PROSA

Aventura em Sevilha - Mari-Lei Nobre Ferro e Silva

Aventura em Sevilha


Desembarquei do avião em Sevilha sentindo ainda a euforia da viagem à Espanha, o tour em Madri que acabara de fazer, tudo parecia mágico, afinal estava realizando um velho sonho, fazer um curso na velha Sevilha. Éramos seis pessoas, oriundas de várias cidades do Brasil, rumo à mesma escola. Nos vimos pela primeira vez no aeroporto do Galeão. Nos apresentamos, todos muito simpáticos e lá fomos nós atendendo ao chamado da Ibéria para embarcarmos no avião rumo a Madri. A viagem foi tranquila e agradável apesar de muito longa.
Ao chegarmos em Sevilha, depois de passarmos pelo serviço de imigração, pegamos nossas malas, cada um de nós com olhos fixos nas pessoas que ficam próximas ao desembarque, em busca dos transfers responsáveis por nos buscar no aeroporto e nos levar cada um a seu destino. Meus novos companheiros de viagem rapidamente os localizaram, se despediram e seguiram seu caminho. Quando dei por mim estava completamente sozinha, sem saber o que havia acontecido com o responsável por me buscar. Após mais de meia hora de espera, um jovem rapaz chegou assustado com uma folha de papel na mão onde estava escrito meu nome. Fiquei aliviada enquanto ele rapidamente se apressava em justificar seu atraso culpando o trânsito intenso. Guardou minha mala e partimos. Durante todo percurso fomos conversando, enquanto eu apreciava encantada aquela bela cidade. A desagradável sensação de ter sido esquecida foi pouco a pouco desaparecendo!
Nessa antiga cidade, há grandes e largas avenidas, mas também ruelas estreitas onde só um veículo pode circular. Foi numa dessas ruelas que ficava o casarão de estudantes em que fiquei hospedada. Ao parar na “Calle Viriato” percebi que não havia nenhuma casa em frente desse casarão. O que havia era uma enorme parede de pedras. Estava muito escuro, pois não havia quase postes na rua, lembrando antigas vielas das velhas cidades europeias da idade média.
Ele disse que havíamos chegado, retirou minha mala do carro e quando colocou a mão no bolso para pegar a chave e me entregar, percebeu que não estava com ela, tocou então a campainha várias vezes sem sucesso pois, pelo avançado da hora, mais de meia-noite, os demais estudantes provavelmente já dormiam. Face a isto ele teria que ir à casa da proprietária para buscá-la e pediu que eu ficasse ali aguardando. A ruela era sinistra, assustadora e o escuro daquela noite e a situação em que novamente me encontrava, foram capazes de me deixar com muito medo. Ele realmente voltaria? Por que não pegou a chave com antecedência para me entregar quando chegássemos aqui? E mil perguntas bailavam na minha mente assombrada. Acho que nunca senti tanto pavor assim. Esse período de espera parecia durar uma eternidade. Foi então que comecei a me concentrar e pedir a Deus que tudo terminasse bem, que eu realmente conseguisse sair daquela situação assustadora, afinal sou brasileira e por aqui não se pode facilitar, o perigo ronda pela noite nas cidades!
Passado um tempo chega o transfer com a chave e, novamente se desculpando pelo transtorno, me desejou boa sorte na casa, no curso e em seu país. Ligou seu carro e partiu. Entrei assustada e trêmula naquela enorme casa de três andares. Havia duas enormes portas de ferro para atravessar, e entre uma e outra, como se fosse uma varanda fechada, as paredes eram cobertas com azulejos árabes bem coloridos. No centro da sala havia uma abertura no teto por onde se podia ver o céu. No terceiro andar ficava um pátio onde os estudantes constantemente realizavam festas para se confraternizar e se conhecer, já que cada um vinha de um país diferente. Essa casa, soube depois, pertenceu a um árabe na época que a Espanha foi invadida pelos árabes. Muitas outras construções guardam o mesmo estilo, caracterizando a influência árabe na arquitetura das antigas cidades espanholas. Quando cheguei finalmente ao segundo andar onde era meu quarto, agradeci a Deus e finalmente fui descansar desta maratona que foi chegar até aqui.
Dia seguinte parti para o curso com um mapa na mão, meio confusa, pois nós, brasileiros, não temos hábito de ler mapas. Apesar de tudo, consegui chegar à escola depois de caminhar quase uma hora, sempre parando para perguntar às pessoas o caminho certo.
Lá fiz a prova de seleção e fui para sala de aula conhecer a professora e os outros estudantes estrangeiros. As aulas eram na parte da manhã e me encantavam, eram dinâmicas, todos interagiam. Na parte da tarde tínhamos atividades culturais, íamos a museus, catedral e igrejas, shows de dança sevilhana, etc. Com isso, pudemos mergulhar naquela cultura e conhecer a influência árabe naquela região. Porém essa jornada cultural terminava bem tarde da noite! E, embora fascinada com tudo isso, a volta para casa era uma verdadeira tortura, pois sempre me perdia nas desertas e similares ruas. O silêncio era total, de tal forma que eu só ouvia o som que meus passos produziam. Um dia, ao errar o caminho, passei direto e, quando percebi, havia uma enorme e antiga igreja. Decidi então voltar pela rua lateral e, quando notei lá estava eu na minha rua. Foi uma enorme surpresa descobrir que a grande muralha de pedra na qual eu estava encostada pedindo a proteção de Deus, na primeira noite que havia chegado à velha Sevilha, era na verdade uma igreja. Jamais imaginei que estivesse tão próximo da casa do Pai que nos ampara, nos acompanha, mesmo que estejamos a quilômetros de distância de nossa casa, nossa pátria! Mesmo que estejamos em Nova York, Atenas, Istambul, Paris, Dubai ou Sevilha!