PROSA

O riso do demônio - Parte I - Asséde Paiva

O riso do demônio - Parte I

Dedicado a meus antepassados, que viveram este estranho acontecimento.


Em 1823 (ou seria 33), em Ariano de Puglia, na província dos Avelinos, um menino de 12 anos, analfabeto, foi possuído pelo demônio. Os padres dominicanos Gassiti e Pignataro impuseram a satanás, em nome de Deus, que provasse teologicamente, com um soneto de rimas obrigadas, a Imaculada Conceição da Virgem.

O pequeno endemoniado pronunciou este soneto:

Mãe verdadeira sou dum Deus que é Filho
e filha Dele sou, sendo sua Mãe.
Nasceu na eternidade e é meu Filho,
eu no tempo nasci e sou Mãe.

Ele é meu Criador e é meu Filho,
Eu sou Criatura e sou Mãe.
É prodígio divino ser meu Filho,
Um Deus eterno que me tem por Mãe.

Quase comum o ser da Mãe e do Filho
porque do Filho teve o ser a Mãe
e da Mãe teve o ser o Filho.

Ora, se ser Filho vem da Mãe,
ou se dirá que foi manchado o Filho,
ou sem mancha se há de dizer a Mãe.

Il Demonio poeta, in L’amico del popolo, Chieti, 1 (1949), fasc. XXX1V, p. 3.




PRÓLOGO


Há no céu e na terra, Horácio, bem mais coisas, do que sonhou jamais vossa filosofiafia.
(Hamlet, ato III, scene v)


Poderíamos começar esta história com aquela imaginação que tínhamos em nossa meninice. Não somos mais crianças, mas não estamos impedidos de sonhar, de realizar e de fazer acontecer. E, sobretudo, não estamos impedidos de recordar.
Costumes, ritos, tradições e leis vêm se formando, cristalizando desde imemoriais tempos. Nossa vida é recheada de sonhos, visões, encantamentos, realidades e fantasias. Lições de fé, de coragem, enfrentamento do mal, derrotas e vitórias. É amor irrealizável, é tristeza, e principalmente um profundo e misterioso conjunto de desenganos vertidos gota a gota. Quem tiver sensibilidade para intuir mensagens, certamente as lerá nas entrelinhas. São secretas e vedadas aos profanos, mas um livro aberto para os que querem ir além da letra. No final você será um iniciado, descobridor do insondável, o incrível, o fantástico, o extraordinário.
G: A: D: U: antes de criar o mundo criou anjos. Um deles, o predileto, se perdeu na soberbia, a marca da origem divina se apagou, porque foi manchado com o veneno da inveja, e assim, do bem ao mal foi um repente. Sentiu ciúmes, queria ser igual ao Pai, conspirou, convenceu anjos, serafins, querubins, tronos e potestades e lutou. Ele era Lúcifer, o Portador da Luz, que se tornou o portador das trevas: o Mal.
Esta é a aventura de um menino e uma menina. Ela, dominada pelo mal; ele, o puro, porém, nos vaivens da vida, ele é que ficou com desespero e dor.
O demônio, o sumo sacerdote do mal, por meio de sortilégios dominou a moça e, tal qual vampiro, sugou suas forças. Com o poder de ensalmos e da energia de uns ciganos, o bem prevaleceu.
No combate final, ganhou o bem... Ah!... Assim eu conto a história... Onde está a graça?

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OS CIGANOS



Quase meia-noite após um dia quente de janeiro de 1925. A lua-cheia brilhava tanto que parecia iluminar toda paisagem em derredor do rio, do bosque e dos ciganos, ali acampados. Fogueira acesa estralava bambus secos e animava o pessoal daquele acampamento. Moças lindas, alegres e com vestidos esvoaçantes dançavam em volta do fogo. Os rapazes só as observavam. Garotos que já deviam estar em suas tendas, corriam de uma para outra, como fazem todas as crianças do mundo. Crianças ciganas são mais vivas, mais alegres e mais livres e contentes com a vida ao ar livre. O grupo estava festejando um casamento. Após as discussões de praxe, dois velhos barôs (chefes), ambos com família numerosa e que viajavam unidos, depois de tomarem um sifrit e de ficarem horas de cócoras, fumando seus cachimbos de prata, chegaram a um acordo de casamento dos seus filhos Karina e Justo. Ela com 10 anos e ele com apenas doze. Coisas de costume cigano. Família do noivo de um lado, a da noiva de outro. Três velhas da tribo entraram na tenda da moça e logo depois voltaram com a marca de sangue no lençol. O sinal da virgindade. O capitão chamou os nubentes e lhes entregou uma bilha, que lançada ao chão, partiu-se em mil pedaços. Juntaram os cacos como se fossem fino alabastro e guardaram ciosamente, pois significavam a felicidade do casal. Violinos e pandeiros emitiam sons de festa. Eis que de repente o fogo decaiu rapidamente, e um vento frio totalmente atípico para a ocasião, pois era tempo de calor, balançou as barracas arrancando algumas de seus espeques. Como é que pode um vento esquisito daqueles? Em pouco tempo, da fogueira só restavam brasas e nada havia que pudesse avivá-la, nem lenha nem graveto nem mexer nos tições, nem sopro... nada. Todos então se recolheram rapidamente aguardando o pior. Súbito, veio uma ordem: desarmem as barracas, vamos partir agora! Ninguém discutiu. Silenciosamente e fantasmagóricos, sombrios, recolheram os pertences, enrolaram colchas, desmontaram cadeiras e puseram nas costas ou nos animais que foram encangalhados num átimo. Mas porque tão repentina saída? É que a bruxa do grupo, a chovihani, como eles dizem na sua língua arrevesada, recebera um “aviso”. O mal estava naquele lugar. Tudo levaria a crer ser uma verdade indiscutível. A lua desaparecera no céu, agora, escuro, Um ou outro filtro de luar rasgava nuvens cirrus e/ou cúmulus e dava uma claridade pálida ao ambiente. Um pouco distante, no alto de uma colina, luzes bruxuleantes de uma lamparina aclaravam as janelas de uma fazenda. Aqueles pontos de luz apagaram e ela ficou totalmente às escuras. Não havia mais referência.
E os ciganos silenciosamente, medrosos, olhos baixos, deixaram aquelas paragens com terror agônico estampado na face. Pareciam furtivos no escuro. Passos inaudíveis. Os ciganos geralmente partem tranquilos, mas naquela noite, escura, estavam singularmente apressados, quase correndo. E veio a chuva... torrencial. Relâmpagos e trovões aterradores. O vento acossava ferozmente aquelas pessoas. Eles tinham que ir pelo morro Alto. A enxurrada dificultava muito. Vez por outra, pedaços de terra molhada escorriam pelo barranco abaixo assustando os animais. Um deslizamento maior levou cavaleiro e dois filhos pela fenda abaixo. E os ciganos cada vez mais medrosos chicoteavam as bestas tentando aumentar a velocidade da alimária morro acima. Inutilmente, os animais já sobrecarregados, a custo subiam, eles escorregavam no cascalho, pisavam em falso; era muito dificultosa a subida que também era íngreme. Finalmente, chegaram ao topo e pararam para verificar as perdas e rearranjar a tropa. E raios e clareavam o céu como se fosse dia claro. Alguns bipartiam e bipartiam traçando verdadeiras árvores desfolhadas nos céus e apagavam e vinham outros. Logo adiante era a travessia da ponte-coberta. Então gelados de terror pararam. Foi preciso ordens severas do chefe, da matriarca da tribo e garantia da feiticeira que podiam passar. Um a um foi passando. Eles tampavam o rosto, encolhiam tremiam e gemiam. Adiante davam suspiros de alívio, pois estava fora da ponte e ilesos. Demonstraram estar ainda muito assustados. Fugiam certamente de algo muito mau... Um denso nevoeiro abateu sobre eles foi tão repentino. Antes estava quente, depois a tempestade e finalmente aquela névoa tão espessa que se podia espremê-la entre dedos. E então foram engolidos... desapareceram... como se tragados por gigantesca boca. Caso estivessem por ali, quando a aurora aconteceu, ficariam surpresos ao ver que a moita de bambu sob a qual passaram ao sopé do morro, estava amassada, rente ao chão, como que submetida a um rolo compressor e toda vargem que se seguia, estava coberta de lama negra.

