PROSA

Qui nem um passarim - Antonio Gilberto Portes

Qui nem um passarim

Filosofia de matuto


Dr. Nicácio, advogado competente e famoso na região, encontrou seu velho amigo, “Zé Só”, um matuto muito esperto residente na zona rural, e quis saber:
— Como vai a vida seu Zé?
— Vô levano cômu sêmpri. Qui nem um passarim! — respondeu o homem alegre e sorridente.
— Como assim? Que nem um passarinho?
— Uai, dotô, o sinhô num sabe como vive um passarim? Não u Passarim di gaiola, mas u passarim sorto, é claro. Ele acorda de madrugadinha, oia tudo em vorta, istufa o peitinho, abre o biquinho e si põe a cantá. Devi di sê uma oração em agradecimento a Deus por tudo de bão que Ele lhi dá. Aí o bichinho sai pra buscá o alimento, mas num é que nem a gente que sai esbravejano, pisano encima de tudo, não, sinhô. Ele sabe apreciá o sol, a brisa e inté a chuva
qui Deus lhi dá, tanto qui, di vez em quando, ele pára e repeti o mesmo canto (oração) qui fez quando saiu do ninho. E tem mais, passarim num distrói a natureza, aliás, ele inté ajuda a preservá, sô. Num tem ganância, cômi seus insetos e suas frutas e, quando enche a barriguinha, vai imbora e só vorta pra cumê quando sênti fômi di novo, não é como os hômis que cômi, cômi inté num podê mais, disperdiça e, mesmo qui istragui tudo, num divide a cumida com os outros. É purisso, dotô, que procuro levá a vida alégri, cantano i cumeno o qui a terra mi dá. Como eu disse pru sinhô... Qui nem um passarim.
Admirado com a conversa do matuto, Dr. Nicácio se despediu e seguiu seu caminho comentando com seus botões:
— Se todos pensassem assim, eu teria que procurar outra coisa para fazer.