PROSA

Contos que eu invento e conto - Vera Marins

Contos que eu invento e conto

Era um poeta! Escrevia poesias no vento.


Para nunca dizer adeus!

Meu pai me ensinou a sorrir, Minha mãe me ensinou a rezar, meu pai me deu esses olhos pequenos, minha mãe deu a pele clara, meu pai me ensinou a caminhar, minha mãe me ensinou a sonhar, meu pai me ensinou a usar a razão, minha mãe me ensinou a usar o coração... Ambos me achavam linda e inteligente até o dia que eu descobri o espelho e conheci a matemática! Mas até hoje guardo a infância que passei com eles e os carrego comigo no meu DNA, na minha carne, no meu espírito para nunca dizer ADEUS!


O poeta bêbado

O poeta amava e bebia feito louco, pelas esquinas colecionava bares, decompunha-se em versos, caminhava descalço pelas palavras, para não machucá-las, fascinado! Cortejava a lua, que ofendida, se escondia. No escuro escrevia cartas de amores em papéis voadores. Ao amanhecer o dia, sóbrio e de ressaca se arrependia!


O diário do adeus

O diário dela chamava-se Diário do Adeus, porque todo dia se despedia da vida sem ter vivido! Não era triste nem feliz, mas quando terminava o dia tinha a sensação que tinha sido mais um dia vazio, mas um dia em vão, mais um dia sozinha, apesar de acompanhada, cheia de solidão! Outro dia igual à tantos outros que desistiu de viver para ficar presa sem alforria, a uma vida sem graça e sem paixão, porque escolheu de livre e espontânea vontade a escravidão!


Enlouqueci

Enlouqueci. Liguei para o hospício para me levar. Já ouço as sirenas estão para chegar. Roupas? Não vou levar estão todas no varal, secando no vento, vão ficar no relento. Gargalhadas, risos... E a loucura persiste! Tenho nos lábios um riso perigoso, teimoso, pecaminoso, escandaloso... Podem me levar! Eu vivo mesmo do lado de dentro. Eu corro, tenho asas eu voo!


Hoje, enfim, sou dona de mim!

Cansou! Cansou de tudo! Abriu o jogo, disse tudo o que sentia. Ela falou de uma só vez todas as verdades guardadas, rasgadas, engasgadas... Conversa dura, seca. Falou baixo. Não houve gritos, sequer barulho. Ele ouviu tudo calado, cabisbaixo. E ela pensou: Hoje, enfim, sou dona de mim!


Sebastiana bebia água virgem do Céu!

Sebastiana corre para salvar as roupas do varal ao pressentir o início da tempestade. Voltava e esperava a chuva cair para beber água virgem do céu! E o vento e a chuva eram mensageiros de boas notícias e a transportavam numa viagem para além das montanhas, e ela ficava enorme e poderosa! Depois despertava em sua insignificância e ia passar roupas dos ilustres e alheios patrões!


O poeta analfabeto

Era um poeta! Escrevia poesias no vento, escrevia no ar com as pontas dos dedos, escrevia poesias nas nuvens, nas correntezas dos rios, nas neblinas das manhãs, na chuva, na garoa, no inverno... Menos nos livros que o tornariam ETERNO!
Pássaros engaiolados


Foi embora antes do galo cantar, antes do dia amanhecer, antes do seu corpo se acostumar com o dele, antes de se tornarem tão íntimos o suficiente para o solo fértil das cobranças e mágoas! Antes de criarem um vínculo forte, antes do ritual do corte das asas e se tornarem para sempre pássaros engaiolados! Antes disso tudo... Ela partiu!


Feito de olhares

Nunca se abraçaram, beijaram... O amor deles era feito de olhares, nada escapava dos olhos dele e dela! Faziam longos passeios um no outro! Demoravam em cada curva... E assim faziam amor sem nunca terem se tocado!


“Poesia”
O poeta acordou alucinado! Tomou metáforas em taças, comeu sílabas, saboreou verbos, bebeu ditongos... E com muita sedução, enlouquecido de paixão, escreveu amor! E dessa louca alucinação, nasceu ela, a “POESIA”!