ADVENTO

O ciclo (re)começou com um ato de amor. Como resultado duma relação, o homem depositou no ventre da mulher milhões de bons nadadores. Esses, algumas vezes, atingem a espantosa cifra do bilhão. Foram lançados em um lago donde deverão iniciar a mais fantástica competição de que se tem notícia.
Iniciam a luta em ambiente adverso; o meio líquido é composto de secreções ácidas. Os menos aptos se perdem por ali e centenas de milhares são mortos imediatamente. Sobreviventes continuam nadando; algo maravilhoso vai acontecer. Lá vão eles: penetram na cérvix; percorrem-na em média, de dois e meio centímetros a cada oito minutos; atingem a trompa. O óvulo, o objetivo, vem descendo pelo movimento contrátil da trompa, também em busca do útero.
O gameta masculino tem nos mitocôndrios, aderidos em volta dos filamentos espiralados, todo material energético de que necessita para a realização integral da missão. No acrossoma, localizado na cabeça, um centro emissor de ondas extremamente sensíveis o dirige para o verdadeiro destino: o gameta feminino. Ambos segregam a substância base da fertilização: a molécula trifosfato de adenosina. Ela provocará uma reação química que possibilitará a formação do zigoto e o fluxo elétrico de íons de potássio, cálcio e sódio na superfície do óvulo. A liberação dos íons de sódio permitirá não só a fertilização, mas, também fará o óvulo fecundado rechaçar outros espermatozóides.
O esforço é terrível, os competidores estão contra a corrente, pior ainda, em completa escuridão e quase sempre, em sentido vertical. Têm que vencer a gravidade.
Nesta formidável concorrência, vez por outra, todos perdem. Porém, um ou alguns, teoricamente, deverão vencer. Os mais competentes ou os de mais sorte ou, quem sabe, os que foram designados para cumprir algo muito superior a simples reações físico-químicas. O prêmio para o ganhador será a vida, enquanto os derrotados perecerão, inapelavelmente.
Enfim, alguns milhares atingiram a meta colimada. Mergulham, frontalmente, contra o óvulo. Ricocheteiam, escorregam, machucam-se, insistem desesperadamente. Buscam a sinergia com a célula feminina. Depois de várias tentativas frustradas, só duas células, (espermatozóide e óvulo), cônscias das necessidades e determinismos, interagem e interatuam. Os vórtices das espirais cromossômicas, pela sintonia eletroquímica, se fundem; agora é um ovo. Há um cataclismo, repetindo em microscópica escala a criação do mundo. Um endurecimento celular, formando a membrana de fecundação, isola a capa ou superfície do óvulo fecundado dos demais gamelas masculinos, os desfavorecidos. Inicia-se uma vida
Eis aí o princípio. Mas, neste caso, um desvio, um defeito, um senão aconteceu: os ácidos nucléicos não se combinaram corretamente, a mensagem genética falhou o cromossomo Y, que geraria o novo ser do sexo masculino, ficou imperfeito, defeituoso, uma falha desprezível, mas suficiente para marcar toda a vida futura. Ah! Quão infeliz ele seria.
O que teria acontecido? De quem seria a culpa? Da natureza? Dos pais? Do karma? Por que alguém nasce definitiva e duramente estigmatizado perante si próprio e perante a sociedade? Como fica a questão de que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus? Um indivíduo problemático é a face de Deus?
O corpo espiritual, a alma ou espírito tremia de pavor, relutava em obedecer ou, retornar a Terra. Foi necessário que outras potências acudissem e o envolvessem com fluidos de amor fraternal. Raios do puro espírito circularam com o fulgor de uma estrela aquele corpo etéreo, que então cedeu. Reduziu-se a nível infinitesimal e encarnou.
No momento do fiat, ocorreu o fenômeno da obnubilação do passado, a travessia do Lethes, o esquecimento. O bebê nada recordaria da vida anterior, exceto por alguns lampejos de memória que nem ele, nem ninguém levaria a sério.
O milagre da vida aconteceu. A minúscula célula era um ser humano. Enquanto na barriga da mãe, não tinha noção clara do ambiente. Estava ao mesmo tempo bom e ruim. Mergulhado no líquido amniótico, era bem protegido do ambiente externo. Através do cordão umbilical recebia os nutrientes vitais. O espaço restrito e escuro, o silêncio total. Apenas sentia uma angústia que o deveria acompanhar a vida inteira.
O tempo passando, as forças do embrião e depois do feto cada vez mais intensas prenunciavam um neném sadio. As atribulações começaram...

