendem deles. Talvez até eu mesmo! ... Cruz credo!... Ave Maria!...