PROSA

Qualquer lugar por aí - Edson Sill

Qualquer lugar por aí

E o que era sonho se faz qualquer coisa.


Sabe... Às vezes sinto falta de sentir falta, sinto medo de sentir medo, me sinto estático em meio aos alvoroços e contratempos. Sabe... Dá vontade de dar espaço, pegar distância, saltar mais alto, de jogar pesado, de pesar o encalço e morrer no abraço. A pressa me faz mais fraco, esmaga e deslustra certezas e sucessos. Pela estrada desbringolada dos desafios, delírios e destemperos o fim é apenas o começo de cálculos gélidos, repletos de entrelaços glorificados em mentes calcificadas.

A inquietude então pega carona no cadafalso do desassossego e as malas parecem sempre prontas para um novo caminho. O medo quer dominar o incerto que entranha nas envergaduras estremecidas de cada esmerilhar de segredos não ditos. Então a vida traz à tona a mentira do que deveria ter sido e não foi e o retrucar da vontade não realizada, derrama sons embrulhados em papel de seda. O intrépido tempo acalanta notas de esperanças em meras vontades de um poeta louco por caminhos esfregados em expectativas distantes.

E o que era sonho se faz qualquer coisa. Qualquer distância agora é mero detalhe frente às explicações de outros porquês que queríamos que fossem razões. É hora então de partir rumo ao saber o que fazer, o que dizer, pra onde ir, saber o que falar, onde andar, quando chegar e partir. É preciso calcular cada passo algodoando emoções e angariando motivos que te façam entender que tudo é passageiro, até mesmo essa vontade de evaporar por qualquer lugar por aí.