O INFERNO

O dele começou pela rejeição. A futura mãe não queria a criança. Tinha dois filhos, era muito. A vida dura, duríssima; o marido trabalhador braçal, pessimamente remunerado, mal ganhava para sustentar os quatro membros da família. Na pobreza, quase miséria, uma boca a mais não era motivo de júbilo. Pobrezinho, indefeso no útero da mãe: desprezado, inesperado e indesejado.
Eram tempos difíceis, a mulher, a contragosto do esposo, resolveu abortar. Dava socos no ventre, provocou algumas quedas, tomou ervas, entre elas arruda e artemísia e não conseguiu êxito. Conversou com as comadres, bebeu garrafadas sugeridas por elas, chegou a provocar pequena hemorragia, pela introdução no ventre de um talo de mamona tudo em vão. Ele, o feto, resistiu até às toxinas resultantes do tabaco do cigarro, que a mãe gostava de pitar. Contudo, teve o sistema nervoso central danificado pelos tóxicos, e danos mentais irreparáveis, pelas forças, pensamentos, emoções, idéias e imagens negativas da genitora, o que lhe trouxe, mais tarde, moléstias de fundo psíquico e uma vivência delirante, paranóia mesmo.
Ainda no ventre materno, percebia como um troar de canhões os ruídos dos gases intestinais e o bombear constante do coração. E era um horror...
Chegou o dia aprazado para ele vir à luz. Foi uma terrível viagem, que durou horas de pura agonia para a mãe e o filho. O bebê era cabeçudo e não ocorrera dilatação suficiente. De início, ele perdeu o oceano de serenidade, representado pela bolsa d’água que se esvaiu. E depois, a incrível sensação de sufocação e a compressão pelas contrações; o aperto do canal, o túnel vaginal; o cordão umbilical enrolado no pescoço; os puxões e torções da parteira curiosa; o brilho cegante das luzes, na saída. Depois, os sons atordoantes do ambiente externo, como trovões, as dores para respirar finalmente, os roncos dos pais.
O somatório de tantos traumatismos o marcou profundamente. Considerando que o parto fora “natural”, pois na roça e naqueles tempos não se falava em cesárea, houve um pequeno atraso na travessia e o nascituro quase morreu por anoxia.
A demora desta dramática délivrance lhe trouxe fobias por lugares apertados e por escuridão. Tais sucessos deram início ao pagamento das dívidas pretéritas, pois nada acontece por acaso, não é mesmo? O programa começara a ser cumprido e as complicações eram partes do resgate.
Primeiros meses de vida. A criaturinha não tinha noção do entorno. Distinguia, vagamente, vultos, vozes, luz, sons e diversos movimentos. Nestes aspectos, era normal como qualquer neném. Chorava muito; não se sabia por quê. Um dia, removendo as palhas do bercinho de taquara, uma das parentas da criança notou pequenas manchas de sangue no lençol. Viu surpresa, centenas de percevejos que, à noite, sugavam o petiz, sendo esta a razão de ele ser tão fraquinho e de ter uma fome insaciável. Isto lhe causou outro problema: a mãe, por não produzir leite suficiente, dava o bebê a toda crioula que aparecesse para que o amamentasse. Mais tarde diriam que ele mamara em sete negras, o que era uma ironia dolorosa em tempo de tanto preconceito e atraso.
Ainda no período inicial de vida, punham-no para dormir, durante o dia, num berço suspenso no teto e assim o balançavam, doidamente, até que parasse de chorar e dormisse tonto pelo vaivém do ninho. Tal movimento possibilitava ao bebezinho ver, pela abertura da janela do quarto, as pedras sobre as quais se assentava a fazenda em que moravam e que era, também, o piso de um enorme chiqueiro que avançava sob o assoalho, vindo daí o pavor pelas alturas e o medo insensato pelos porcos.
A casa onde moravam, por favor, de uma parenta afastada (era a bisavó), fora feita de pau-a-pique e ripas de palmito, amarrados com cipó e embiras de candiubá. Alta, encravada na encosta de um morro, inúmeras vigas e colunas de madeira sobre pedras de alvenaria a suportavam. O porão, nos velhos tempos, fora a senzala, casa de máquinas e local para armazenagem de grãos em tulhas e surrões. Hoje, era parte chiqueiro, depósito de lenha e galinheiro. Era chamada de fazenda velha, antes era Morro Alto. Há muito não havia mais escravos. Os remanescentes abandonaram-na, terminada a escravidão. Da morada restava a estrutura, o embasamento de pedra, que tinha resistido a tudo, bem como as paredes um tanto esburacadas e empenadas e caiadas. Era assobradada, sendo a parte superior formada pela varanda, numerosos quartos, duas ou três salas e a cozinha. Os principais cômodos eram tabuados de madeira; a cozinha e a despensa, de terra batida. Circundavam-na um estábulo caindo aos pedaços e sem utilidade, porque a família não tinha posses para comprar vacas ou qualquer animal, e num belo pomar podiam-se colher frutas variadas, ouvir os pássaros e ver o beija-flor sugar o néctar das plantas. Cobras e cascavéis habitavam aquelas paragens.
Aquela criaturinha, bem ou mal, sobrevivia e crescia como se diz, na roça, ao deus-dará. Sim, pois, antigamente, médicos e medicina eram coisas de cidade. Todas as doenças eram cuidadas por curandeiros com benzimentos, raízes e homeopatia. Se tudo falhasse, ocorria a morte do paciente.
Os pais, que tinham como riqueza o dia e a noite, não podiam esperar um brilhante futuro para o filho. E não esperavam mesmo. Entretanto, seus ancestrais foram ricos. Graças à burrice, aos maus negócios, à preguiça e, eventualmente, ao excesso de bondade, perderam tudo, deixando os filhos com as mãos abanando, enfim, na miséria. Apesar de tudo, aquela família pretendia vencer na vida. Ambiciosa, desejava se livrar do manto da pobreza. A maneira que escolheram para melhorar de situação pressupunha sacrifícios inauditos, como passar fome. Assim, na base do mingau de fubá e couve, conseguiram poupar algum dinheiro. A consequência foi anemia, escorbuto, avitaminose, raquitismo e outros males. Ainda assim, Antônio superou esses obstáculos. Ele fora balizado com esse nome em homenagem ao bisavô, Antônio Araújo Gomes.
Seu Gomes construíra a fazenda da Legalidade a troco de nada. Fora muito mau e pouco se importava que trabalhadores morressem durante as obras.
Garantiam, segundo as conversas ao pé do fogo, nas noites de frio, que a fazenda era assombrada. Diziam que, por volta da meia-noite, na lua cheia, escutava-se um arranhar na porta da sala. Sinhá Dona ia abrir. Um enorme cão preto entrava se dirigia ao dormitório e deitava sob a cama. Ela chamava o marido ou outra pessoa para enxotar o cachorro. Quando entravam no quarto, onde ele deveria estar nada encontravam. Também percebiam, com nitidez, o barulho dos negros socando sal ou café torrado e pilando arroz na senzala: tum, tum; tum, tum... noite inteira. Alguém que se atrevesse a ir ao porão perdia tempo; estava deserto. Só porcos se espojando e grunhindo. A qualquer hora do dia ou da noite, se ouvia o farfalhar característico do vento agitando o canavial. Folhas e caules dobravam e quebravam ao sabor do vendaval. Pura fantasmagoria. Certa feita, o velho Gomes resolveu enfrentar o bicho. Armou-se com um cacete e foi para a plantação, gritando palavrões.
“Se é o capeta apareça! Não tenho medo de nada!”
Alguma coisa tomou-lhe o bastão e deu-lhe uma sova, deixando-lhe o corpo moído. Desde então, nunca mais topou enfrentar o desconhecido.
Mais um tipo de assombração acontecia naquela casa. De vez em quando, o moinho trabalhava a noite toda como se estivesse moendo canjiquinha ou fubá. Acontece que, do moinho, só restava a casinhola de pedra. Não tinha água, setia, pedra de moer, cuba, nada. A casa era assombrada sim.
