PROSA

Curiosa história da preguiça - Marli Alves

Curiosa história da preguiça

Preguiçosamente se arrastam contra a gravidade, contra o vento, rumo ao topo verde-folha das copas.


Reza a lenda atual que é preciso foto e registro em flagrante de cada acontecimento. Que é preciso postar nas redes virtuais. É preciso existir primeiro no virtual para provar que cada acontecimento é real, ou existiu de verdade. Mas no tempo em que não havia internet e tecnologia tão avançada, em que a vida corria solta, sem registros, a história seguia seu curso sem se preocupar em “aparecer”. Simplesmente os fatos aconteciam e até se perdiam no tempo... no esquecimento. É dessa época mais artesanal e desbravadora que vem a seguinte história:
Conta Mário, meu belo pai octogenário, metalúrgico aposentado, pai de cinco filhos, no ápice da lucidez, aos seus 82 anos, que a primeira preguiça chegou a Barra Mansa através dele. E, pasmem, o caso ocorreu devido a um incidente de trabalho! Ele garante que bem novo, lá pelos seus 17 anos de idade, por volta de 1950, trabalhava de forma rústica, arduamente de sol a sol, num sertão de Angra dos Reis, onde cortava árvores do faxinal para uma carvoaria. E que, num certo dia, o corte do machado derruba não só uma das árvores; para seu espanto, faz também cair por terra quatro bichos-preguiça!
Um par adulto não resiste, mas resta o casal de filhotes: os sobreviventes! Sem saber o que fazer, o jovem Mário adquire de um artesão dois balaios, ou cestos de taquara, para acomodar os bichinhos. Assim que consegue, vem de carona num pequeno caminhão e traz na carroceria os desprotegidos animaizinhos rumo ao centro desta cidade de Barra Mansa. Chega aqui à noitinha e, então, deposita os pequenos mamíferos ao pé de uma das árvores, no interior do Parque Centenário: jardim exuberante, entrelaçado por galhos de arvoredo frondoso e verdejante. De instinto protetor, o então adolescente Mário vê esta atmosfera hospitaleira como um novo “preguiçário”.
De sua “memória de elefante” ainda relembra nomes e até sobrenomes do motorista e do proprietário do veículo! Eu os anotei à parte; não registrei aqui “nestas mal traçadas linhas” (como ele mesmo diria em antigas cartas à mão... lá do seu tempo de moço galanteador.)
Com a divulgação da morte da suposta mais antiga preguiça da cidade, em 26 de novembro de 2013, coincidentemente de nome Mário — homônimo de meu pai — a sua sensibilidade aflorada pelo ocorrido o faz acordar antigas memórias; foi quando ele fez a pitoresca revelação acima. E Mário, meu pai, disse ainda que, primeiro, pensou em ligar para jornais e contar a sua inédita versão. Porém a vontade de se manter longe das mídias o deteve... Entretanto por aqui o alvoroço continua: teria a proeza casual do passado juvenil de Mário inventado um conto sem fim, desses em que ainda é preciso buscar o elo perdido? Teriam os filhotes, indefesos, resistido aos abalos e se adaptado ao novo habitat? Seriam esses dois, “preguiça mãe e preguiça pai”, a origem de todas as demais; até mesmo da velha preguiça Mário, a tal do noticiário?
Só sei que, em algum lugar essa peripécia termina, pois eis que começa uma realidade histórica e venturosa: por muitos e muitos anos, os enigmáticos bichos-preguiça ultrapassam as transformações paisagísticas naturais e arquitetadas do ambiente, onde prosseguem vagarosamente em sua escalada despretensiosa pelas árvores centenárias. Preguiçosamente se arrastam contra a gravidade, contra o vento, rumo ao topo verde-folha das copas. Alheias ao tempo, erguem-se sob um céu folhoso,
entrecortado de azul anil, para onde fazem elevar olhares curiosos de barra-mansenses e visitantes. E, assim, mansamente, essas criaturas tranquilas e encantadoras marcam seu território ao popularizar o tradicional Parque Centenário como, simplesmente, “Jardim das Preguiças”!