Poema

Um quadro da adolescência - Antônio Oliveira Pena

Um quadro da adolescência

O chão, sob os teus tenros pés nevados,
murmurava uma doce melodia


Uma tarde (era o céu claro de anil,
eu me recordo...) vinhas (foi outrora,
quando tudo eram risos...); ia abril
no vento que gemia indo-se embora...

Trazias tu a face em luz envolta;
a alma trazias entre doce e queda;
fresca e macia, a pele — como a seda
que o ombro te emoldurava, mesmo solta.

Ao vento, o teu cabelo em proporção
parecia aumentar, e de tal sorte
que, à sua sombra efêmera, eu, então,
via das ninfas abrigar-se a corte!

O chão, sob os teus tenros pés nevados,
murmurava uma doce melodia:
— “Sou eu quem chega — ele repetia —
para ceder de novo aos teus agrados!”

Tinhas de fato fundo o olhar em mim.
Fundo por mim teu coração pulsava:
mesmo distante eu o sentia, sim;
que estavas trêmula eu também notava...

Mas trazias-me um beijo e, nesse beijo,
toda a ternura de quem tem anseio;
e, nesse beijo, a estremecer, teu seio
quanto foi à minh’alma benfazejo!

E unidos num abraço, ó meu amor,
num arrulho de febre, nós, unidos,
pregáramos os olhos com fervor
sobre os serros além, intumescidos.

Tudo havia em redor, flores e árvores,
do monte mais remoto o negro cume,
ganho mais vida; e as pedras, como mármores,
brilho; a erva dos caminhos, mais perfume;

u’a alma os leques da palmeira ao sol,
semicoberto agora por cortinas
de nuvens dissipadas, que ao arrebol
do dia ao raiar presas eram ruínas...

Ah! dizer posso, em meio a tal lembrança,
que era feliz e não sabia quanto,
como também dizer, sem muito espanto,
com naturalidade de criança,

que o hálito do vento a perpassar
pelo colo da relva, que tremia,
as pálpebras roçou-nos devagar
e deixou-te aos pés uma pet’la fria,

morta pet’la, que vimos nós, contudo,
da mesma forma, com a mesma beleza
da pet’la junto à flor posta na mesa...
que os olhos de quem ama não veem tudo...