Outrora, a fazenda conhecera tempos áureos; o fim da escravatura trouxera-lhe a decadência. Seria, realmente, assombrada? Erigida com tanta maldade, merecia ser. E era.
Toninho passou a infância ouvindo diariamente estas histórias, contadas por idosos que juravam ter presenciado alguns acontecimentos. Ele assumiu tudo como pura verdade. À noite, tinha pesadelos incríveis, sendo envolvido por seres estranhos e arrebatado para lugares tenebrosos. Sim, porque as conversas daquele tempo giravam em torno de mula-sem-cabeça, lobisomem, saci-pererê, mãe-d'água, caipora e outros duendes. Personagens folclóricos, mas com ares reais. Além disso, o grande predomínio dos padres e da religião incutia nas cabeças as idéias de céu (para os bons), inferno (para os maus) e purgatório (para os mais ou menos), com pesada carga psicológica adversa. Era a igreja da culpa. Neste período negro para a formação moral, mental, intelectual e espiritual do menino, ele se sentia oprimido pelos poderes demoníacos; ansiava pelas benesses do paraíso, por se livrar do purgatório e das forjas infernais.
Ele se responsabilizava por tudo que fazia ou deixava de fazer e pelo que pensava. Tudo era proibido: não faça isto, não faça aquilo, porque faz mal à saúde ou porque é pecado ou, ainda, pelo prazer dos pais e outros parentes em proibir.
De culpa em culpa, tornou-se introvertido, anti-social, visionário e complexado. Não podia ficar perto das visitas e ouvir as conversas, porque era criança. Chegaria o dia em que não poderia brincar: era um mocinho. Estava sempre deslocado, do lado errado, excluído das brincadeiras, chegou a pensar que era invisível, pois ninguém ligava para ele. Então, virou uma ostra: fechou-se literalmente.
Quanto ao pai, o senhor Lisandro, não se podia culpá-lo tanto. Trabalhava de sol a sol. Ignorante e bruto sofria de acatalepsia, não cultivava qualquer sentimento paternal. Para ele o trabalho e a alimentação eram os motivos da vida. Queria progredir: os filhos que se virassem.
A mãe, dona Leocádia, subserviente como quase todas as mulheres daquele tempo, não tugia nem mugia. O que o marido fizesse estava bom. Cuidava da casa, dos filhos, segurava o máximo para que algum dia pudesse ter uma vida melhor. Amor maternal era mercadoria escassa. A grande obrigação era ter filhos. Utilizava empregada para cuidar das crianças, pois, em geral trabalhava a troco de comida e de uma enxerga. A vida era assim.
E Toninho foi crescendo naquele espaço restrito: do espírito cuidavam os padres; da matéria, os genitores.
Certa vez, com quatro para cinco anos, sucedeu um fato marcante: ouviu o pai dizer que ratos ou gatos estavam comendo os queijos e que iria dar um jeito neles. Sequer imaginou a natureza das providências. No dia seguinte, o pai chamou os bichanos, eram quatro, sacou o revólver e atirou em todos, ali mesmo na cozinha. Inenarrável e traumático dano psicológico causou ao filho, que chorava ao ouvir aqueles estampidos e o fogo da boca do revólver. Nos tenros ouvidos soavam como explosões de dinamite. Dois animais feridos correram para o terreiro; um se enfiou debaixo de uma pedra, sob a escada. O menino desceu dois lances e, olhando por uma fenda, encarou o bichinho de estimação. Eles não compreendiam a estupidez cometida. O gato morreu em seguida e o garoto ficou imbecilizado. Daí, toda vez que ouvia um tiro, tremia, gritava e chorava descontroladamente. Mais tarde, descobriram que não foram os felinos que comeram os queijos. A matança fora injusta.
As estórias de terror, bem como as atuações falhas e irresponsáveis dos pais, faziam efeitos danosos na mente e no corpo do menino, mas havia pior: naquele tempo existiam numerosas doenças incuráveis, as mulheres adoravam conversar sobre as pessoas que padeciam de males como raiva ou hidrofobia, diabetes ou urina-doce, tuberculose ou tísica, lepra ou morféia, sífilis e outras. Nessas conversas estúpidas e sem sentido prático, entravam em detalhes sobre o padecer dos doentes:
“Lembram-se da comadre Idalina, que foi mordida de cachorro doido? A pobrezinha como sofreu! Queria beber água e não podia, ficava num quarto escuro. A simples claridade através da abertura de uma porta lhe causava dores violentas. Ninguém podia lhe pôr as mãos: mordia-as. Teve que ser amarrada às barras da cama. No fim teve que tomar injeção para morrer.”
“E o compadre Belo” dizia outra querendo contar um caso mais grave. “Está internado na colônia São Juliano, morfético. É uma pavorosa doença, mata aos poucos. No princípio não sentia nada. Começou com pequena mancha branca no braço, não se importou; às vezes brincava se dando tapas e muçungas, fingindo não doer. A doença avançou muito. Perdeu alguns dedos, as orelhas e parte do nariz. Aquele não volta mais. Também era muito ruim; viram-no mordendo pêssegos no quintal e jogando-os para as crianças do vizinho. Queria transmitir a doença para os outros, o tratante.” E assim ele aprendeu que leproso, camunhengue, gafa eram a mesma coisa, tantas vezes foram ditas que ele as assumiu como sinônimo de morte certa.
As conversas prosseguiam por horas a fio nesse tema: fulano sofria do mal-de-terra (epilético); sicrano morreu com urina-doce (o diabetes); aquela doença (câncer); beltrano, tísico, escarrava sangue. Até separaram os seus utensílios, ninguém entrava no quarto. Alguém morrera com nó-nas-tripas e assim por adiante.
Toninho ouvia esses diálogos sadomasoquistas que o massacravam. Ele se tornou um obsessivo e hipocondríaco. Apalpava-se para sentir a sensibilidade, olhava a pele para descobrir possíveis marcas, bebia urina para saber se estava adocicada e, a qualquer tosse, se julgava tísico no último grau. Andava sozinho pelos cantos da casa, por detrás dos portais e das colunas, elucubrando sobre falsas doenças, procurando em cada sinal do corpo o indício do mal que o levaria à tumba. Era fobófobo. Difícil imaginar tanta angústia. Nem a mãe, nem os parentes e as comadres tinham a mais tênue idéia dos malefícios que aquelas conversas insanas causavam à criança que as escutava por detrás das portas, com aparente indiferença.
Um dia, ele notou algo... sim. Ouvira as palavras quebrado, rendido, não dera atenção. Demasiado pequeno, pensava que o assunto não lhe dizia respeito. Estava enganado. Aos doze anos fora, com outras crianças da mesma faixa de idade, nadar num córrego que passava no fundo da casa. Como acontece nas farras de garotos, todos ficaram nus para mergulhar nas águas frias do regato. Nas brincadeiras que se seguiram, apontavam os perus de uns e outros: grandes, pequenos, finos, grossos, quando um deles, observando Toninho, gritou: “que sacão!”
Gargalhada geral. Envergonhado, tampou o sexo com a mão, pegou as calças com a outra e foi vesti-la atrás das árvores, no pomar perto da casa. No quarto, se trancou e tirou a roupa para um auto-exame. Observou que a bolsa escrotal era exageradamente grande e desequilibrada: pelo tato, sentiu que o carocinho do lado esquerdo era minúsculo, se comparado com o do lado direito. O lado maior era cheio de veias que deixavam a pele com pequenas protuberâncias. Se ele não fosse tão ingênuo, saberia que tinha varizes. Subiu as calças e pôs-se a cismar: sem dúvida era diferente dos outros. Talvez fosse uma doença grave. Nunca mais tomou banho em conjunto e de jeito nenhum tirava a roupa perto de outra pessoa. Pensou em contar para os pais, desistiu; não via razão e tinha vergonha. Aguentou firme o problema, depois se conformou: era diferente e pronto. Fechou-se em copas e ficou cada vez mais arredio e enigmático.
Com tanta carga de problemas mal postos, o tempo foi passando, ele crescendo, sempre distante, ensimesmado e com tremendo complexo de inferioridade.

TRAIÇÃO

Era um lugar não muito além da fazenda da Legalidade, ermo, lúgubre e fantástico, que afugentava os que ali passavam. Sem exceção, apressavam os passos, se benziam e só se sentiam seguros bem longe. Situava-se numa das vertentes do morro da Fumaça, que era também assustador, sempre coberto pela neblina. A região era muito montanhosa. Numa visão aérea, notavam-se em sequência três elevações: o morro Alto, o da Picada e o da Fumaça. Um vôo mais audacioso delineava a serra da Saudade. Dando asas à imaginação, os morros formavam as três corcovas de um animal mitológico cujo rabo, imenso, tinha na ponta a fazenda citada. O pescoço, tão grande quanto a cauda, podia ser dividido em três partes: a primeira descia pelo morro da Fumaça; a segunda repousava num altiplano correspondendo à bacia do rio Verde que, por sua vez, era formado por dois outros; o Pardo e o Preto. A terceira fração do pescoço ascendia pelos flancos da serra da Saudade onde, no topo, estava a cabeça do monstro. Granítica, imensa, com o olho ciclópico, ocupava o cume da montanha. Entre os dentes erodidos, gastos pelo tempo, um afoito poderia se aventurar, pela boca descomunal, e encontrar pequena passagem numa cárie disfarçada pelas sarças e espinheiros. Ultrapassada esta barreira, iniciava-se uma caminhada em declive pelas pedras lisas, lodosas e escorregadias, por um canal ligeiramente iluminado que bem poderia ser a garganta do basilisco, lendário.
Prosseguindo a viagem para o interior, o explorador chegaria a um anfiteatro semi-esférico de grande altura. Da abóbada escorriam, por tempos imemoriais, gotículas de água cristalina. Por milhões de anos formaram não só belíssimas estalactites, como também respingavam nas rochas do piso tornando-o abaulado. Isto só foi possível porque das entranhas da montanha afloravam olhos d’água diluindo ou amaciando a rocha, transformando-a numa banheira natural, na qual se podia mergulhar para um banho reparador. O líquido, que escoava pela borda mais desgastada, desaparecia nas pequenas fendas. Reaparecia do outro lado do penhasco, enriquecido de novas fontes, e se despencava em belíssimo véu de noiva.
Corria a lenda de que a mina era milagrosa, a água era santa. Há tempos ali vivera e morrera um eremita. Deus, para recompensá-lo pela vida ascética e intenso fervor religioso, tornara a nascente miraculosa. O anacoreta, na verdade, fora um ser especial, um iluminado. Falava com os “espíritos”. Doutrinava as pessoas más e perversas; ouvia com humildade os ensinamentos dos bons. O bom velho curava os doentes pela imposição das mãos e orações. Alimentava-se de frutos silvestres. Jamais o viram dormindo e, além disso, tinha excelente relacionamento com os animais selvagens, os quais protegia dos caçadores.
Difícil, quase impossível era chegar àquela fonte. Não havia estrada. O peregrino teria que percorrer uma trilha tão estreita que mal dava para pôr o pé. Armadilhas de todos os tipos dificultavam a caminhada: buracos sem fundo, um deles tinha o significativo nome de Boca do Inferno; ladeiras íngremes, despenhadeiros repentinos, camuflados pela vegetação, e principalmente jararacas venenosas presentes em todos os lugares: atrás das pedras, dos paus podres, às vezes, simplesmente enroladas, esquentando-se ao sol da manhã.
Com a morte do ermitão, tão misteriosa como fora a vida, (correu por muito tempo o boato de que fora assassinado por um caçador, irritado com a proteção que dava aos bichos) os romeiros foram rareando até que cessaram. A picada sinuosa desapareceu; a mata retomou o que era dela.
Retornando ao réptil mítico, isto é às montanhas, ao longo do corpo e nas extremidades das oito pernas espraiavam os sítios, povoados e fazendas, entre elas as da Cachoeira, Santana, São Mateus, Grão-Mogol, França, Taquaral, Arrependidos, Monte Verde e outras. A mais velha, bela e maior era a fazenda Jurema; e o dono, Chico Nico, o mais temido.
Apesar da distância entre as propriedades, ocorriam brigas constantes por divisas, por dê-cá-aquela-palha, cometiam-se assassinatos.
O sítio das Abóboras confrontava com a grande fazenda Jurema, por azar de Jove. Uns poucos metros eram constituídos por uma lagoa rasa o suficiente para separar o gado e outros semoventes de cada um dos donos, mas deu origem a um poço de ódio.
Ocorrera grande período de seca. O charco fora diminuindo, secando, até se transformar numa minúscula aguada. Os animais, à medida que o verão esticava, iam avançando pelo brejo afora, à procura do capim verde que brotava pela umidade remanescente. Acabaram por se misturar e o prejuízo maior ficou com o pequeno sitiante. As reclamações foram se intensificando, avolumando e as relações azedando.
Vizinhos e amigos tentaram, sem sucesso, amenizar o mal-estar. Chico Nico, o mandachuva, poderoso e rico, recusou dialogar e mandou fazer por conta e risco uma cerca ao longo do terreno litigioso e, enquanto durou o estio, cessaram os recados desaforados.
Quando vieram as chuvas, o sitieiro observou que a lagoa recomposta ficara quase totalmente incorporada às terras da Jurema. Pediu a Chico Nico para derrubar a sebe ou colocá-la na posição correta. Não recebeu resposta, nem observou ação no sentido de atendê-lo. Furioso, resolveu fazer a mudança pessoalmente. Quando chegou ao local, notou que, do outro lado, havia alguém armado. Não se acovardou e avançou resoluto em direção ao tapume. Ouviu um tiro de advertência dado pelo vigia. Retrocedeu, pegou a espingarda e atirou, ferindo, levemente, o oponente. Novo estampido e sentiu a bala passar de raspão na testa. Os duelistas recuaram para uma distância prudente, sempre trocando chumbo, até o esgotamento da munição. Só assim abandonaram a luta.
Novamente, amigos comuns tentaram mediar uma reaproximação, sendo repelidos pelos dois lados em conflito, principalmente pelo fazendeirão. Desistiram convencidos de que no fim aquilo redundaria em morte.
As coisas estavam neste pé quando, em um sábado, Jove recebeu a visita surpresa do inimigo que lhe estendeu a mão e o induziu à reconciliação. Afirmou que não valia a pena brigar por um pequeníssimo espelho d’água. Propôs esquecer tudo sem rancor ou mágoa.
Conversa vai, conversa vem, foi tão envolvente, tão persuasivo e astucioso que convenceu o outro de que era sincero. A serpente, no éden, não teria sido mais esperta. Por fim, convidou o ex-desafeto a almoçar um frango com quiabo no dia seguinte. Ainda que ressabiado, Jove não tinha como recusar e, um tanto aborrecido, aceitou.
Na véspera da viagem à Jurema teve uma longa e dolorosa noite. O sono agitado, pesadelos e sobressaltos. Revirou na cama, brigou com o cobertor e com o travesseiro. Gemidos e lamentos... Os galos cantaram urna, duas e mais vezes, anunciando a madrugadinha. Sonhou que caminhava por um túnel, escuro, apavorante, que se fechava, afunilava. Esbarrava em coisas; o negrume o envolvia como um polvo massacrava e asfixiava. Curvou-se, ajoelhou-se, por fim se arrastou. Os pulmões pareciam explodir e o coração aos pulos. Desespero, agonia. Súbito, ao longe, um ponto de luz. Quis prosseguir, não pôde. Estava entalado. Acordou suando frio. Levantou-se, lavou o rosto e enquanto se penteava, tentou espantar a estranha visão. Gostaria de decifrá-la, porém, não tinha o dom da vidência.
Alta madrugada, antes de sair, sua filha acordou e tentou persuadi-lo a ficar quieto em casa, pois tinha também sonhado que ele morreria. E trocaram este diálogo:
“Pai fica, eu estou com medo...”
“Deixa disto, minha filha. É só um passeio”.
“Eu sonhei...”
“Filhinha, tudo está certo, se papai não voltar vocês estarão protegidas. Tenho dinheiro em casa e na viagem que fizemos a Congonhas o Campo, para o jubileu, eu comprei muitas roupas para vocês. Tenho muita mercadoria estocada no paiol, muitas galinhas no terreiro. Vacas no pasto e animais...”
Parecia premonição de um fatídico encontro.
Ele saiu de casa, atravessou o terreiro, o estábulo e foi para o pasto à procura da Dourada, a besta de estimação. Subiu o morro em forma de meia-laranja. Sabia que a encontraria no topo. De fato, lá estava com outros animais. Aproximou-se e passou um cipó-imbé sobre o cangote da mula. Preparou um barbicacho, montou-a em pêlo. Desceram devagar para o cercado. Ele sempre deprimido e pensativo. Amarrou-a no tronco, bateu as sementes de capim-gordura que lhe grudaram nas pernas da calça, buscou, no depósito, a tesoura, a raspadeira e a escova para a limpeza preliminar da besta. Com a primeira, aparou-lhe as crinas; com a segunda, retirou os carrapichos e carrapatos; com a terceira alisou os pêlos. Lento e com muito carinho. Feita a preparação, pegou, no paiol, algumas espigas de milho, descascou-as, quebrou-as em pedaços e alimentou o nobre animal. Vagaroso em todos os atos, como se atormentado por lúgubres devaneios. Profundos vincos sulcavam-lhe a testa. A preocupação daquele pesadelo. O que significava?... pressentimento e medo. Pensou em se armar. Desistiu. Não ficaria bem numa visita de cortesia.
Subiu a escada da estrebaria. Pegou o baixeiro, a manta e o cabresto. Jogou os dois primeiros sobre o dorso da mula, procurando ajeitá-los de modo que ficassem bem divididos ao longo da coluna vertebral. Trocou o cipó pelo cabresto. Retornou à selaria, apanhou o arreio, preso a um gancho fixo na trava do teto, aí demorou um poço alisando o gancho. Trouxe o arreio e jogou-o sobre ela, na altura da garupa, para facilitar a colocação do rabicho. Principiou, em câmara lenta, o ritual do arreamento. Com as mãos, levantou um pouco a sela, ajustando a suadeira sobre a manta. Afivelou o peitoral e a cilha. Passou o látego pela argola da barrigueira; arrochou fortemente. O animal reclamou, levantando a pata esquerda, quase batendo a ponta do casco no abdômen. Ele entendeu o recado. Afrouxou um pouco a cincha e acariciou-lhe a tábua do pescoço, pedindo desculpas. Pegou a cabeçada, colocou-lhe o bocal, procurando não machucar a língua e os dentes; verificou e acertou a barbela na camba; passou-lhe as rédeas pela cabeça e ao longo do pescoço, prendendo-as no santo-antônio (cabeça do arreio). Afastou-se, deu uma olhada crítica na montaria. Achou os estribos muito curtos, mediu-os pela distância entre o pulso e a axila. Aumentou dois furos nos loros.
Nada mais havia a fazer. Dourada, corretamente ajaezada podia viajar. Deu um suspiro. Não teve pressa, estava dopado, sonâmbulo. Reexaminou tudo: ferraduras, cravos e cascos. Trançou-lhe um nó no rabo para melhor aparência. Inconscientemente, retardou o máximo.
Apanhou o relho, dependurado num prego; viu o pelego, entretanto optou pelo coxinilho, tinto de preto, para melhor contraste com a cor do arreio. Agora sim, estava pronto. Novamente, o coração confrangeu. Algo inexprimível o retinha. Desfez a laçada do cabresto, caminhou em direção a casa.
Veio de cabeça baixa onde a mulher já o esperava com uma xícara de café bem quente. Tomou-o em silêncio e devagar. Nunca demorou tanto para beber um simples cafezinho. Deu-lhe adeus, cutucou as ilhargas dá besta com os calcanhares e partiu sem palavras, pois tinha um nó na garganta. Algo estava errado, muito errado.
Estrelas ainda luziam no céu.
Dourada, ignorando o drama do dono, marchava faceira, abanando o rabo de encontro às ancas: direita, esquerda... Passou pela covanca, chegou à raiz da serra. A lua fora mandada embora para as sombras. O sol derramava luz e calor nos rios, planícies, montes e grotões. Somente ele sentia arrepios até na alma...
Extraordinariamente quente seria aquele dia.
Conduzia a mula a passo e assim subiu o morro da Fumaça. No cume eles estavam empapados de suor. O sol, que brilhava como um disco de fogo desapareceu atrás de nuvens negras. Alguns trovões prediziam o temporal. Após ligeiro trecho plano, começou a descida, quando sentiu os primeiros pingos da chuva na testa. Secou-a com o dorso da mão e estugou a besta, cutucando-a levemente nos flancos. Não usava esporas. Longe viu a cortina de chuva que unia o céu e a terra e que vinha em sua direção.
A estrada, sinuosa, flanqueava o morro; formava, em longa curva descendente, uma ferradura, fendida e retorcida por um ferrabrás; parte do rompão ficava no topo e a outra a cem metros abaixo. Ainda estava no início e já avistava o final do caminho, lá embaixo. Naquele ponto, na dobra escondida pela elevação, estava a porteira e bem perto dela um barraco abandonado.
A obra rústica fora executada por mateiros quando pretendiam derrubar uma pequena mata. Por discordarem quanto ao preço da empreitada, desistiram. O casebre ficara, porque esqueceram de demoli-lo.
Dentro da velha palhoça, Pedro Sertanejo, o cafuzo, o esperava em tocaia. Pela réstia da janela, viu a vítima que se aproximava a galope. Empunhou o trabuco, engatilhou-o, entreabriu a porta e aguardou impassível. Com a mão direita pegou um pedaço de fumo de rolo no bolso, levou-o à boca, tirou uma lasca e pôs-se a mascá-lo para se liberar da ansiedade. Não queria errar, não podia.
O cavaleiro descia rápido. Pretendia se esconder da chuva no rancho. Na porteira saltou, desamarrou o cabresto da cabeça do arreio e se dirigiu ao rancho. O aguaceiro desabou. Estendeu a mão para abrir a porta.
À queima-roupa o capanga puxou o gatilho. O projétil atravessou o peito do infeliz acima do coração. Ele se voltou sobre os calcanhares, tentou montar, chegou a pôr o pé no estribo e se segurou na borraina, porém, a mula assustada pelo estampido, negaceou. Indefeso, pelas costas, recebeu mais dois balaços na cabeça; caiu fulminado. Antes de mergulhar na inconsciência da morte, descobriu quão ingênuo fora em acreditar na boa-fé de Chico Nico.
O enigma do sonho fora desvendado.
Feito o serviço, o sicário saiu; olhou sem qualquer remorso para o corpo inanimado, cujo sangue se misturava com a chuva numa poça avermelhada pelo chão; deu uma cusparada e partiu para relatar o feito ao chefe.
É notável que naquele instante de muita chuva e de céu escuro, nuvens se abriram e exatamente sobre o corpo moribundo, brilhou um raio de luz. Viria buscar uma alma?
Desde então aquele lugar foi denominado Capão da Traição e considerado maldito. Os que lá passavam altas horas da noite acreditavam ver o vulto de um homem ensanguentado tentando, desesperadamente, montar.
A viúva, em memória, mandara fincar um cruzeiro no local. Chico Nico era mesmo impossível. Cismou que o madeiro estava no seu terreno e que era uma provocação, empilhou lenha em volta e botou fogo. Algo inexplicável aconteceu: tudo queimou, exceto a cruz. Os crentes encararam o fato como um aviso, o castigo.
Este fim trágico influenciou negativamente Antônio, porque era afilhado de Jove e era muito dependente dele. Quando soube do evento, passou três dias sem comer e dormir, só chorava. Voltou a se alimentar sob ameaça dos pais de apanhar uma surra.
Antônio, além dos fantasmas de doenças incuráveis ficou encucado com a morte violenta do tio-padrinho e começou a tomar tiros em sonhos.

A VIAGEM

Singular fato aconteceu quando Toninho completou doze anos. Ele mudaria completamente sua vida. Na data do aniversário chegou um mensageiro da fazenda Jurema e entregou uma carta ao senhor Lisandro. Nela, o remetente pedia que se contatasse o sacerdote, residente não muito distante deles, num povoado denominado Rosário.
O ministro de Deus, em questão, era padrinho de um outro irmão de Antônio. O cura chamava-se Afonso. Bom vivant e valentão, nele habitavam outros vícios que não o recomendavam como guia das almas. Acreditava mais num revólver do que no poder das orações. Ciente do pedido aceitou-o, pois não queria incorrer na ira do requisitante.
O pai de Toninho aproveitou para mandá-lo estudar, com professor particular, na fazenda Jurema, como usual naqueles tempos. Solicitou e conseguiu que o compadre levasse Antônio com ele. Eles tinham, inclusive, laços de parentesco.
No dia seguinte, encilharam um sendeiro pachorrento, manso e partiram. O garoto ia à garupa.
A viagem teria transcorrido monótona se não fossem três incidentes dignos de nota: o primeiro se deu com o menino que, cansado pela longa caminhada, cochilou e escorregou do cavalo. Só não caiu por ter sido socorrido a tempo pelo clérigo que, pressentindo, levou a mão rapidamente para trás e o segurou.
Sentindo-se fatigado, tanto quanto o garoto, resolveu pedir pousada na fazenda do avô (o papai Neneca, assim chamado), pelo lado materno, do menino: um fazendeiro que vivia do passado. Ficara pobre pelo excesso de bondade. Não sabia dizer não e fora muito explorado por isso. A estância era parada obrigatória de tropeiros, viajantes, mascates e boiadeiros, em trânsito de uma cidade para outra. Lá pernoitavam, comiam e partiam sem nada pagar. No tempo das águas, quando as estradas se tornavam intransitáveis, ficavam semanas vivendo à custa do “papai”, Neca. Utilizavam suas coisas, pertences, animais, comiam, dormiam e sumiam. Ele foi vendendo partes das terras e do gado, para saldar dívidas. Ficou sem dinheiro, sem amigos e, felizmente, sem os parasitas.
Certa feita estavam roubando porcos do bom homem. Numa noite, ouviram-se latidos dos cães e gritos dos suínos. Um dos filhos do senhor Manoel, metido a valente, apanhou o mosquetão na parede e foi para a varanda. O velho correu para a janela e gritou: “Foge, ladrão, senão Nenego te mata”. Por aí se vê quão bondoso era o fazendeiro.
Foram recebidos pelo avô, que os levou direto à cozinha onde a avó Teresa mexia um delicioso angu para comerem com leite, como costume na roça.
Todos se arranjaram em torno de umas brasas postas no centro, sobre o piso de chão batido da cozinha e, enquanto comiam, contavam estórias, cantavam lérias, relembravam episódios e combinavam tarefas para o dia seguinte.
Toninho tinha um tio na faixa dos vinte e sete anos. Eles se identificaram neste papo informal e, quando foram dormir, combinaram ficar na mesma cama. De madrugada, o garoto acordou com uma sensação esquisita. Abriu os olhos e viu que o tio estava grudado nele e que algo ia e vinha entre as pernas. Perguntou assustado:
— O que está fazendo, tio?
Apanhado de surpresa, ele se afastou e respondeu, simulando irritação, que o garoto estivera sonhando. Mentira, o descarado estava abusando sexualmente do sobrinho.
Indeciso sobre que atitude tomar, Toninho resolveu não reclamar e dormiu novamente. O insólito ato jamais foi esquecido e ele desenvolveu um intenso e definitivo desprezo pelo parente.
No dia seguinte, seguiram a jornada logo após o café-com-leite da manhã, acompanhado de broa, biscoito de polvilho, queijo, cobu (broa de fubá) e outros quitutes.
Toninho recebeu do tio um presente, em dinheiro, que assim esperava comprar o silêncio e a conivência do rapaz. Vã tentativa, a ojeriza era definitiva.
Avô Neca, antes da partida, deu um aviso ao pároco sobre os grandes obstáculos que o esperavam na fazenda Jurema. Lá, seguramente, belzebu dominava. Expulsá-lo não seria fácil.
O terceiro fato notável ocorreu próximo do término da viagem, na descida do morro da Fumaça, onde havia a cava e nela a cancela difícil de abrir, porque era contra a direção que iam. O prelado se curvou sobre a montaria para alcançar o cabeçote. A seguir, puxou as rédeas de modo a provocar o recuo do animal. Um pássaro, provavelmente um mocho, alçou vôo, do braço horizontal da cruz que ficava acima do caminho. A ave passou rasante sobre o cavalo que, assustado com o pio estridente e o rufiar das asas, upou. Afonso, estabanado, puxou violentamente o bridão, fazendo o rocim tresandar. Ele escorregou e empinou. Foram os três para o chão. O garoto caiu para trás, mas sem se machucar; o padre teve pior sorte, pois ficou com a perna presa entre o chão e o arnês. Infelizmente, sofreu uma luxação no tornozelo, forçando-o a um grito doloroso.
O pangaré e o cavaleiro se levantaram. O garoto rápido segurou os freios. O de sotaina, claudicando, com fortes dores, montou e encostou o animal num barranco para facilitar o menino subir. Por precaução, seguiram bem devagar.
— Padrinho! Me conta a estória daquela cruz...

CHICO NICO

Voltava para a fazenda Jurema montado no alazão castanho. Estava pensativo, deixando o animal regular o passo. Taciturno, desprezava a si próprio, reavaliava seus atos. Tinha sido um grande patife, merecia o que estava passando. Não lembrava uma ação boa, nada de que pudesse se orgulhar. Alheio ao derredor, não via as belezas da paisagem, os pássaros retornando aos ninhos, o sol se escondendo no horizonte, as nuvens refletindo as luzes douradas. O entardecer era lindo. Uma pomba-trocal piou no bosque, as saracuras gritavam à beira da lagoa. Algumas aves noturnas, assustadas, davam vôos sobre a cabeça do cavaleiro. Ao passar na orla da floresta, centenas de urubus revoaram da copa de um frondoso ingazeiro. O bater das asas deu um tom triste àquela caminhada. O ambiente mudou de uma hora para outra: o ar ficou denso, quase palpável, os crocitares, pios, grasnados, chirriados e os vôos cessaram. Tudo que indicava presença de vida silenciou.
Cobras... Não sabia por que, começou a pensar nelas, abundavam naquela região: corais, urutus, surucucus, jararacas e outras. Tinha, também, muçurana, que comia as venenosas. Víboras eram encontradas em todos os lugares: debaixo da cama, sob os travesseiros, na bica do moinho, no alpendre, no paiol em lugares inimagináveis. De repente uma cascavel bateu com o chocalho à beira da estrada, o animal assustou, empinou e depois murchou as orelhas, repuxou as narinas, corcoveou e empinou. O cavaleiro soltou a praga predileta: Com seiscentos mil diabos! Arrependeu-se, não queria falar mais palavrão.
Alguns minutos mais, a tarde cederia à noite, o sol daria lugar à lua-cheia. Chico Nico pareceu acordar dos sombrios pressentimentos. Descia o morro da Fumaça, os olhos fixaram no tronco decepado de uma antiga figueira. Diziam que o demônio gostava daquela árvore, que tinha o talo queimado, preto, muito feio, com dois ramos mais grossos abertos em forma de V, apontando para o Céu, como se clamasse por vingança contra o fogo que devorou seus galhos e folhas. Um raio caíra nela há alguns anos.
Aquele cascavel era diferente, algo assombroso aconteceu: a víbora deslocou-se para trás da gameleira e um moleque, pretinho, pernas finas, pés largos, surgiu por detrás, segurou o ginete pelo focinho e disparou com ele. Chico Nico caiu em estupor, perdeu o poder sobre a alimária que só obedecia ao negrinho. Saíram da estrada e desceram em desembestado galope. O animal tropeçava, levantava, planava e deslizava sobre as touceiras de capim. Para trás ficavam os rastos daquela corrida desatinada. Nada interrompia a cavalgada satânica: galhos esgarçados, pequenos arbustos arrancados com raízes, espinheiros curvados e retorcidos. Sobre as pedras, as ferraduras tiravam fagulhas, como se pretos velhos estivessem tentando acender as bingas para tirar um trago nos cachimbos ou cigarros de palha. Ao passar por casebres de colonos ou de agregados, estes punham as cabeças para fora das toscas janelas e as retiravam rapidamente, persignando-se com terror. Seguiram morro abaixo, quase em linha reta para a fazenda, sem respeitar buracos, cercas, vales e matas, como se estivessem voando a alguns palmos do chão. A viagem agônica durou pouco tempo; porém, para o fazendeiro, foi infinitamente longa.
Chegaram ao curral; o cavalo estancou como se estivesse diante de um muro invisível e difícil de transpor. Pelas ventas escorria sangue que se misturava com a espuma da boca e transformava em uma baba sanguinolenta, cujo filete descia ao chão. O corpo do pobre animal estava molhado de suor. Teve um tremor violentíssimo, derreou-se, caiu de prancha com um baque surdo, arrebentado de tanto esforço.
O crioulinho desapareceu misteriosamente, apenas um assobio finíssimo feriu o ouvido de todos, causando arrepios de temor nos que o ouviram. O mal não estava mais ali, por enquanto.
Chico Nico deu acordo de si e se levantou da sela. De fato, estava sentado ridiculamente no cavalo morto. Como um zumbi subiu a escada e entrou cambaleante. Rita, sua filha, estava no quarto. Ele passou direto, mas ela segurou-o peia mão e disse quase sussurrando:
— Papai, hoje ele não veio...
Olhou para a filha estranhamente e seguiu adiante. Na sala estava a mulher.
Dona Almira era alta, magra, cabelos grisalhos, nariz aquilino cheio de cravos. Tinha um olhar cansado, triste e bondoso. Encarou o marido, interrogando-o silenciosamente. Ele falou: — O padre virá.
A mulher não ficou totalmente satisfeita, notara-lhe a mortal palidez, acompanhou-o ao quarto do casal.
— Graças a Deus — disse ela. — Um padre é nossa última esperança, não aguento mais, aqui é um caos. Você ficou uma semana fora, os problemas duplicaram. Como foi a viagem? — E sem esperar resposta: — A menina não está nada bem, não dorme direito e, quando o faz, se levanta como uma sonâmbula e tenta sair de casa, fala com voz diferente e, como sempre, vê coisas. Hoje nada aconteceu, felizmente...
— Eu sei por que: ele estava comigo... —Apagou.
Nos contrafortes da serra da Saudade com as serras da Bocaina e de Ibitipoca, no centro de um triângulo formado pelos povoados de Santa Bárbara, Pirapitinga e Humaitá, sobre um platô, estava a antiga e imponente fazenda Jurema. Para construí-la tiveram que desbastar uma pequena nesga de floresta coberta de palmeiras, onde se viam lindos buritis, carandaís, brejaúbas, indaiás e outras. Quando da inauguração, pensaram em vários nomes, como palmital, cocais, coqueiros. Por fim optaram por Buriti; mais tarde, o atual dono a rebatizara Jurema.
É possível que alguns nomes propiciem focos e concentrações de energias misteriosas. Parece que a palavra Jurema é um dos casos de atração negativa. Trata-se de uma planta usada pelos indígenas como poderoso meio de feitiços, sortes, encantamentos e de invocação das forças da mata. Provoca sonhos e visões terríveis e é indispensável em sessões de catimbó e de pajelança. Chico Nico era chegado a este tipo de trabalho mágico. Apesar da troca de nome, os mais velhos teimavam em chamá-la Buriti.
A fazenda era velha, muito velha; diziam que tinha mais de duzentos anos; um exagero, talvez cento e cinquenta; mais de cem, certamente. Construída totalmente sobre pedra, resistira às intempéries e ao vandalismo do homem. Os pilares, de blocos retangulares de cantaria, com oitenta centímetros de comprimento por trinta centímetros de largura e mesma dimensão na altura, bem nivelados, ajustados, esquadriados, uns sobre os outros, dispensavam qualquer tipo de argamassa para soldá-los. Sobre as colunas pétreas repousavam os barrotes e vigas de aroeira ou de peroba, com quarenta centímetros de largura e altura, e de comprimentos variáveis. Todos travados entre si constituíam um conjunto sólido e durável. Sobre esta base, elevaram-se colunas, algumas de madeira de lei, outras de pedra, aprumadas e travadas. As paredes foram emboçadas com massa de adobe e pintadas de ocre suave, as janelas envidraçadas, corriam em forma de guilhotina; as venezianas abriam-se para dentro. O gradeamento que suportava o telhado colonial era uma obra de arte de bons carpinteiros e marceneiros. A madeira, ajustada e presa com cavilhas do mesmo material, armava uma gaiola que suportava qualquer forro e telhado, sem perigo de desabar. As tesouras, caibros, ripas, terças, cumeeiras, etc. eram de peúna, candeia, canela e canjerona. As janelas, portas, assoalho, móveis em geral, feitos de madeira maciça, compunham um conjunto harmonioso e longevo. As várias dependências enormes. A antiga senzala, de lanço corrido, ocupava grande parte do piso inferior; a cozinha, certamente, dominava um terço da área total do piso superior.
Entrava-se na fazenda pelo porão, quando a cavalo. Lá deixavam o animal para ser cuidado. Subia-se por uma escadaria de pedra até uma espécie de ante-sala, onde se guardavam os chapéus, capas, bengalas, esporas e guarda-chuvas. De lá acessavam a um salão, ou ao varandão.
O alpendre tinha a mesma dimensão de um lado da casa: mais ou menos quarenta metros. Por ele entrava o pessoal que vinha a pé. Na sala dourada, a maior, com 150m2, acontecia as grandes recepções, bailes, saraus e casamentos. Não existia capela. Dez quartos, cinco salas, dois escritórios, sala de banhos, despensa e outras dependências completavam o segundo andar. A frente da enorme fazenda era orientada para o lado sul. Do mesmo lado, ficava o terreiro e o gigantesco curral, calçado de pedras, ligeiramente inclinado. Após eles, vinha a planície. Mais longe, linhas cinzentas indicavam a fumaça de algumas chaminés das casas mais altas de um lugarejo.
No lado leste, uma linda cachoeira despencava num açude profundo, com eterna névoa sobre ele, decorrente da evaporação das águas. Também se podia observar parte da floresta que recobria a serra. Aproveitando a queda d'água, instalaram o moinho para moagem do milho, o engenho de cana e o alambique para a fabricação de cachaça, rapadura e açúcar preto. O paiol, a queijeira, a selaria e o forno ficavam na parte norte. Finalmente, a oeste, cultivavam hortaliças e árvores frutíferas, sendo colhidas verduras e frutas das mais variadas espécies o ano inteiro.
Por todos os lados se chegava à herdade. Algumas estradas eram íngremes, outras mais planas, dependendo da direção escolhida.
Como muitas outras esta fazenda fora construída por escravos, e nela centenas pereceram. Chico Nico, o atual proprietário, a obtivera por herança. Por ser imensamente rico, possuía muitos empregados; mais de cem. Afirmavam que, no tempo da escravidão, tivera mil ou mais. Ainda produzia quase tudo: café, arroz, feijão, farinha, milho, além de muitos outros produtos. Centenas de cabeças de gado, cavalos, ovelhas e aves domésticas propiciavam muita abundância. Diziam que naquela casa só se comprava sal.
Chico Nico era um barão, até adquirira a patente de coronel da Guarda Nacional. Considerava-se o rei daquelas paragens; o senhor da vida e da morte dos familiares e dos empregados. Não admitia contestação dos seus mandamentos, não temia Deus, nem ao Demônio. Invocava constantemente os nomes do excomungado e gostava da expressão: Com seiscentos mil diabos.
O divertimento preferido era o estupro. Nenhuma donzela, filha de colonos ou de vizinhos, escapava de ser "iniciada" por ele. Intitulava-se inaugurador das virgens. Caso fosse enganado por alguma candidata, virava bicho e punia o antecessor com castração ou morte. De vez em quando sumia algum colono, a razão era a fuga para não morrer. Mandava e desmandava. Considerava-se superior ao delegado, escrivão e juiz de paz. A riqueza não era produto só do trabalho, diziam que teria recebido muito dinheiro falso de Portugal, em fundos duplos de garrafas cheias de vinho, importadas. Emprestava dinheiro a juros extorsivos, mediante a hipoteca de terras. Na data do vencimento, executava judicialmente os inadimplentes e tomava os bens imóveis. Useiro e vezeiro na tocaia, fez desaparecer muito vizinho recalcitrante. Dono de mil alqueires de terra e queria mais sim, porque tinha ambição insaciável. Lamentavelmente, era coiteiro: a fazenda, o refúgio de assassinos, ladrões, assaltantes e fugitivos da pior espécie.
Com sessenta anos de idade, parecia ter mais de setenta. Estava velho cm face dos excessos que cometera: mulheres, bebidas e jogo. Neste último, ganhava sempre; um trapaceiro refinado.
Este é o retrato duro e sem retoques, do fazendeiro. Mulher e filhos só diziam “sim, senhor”. O velho não tinha qualquer consideração com os parentes. Conviviam com ele, mas preferiam vê-lo pelas costas. Sentiam-se aliviados quando o viam partir para alguma viagem e pediam a Deus que demorasse bastante.
Autoritário, mandão e egoísta eram os adjetivos menos fortes com que lhe brindavam. Na ocasião de eleições, os candidatos do oficial da Guarda Nacional seriam eleitos. Depois, para qualquer decisão, iriam lhe pedir a bênção. Certa vez o delegado desobedeceu a sua ordem para soltar um preso. Agiu rápido, removeu a autoridade, soltou o prisioneiro e demoliu a cadeia.
As estórias das arbitrariedades de Chico Nico eram sem fim. Ele bem que queria ser endeusado, na verdade, merecia a visita do tinhoso. Aliás, diziam que tinha um famaliá preso na garrafa; um cramulhão.
Há muitos anos plantava egoísmo, ódio, maldade, assassinatos, trapaças, misérias e dores; agora estava colhendo a tempestade.